Instituto Gutenberg

CÃEZINHOS DE ESTIMAÇÃO,

CÃES DE GUARDA E VIRA-LATAS

Wolfgang Donsbach

©Media Studies Journal

 

Como devemos entender os valores profissionais que motivam os jornalistas nos Estados Unidos? Uma olhada nas publicações acadêmicas e profissionais leva à confusão: alguns afirmam que os jornalistas americanos são objetivos demais; outros, que não são suficientemente objetivos. Alguns vêem os jornalistas americanos como cãezinhos de estimação, outros como cães de guarda e alguns como vira-latas. Alguns acreditam que a imprensa é dependente de relações públicas da política; outros afirmam que a mídia superou o poder político.

 No entanto, a maior parte destas discussões sobre normas, atitudes e práticas jornalísticas é prejudicada pelo fato de que há pouca ou nenhuma evidência comparativa disponível a respeito de jornalistas de outros países (embora sejam comparáveis), que possa colocar em perspectiva as tradições e práticas americanas. Atualmente, o jornalismo deve ser encarado sob uma perspectiva global. As características diferenciais do jornalismo americano podem ser entendidas melhor não se olhando isoladamente os jornalistas americanos, mas comparando-os com seus colegas do mundo todo. Muito da confusão pode ser resolvida simplesmente fazendo-se uma simples pergunta: onde se situam os jornalistas americanos em comparação com os jornalistas dos outros países?

 Uma característica do jornalismo americano se destaca acima de qualquer outra: a objetividade. Os Estados Unidos são o país onde o ideal do jornalismo objetivo nasceu. Michael Schudson, em seu livro Descobrindo as Notícias, descreve como, começando nos idos de 1830, os editores soltaram os laços com figuras políticas, partidos e grupos de interesse, e tentaram vender notícias para o público. Seguindo um raciocínio econômico de que com menos parcialidade mais leitores seriam atraídos para um artigo, os fatos tornaram-se o conteúdo principal dos jornais e substituíram as anteriormente dominantes páginas de opinião.

 O jornalismo americano tornou-se altamente profissional, apoiado pela emergência de instituições de formação em universidades e por associações profissionais. Ambas reforçaram a estrutura existente e ajudaram a padronizar as práticas dos jornalistas através do país. Lá pelo início do século 20, os traços principais da mídia americana estavam definidos: imprensa livre e negócio, um sistema relativamente rígido de especialização de trabalho e organização gerencial, um papel reconhecido como uma carreira comum que requeria jornalistas que buscassem audiência maciça, e uma ética de trabalho essencialmente consistindo de objetividade, equidade e distanciamento dos fatos. Esses traços ainda distinguem os jornalistas americanos da maioria de seus colegas nos países comparáveis.

 Os jornalistas europeus são herdeiros de diferentes histórias e tradições. Na Alemanha, na Grã-Bretanha, na Itália e na Suécia - quatro nações cujos jornalistas foram avaliados por mim e por Thomas Patterson, da Universidade de Siracusa, para compará-los aos jornalistas americanos - a edição de notícias é influenciada por fatores bem diferentes dos que são importantes nos Estados Unidos.

 Na Europa continental, a mídia e o jornalismo se desenvolveram de forma muito diferente do que nos Estados Unidos. A Alemanha e a Itália são casos a serem analisados. Em ambos os países, desde o início, escritores exerceram uma forte influência sobre o jornalismo. Na Alemanha do século 18, os poetas que não mais queriam servir a seus reis absolutistas deixaram de escrever para a corte e passaram a escrever para jornais, onde encontraram mais liberdade em sua luta política pelo Iluminismo. Na Itália, muitos dos atuais jornais nasceram de gazetas literárias. No final do século 19 e no início do século 20, o fenômeno da imprensa partidária emergiu na Europa na ocasião em que a maior parte dos jornais americanos tinha acabado de se livrar de laços ideológicos. Na República de Weimar, na Alemanha (1919-1933) os jornais, em sua maioria, eram de uma forma ou de outra ligados a partidos, igrejas ou a grupos de interesse.

