No final de 1995 e começo de 1996, a Globo ressuscitara um violento noticiário sobre a Igreja Universal do Reino de Deus e seu bispo Edir Macedo. Foi seguida pelos grandes jornais e pela revista IstoÉ. As duas redes — a Record pertence à igreja — trocaram acusações a pretexto de informar o público e de repente calaram-se. O espantoso no episódio é que a Rede Globo havia divulgado nota, no Jornal Nacional (4/1), afirmando que fazia jornalismo e não “guerra de emissoras”. Na verdade era tudo — guerra de emissoras, disputa de mercado, conflito religioso, festival de fofocas —, menos jornalismo. Mas se era jornalismo, causa espanto que o Jornal Nacional, programa de notícias de maior audiência do País, de repente tenha suprimido informações de interesse público por “apelo” de um ministro. Se uma empresa jornalística omite notícias por intervenção do governo, aceita censura ou reconhece a irrelevância do noticiário. Notícias devem ser dadas, quer agradem ou não ao governo, e as que não agradam são as melhores.
O episódio contrasta com o substancial aumento de qualidade do jornalismo da Globo, agora dirigido por Evandro Carlos de Andrade. O Jornal Nacional, que já era o melhor em recursos técnicos e logísticos, melhorou o conteúdo. Nos limites de zelos e interesses da mídia brasileira, o JN tem exibido informações e cuidados éticos que emularão as demais redes a viver de seus próprios esforços e não da comparação com a emissora líder. Ela deu um banho, num exemplo fácil, na cobertura da chacina dos sem-terra no Pará (18/4) e com o Globo Repórter que revolveu o caso Riocentro. Nessa linha noticiosa, tende a extinguir uma das escamoteações prediletas da mídia e de muitos jornalistas brasileiros: a de empalmar seus erros e falar mal da Globo.