 Entretanto, mesmo com o declínio da imprensa partidária depois da Segunda Guerra Mundial, o caráter político da mídia prevaleceu por intermédio de pontos de vista pessoais dos editores. Como consequência histórica, há ainda hoje, nesses países, um "paralelismo imprensa-partido" relativamente forte, como denominou Seymour-Ure. Em outras palavras, o conteúdo de diferentes jornais está ligado às plataformas ideológicas e programáticas dos partidos políticos. O desenvolvimento da imprensa britânica seguiu um curso ligeiramente diferente. Com a emergência da imprensa de massa veio a emergência dos poderosos "barões" da imprensa, que eram livres de controle político direto mas eram facciosos por opção pessoal. Alguns destes jornais ainda existem a nível nacional, embora a maior parte da mídia de notícias britânica, especialmente a BBC, compartilhe das noções mais neutras do jornalismo americano.

 Recentemente, diversos autores argumentaram que o jornalismo americano está se desviando de seu papel tradicional de proporcionar informações objetivas, encaminhando-se para um modelo mais europeu de reportagem, no qual a imprensa é politicamente mais ativa e agressiva. Para testar esta idéia, Patterson e eu fizemos nossa avaliação com jornalistas - tanto repórteres quanto editores - sobre política, governo e assuntos da atualidade. Os jornalistas avaliados foram selecionados randomicamente. Em cada país, 50% da amostragem era de profissionais de jornais, 35% de televisão e 15% de rádio. Metade da amostragem de cada país foi selecionada de veículos de alcance nacional, metade de organizações locais. A avaliação produziu surpreendentes resultados.

 Em comparação com seus colegas europeus, os jornalistas americanos conseguem os maiores pontos quanto à importância da objetividade. Nove entre dez dizem que "é muito importante que um jornalista tente ser tão objetivo quanto possível"; na média, 10 pontos percentuais mais do que seus colegas em todos os outros países. Entre os jornalistas americanos a importância da objetividade não é influenciada pela idade. Na Alemanha e na Suécia, entretanto, jornalistas mais moços dão menos ênfase à objetividade do que seus colegas mais velhos.

 Quando indagados que característica na publicação de notícias chega mais próxima ao termo objetividade em seu ponto de vista, os jornalistas americanos respondem - muito mais do que seus colegas dos outros países - que objetividade significa expressar com equidade a posicão de cada lado em uma disputa política (Figura 1).

 Os jornalistas americanos também são os mais agressivos na defesa de uma imprensa livre. Nós juntamos as opiniões de nossos entrevistados sobre seis pontos diferentes relativos à liberdade de imprensa em um índice só. As seis questões se referiam a: acesso livre a documentos do governo; as consequências legais de quebra de promessa de sigilo de uma fonte de notícia; o direito de proteger fontes no tribunal; trazer à tona ações de difamação contra pessoas de cargo público; o direito do cidadão de contestar críticas falsas; e o direito governamental de censurar notícias em caso de segurança nacional. Como mostra a Figura 2, os jornalistas americanos - muito mais do que seus colegas europeus, particularmente os italianos - acreditam que a imprensa deve ser livre de influências externas em decisões sobre notícias.

 No entanto, os jornalistas americanos são o grupo menos escrupuloso quando se referem às vidas privadas de ocupantes de cargos públicos. Quando questionados sobre a afirmação de que "os jornalistas não devem remexer na vida pessoal dos indivíduos", quase 9 em 10 discordaram (Figura 3). Enquanto jornalistas americanos e ingleses não respeitam muito a esfera privada uma vez que o indivíduo tenha um cargo público, na Itália e na Alemanha há um acordo de cavalheiros de que certas áreas são tabu para cobertura da imprensa e, na verdade, a maioria dos jornalistas concorda com esse pacto e algumas vezes reporta menos do que sabe. Os políticos ingleses e americanos abandonam o escritório ou se recusam a dar declarações com mais frequência do que os italianos ou alemães não porque sejam mais imorais, mas porque os servidores públicos italianos e alemães são cobertos por uma imprensa mais tolerante.

Jornalistas ingleses e americanos, comparados a seus colegas na Itália, Suécia e Alemanha, em geral trabalham mais ativamente para conseguir os fatos. Perguntamos aos jornalistas que fontes usaram quando estavam trabalhando em sua mais recente notícia. Os jornalistas americanos (Figura 4) exerceram esforço pessoal muito maior para cobrir uma história do que seus colegas internacionais. No extremo oposto, os jornalistas alemães confiam na maioria em agências de notícias e - junto com os suecos - são os mais passivos. Em geral os jornalistas do continente europeu dão como verdadeiras as notícias e acreditam que o principal trabalho do jornalista é interpretar e avaliar as mesmas.

 A luta agressiva para conseguir os fatos indica que os jornalistas americanos enfatizam o lado tático do dia-a-dia dos políticos acima de temas sociais mais amplos e questões de política pública? Quando solicitados a dar suas opiniões sobre esta afirmação: "Temas políticos, tais como disputas políticas, estratégias, erros e coisas assim, valem mais para cobertura de notícias do que temas políticos tais como legislações pendentes, condições sociais e similares", os jornalistas americanos mostraram o menor percentual de concordância (Figura 5). Obviamente estamos investigando opiniões e não o real conteúdo da mídia, mas é possível que esse resultado corrija alguns dos estereótipos contra os valores das notícias dos jornalistas americanos.

 Ainda assim outro estereótipo - o de que o conteúdo da mídia americana é conduzido principalmente por interesses comerciais - parece fraco à luz de dados empíricos. Compilamos em um único índice quatro tópicos diferentes: a importância dos competidores em controlar as decisões sobre as notícias, a frequência com que um artigo é mudado para aumentar o interesse do público, restrições impostas pela necessidade de conquistar a atenção da audiência, e se é típico do trabalho do entrevistado conquistar audiência mais do que informar a mesma. No índice de "competição e comercialização" (Figura 6), os jornalistas americanos caem na mesma escala dos europeus - com exceção dos jornalistas alemães. Não nos esquecendo de que medimos atitudes mais do que práticas, e que as respostas dos jornalistas suecos que tiveram os índices mais altos neste índice podem ser provocadas parcialmente por suas aspirações à independência no trabalho, os sentimentos subjetivos dos jornalistas americanos não demonstram uma subordinação excessiva de seu trabalhos ao negócio e ao mercado competitivo.

 No jornalismo americano, o repórter, o editor e o editorialista ou comentarista realizam funções diferentes e claramente definidas (Figura 7). Esse não é o caso na maioria dos países da Europa continental. Nos jornais tradicionais alemães, uma pessoa pode cobrir um evento nas páginas de notícias e escrever um editorial sobre o mesmo assunto. Além disso, não há uma estrutura hierárquica clara do controle editorial nas redações alemãs: o papel do editor como pessoa que verifica os fatos, o equilíbrio e o estilo de uma história de um repórter não existe na maior parte das redações (exceto em alguns jornais e revistas maiores).

 A esse respeito, as redações americanas e alemãs constituem dois mundos profissionais muito diferentes. Citando as atribuições do repórter ("preparação de reportagens baseadas em observação pessoal e investigação"), do editor ("tomar decisões sobre o conteúdo de notícias que outros jornalistas produzem") e do editorialista ("escrever editoriais"), perguntamos aos nossos entrevistados com que frequência eles realizam cada trabalho em conjunto com outro. Com que frequência, por exemplo, eles cobrem um evento e ao mesmo tempo escrevem um editorial sobre ele?

 Nesta comparação internacional, os jornalistas americanos estão entre os menos prováveis em misturar funções jornalísticas (somente os suecos acreditam mais firmemente na separação destas funções). Somente um em quatro mistura reportagem e edição, um em seis mistura reportagem e comentários, e um em cinco mistura edição e comentários. Os jornalistas alemães são o exato oposto. Três em quatro dizem que gastam bastante tempo cobrindo eventos e pelo menos algum tempo escrevendo comentários, muitas vezes sobre o mesmo evento.

A separação de tarefas no jornalismo é uma maneira de conseguir objetividade. De forma ideal, a distinção entre o observador que coleta os fatos, o editor que verifica os dados e o comentarista que faz a avaliação do evento deveria minimizar a possibilidade de que uma notícia fosse influenciada pela opinião pessoal e pelos desvios do repórter. No jornalismo alemão, onde encontramos um alto grau de sobreposição entre estes papéis, encontramos também - em análises de conteúdo através da mídia - um alto grau de correspondência entre notícias e comentários. A seleção de notícias é sincronizada com os pontos de vista expressos nas páginas editoriais.

 Outra forma de evitar parcialidade excessiva nas notícias é o controle editorial. Perguntamos aos nossos entrevistados com que frequência as notícias que eles preparam são mudadas por outra pessoa na redação. Quatro razões para tais mudanças foram indicadas no questionário: aumento de interesse do público, aumento da precisão factual, melhoria de equilíbrio político e dar à notícia uma intenção política.

Os jornalistas americanos (Figura 8) enfrentam o maior grau de controle editorial por razões de interesse de audiência e acurácia factual, e - junto com os italianos - por razões de melhorar o equilíbrio político. Os alemães e suecos estão do outro lado da escala. As notícias que eles preparam são geralmente impressas ou transmitidas sem interferência - não há quase nenhuma estrutura de controle editorial. Muito poucos entrevistados em todos os países dizem que as notícias que eles preparam são mudadas para receberem um acento político.

 Como era de se esperar, o jornalismo americano impõe medidas mais firmes de controle para evitar crenças e preferências pessoais dos repórteres. É claramente um sistema de processamento das notícias controlado pelo editor, enquanto que na maior parte dos países europeus os pontos de vista subjetivos do jornalista são aceitos no conteúdo transmitido pela mídia.

 Em todos os países os jornalistas são motivados pelo desejo de informar seus compatriotas e de revelar e expor problemas. Não há muita variação entre os entrevistados nos cinco países quando indagados quão importantes são esses aspectos para seu trabalho. Entretanto eles diferem bastante quando chegamos a facetas mais ativas do trabalho.

 À primeira vista, é surpreendente que os jornalistas americanos - juntamente com seus colegas ingleses e suecos - tenham atribuído mais pontos do que os alemães e italianos sobre a importância percebida de influenciar decisões públicas de política e do público em geral (Figura 9). Isto contradiz o que aprendemos até agora a respeito das motivações políticas dos jornalistas europeus quando fazem seu trabalho. No entanto, o último item do gráfico coloca estes resultados sob outra perspectiva.

 Em comparação com seus colegas europeus, os jornalistas americanos são os menos prováveis de acreditar que é importante para eles "defender valores e idéias particulares". Foram os jornalistas alemães e italianos que atribuíram maior número de pontos a este item: 71% dos entrevistados alemães e 74% dos italianos disseram que é muito ou bem importante para eles defender valores e idéias particulares.

 Obviamente, influenciar o processo político e a opinião pública motiva os jornalistas de todos os países até certo ponto. Entretanto são os meios de exercer essa influência que fazem a diferença. Para simplificar os dados, pode-se dizer que os jornalistas americanos querem principalmente influenciar os políticos e o público através da informação (quase 100% diz que é muito ou bem importante para eles passar informação às pessoas) e não através da defesa de suas idéias, valores e crenças. Para os jornalistas alemães e italianos, no entanto, são particularmente estes aspectos subjetivos que os motivam a buscar este tipo de trabalho.

 Perguntamos também aos jornalistas se suas reportagens defendem tipicamente um ponto de vista particular ou dão um enfoque imparcial aos eventos. Em nossa análise, os jornalistas americanos são os menos prováveis para serem defensores; os jornalistas italianos e alemães os mais prováveis (Figura 10). Além do mais, os jornalistas americanos são os mais fortes defensores de um sistema de notícias imparcial, em que cada meio de comunicação tente apresentar uma versão ponderada de todos os pontos de vista significativos. Em contraste, na Itália e na Alemanha, um número considerável de entrevistados era a favor de um sistema de notícias defendidas em que cada organização de notícias tentasse promover seu próprio ponto de vista particular.

 Para resumir, de uma perspectiva internacional, os jornalistas americanos são uma classe peculiar dentro da profissão. Eles são agressivos defensores da liberdade de imprensa, algumas vezes ao custo dos direitos das pessoas envolvidas na notícia. De longe eles têm os mais altos graus de divisão de trabalho entre as diferentes tarefas jornalísticas, e enfrentam o controle editorial mais firme para garantir a acurácia e o equilíbrio factual.

 Embora eles gostem da influência política, não perseguem esse objetivo defendendo seus valores e crenças subjetivas - como fazem seus colegas alemães e italianos - mas sim cavando informações relevantes em sua própria pesquisa. A maioria dos jornalistas nos Estados Unidos ainda apoia as normas de objetividade, equidade e neutralidade. Visto de um ponto de vantagem global, o jornalismo americano ainda é um baluarte do jornalismo profissional dedicado à reportagem objetiva.

 

Wolfgang Donsbach, professor-visitante do Freedom Forum Media Studies Center, no período 1989-90, é diretor do Departamento de Comunicação da Universidade de Tecnologia de Dresden, na Alemanha. Ele é co-autor com Thomas Patterson do livro Notícias e sistemas de notícias, que está em fase de edição.

      Boletim Nº 8  Março-Abril  de 1996
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