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A conta conjunta da mídia com os fabricantes de números Suíte

 A conta conjunta da mídia com os fabricantes de números

 É dever cobrar das fontes a origem dos algarismos duvidosos, como os da CPMF

 A imprensa brasileira não se dá bem com números. Até hoje não explicou, por exemplo, como um aumento de 4,2%, anunciado em fevereiro pelo IBGE, elevou o Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 356 bilhões em 1994 para R$ 621 bilhões em 95 (seria um aumento de 74% e não de 4,2% - leia mais). No boletim de abril de 1995, no artigo Vamos duvidar dos números duvidosos, o Instituto Gutenberg mostrou como a mídia aceita de bom grado números tão grandes quanto inverossímeis divulgados sem que se tenha a menor idéia da forma como foram apurados. Alguém divulga (projeta, chuta, inventa) que no Brasil se fazem 3 milhões de abortos por ano e esse torpedo tão clandestino quanto os abortos faz estragos na verdade.
Aos poucos, no entanto, uma parte da imprensa começa a reagir aos números órfãos e sensacionalistas. O ombudsman da Folha, Marcelo Leite, tem anotado contas que não fecham e porcentagens maiores que o todo em matérias do jornal. Se esses pequenos cuidados se multiplicarem, a mídia vai começar a cumprir seu papel de divulgar informações exatas e zelar pela exatidão deixando, comodamente, de atribuir às fontes qualquer maracutaia que lhe chega às mãos.
Um exemplo da reação aos números duvidosos foi dado pela revista Veja (edição de 21/8). A reportagem "Zona numérica" insurgiu-se contra a divulgação, pela Organização das Nações Unidas (ONU), de um inexplicado exército de 500 mil prostitutas infantis no Brasil. Provavelmente, foi a reportagem mais grosseira da história da revista (chamou a ONU de bordel de irresponsáveis, seus técnicos de prostitutos e jornalistas argentinos, que divulgaram o número tanto quanto alguns brasileiros, de marafonas). Grosserias à parte, a reportagem encarou um problema grave das fontes e da mídia: a divulgação de números monumentais sem origem ou fundamento. A pesquisadora Fulvia Rosenberg (Estadão, 26/6/94), da PUC de São Paulo, já havia contestado o batalhão de 500 mil meninas prostitutas. Ela fez um rastreamento e não conseguiu descobrir a origem da conta. "É um número criado pela fantasia de algum pesquisador", concluiu na época. Segundo Veja, o número foi forjado por uma ONG do Recife.
Duvidar dos números não significa duvidar dos problemas que eles medem. Em geral, os números retratam problemas sociais graves por si tão graves que não precisam ser exagerados. Os números podem até quantificar com precisão aproximada a magnitude desses problemas a rigor, ninguém pode afirmar que não praticados 3 milhões de abortos por ano no Brasil mas a seriedade exige aritmética confiável. É com base nesses algarismos que a sociedade se mobiliza e atua politicamente para indignar-se ou combater um problema. Políticas e verbas públicas são manejadas de acordo com a quantificação das chagas sociais, e nesse particular o Estado tem a responsabilidade de gerar números verossímeis. Mas não é o que se vê. Em julho, por exemplo, a propaganda oficial alardeou na TV que o Plano Real fez subir em 87% o consumo de feijão e em 16% o de massas. Era mentira. O consumo de feijão aumentou mesmo 1,4%, e o de massas caiu 6%. Foi fácil pegar porque os produtores estranharam tamanha comilança.
As ciências ocultas que geram dados cabalísticos encontram guarida segura na mídia sobretudo quando interessa usar numerões para maquilar reportagens e defender causas embutidas nas reportagens.
Um caso típico ocorreu no noticiário sobre a criação da CPMF, o imposto sobre o cheque em benefício da Saúde. A elite da imprensa brasileira (os grandes jornais e a própria Veja) trataram o novo imposto como o flagelo da economia. O tom das notícias era o de que a alíquota de 0,20% sobre os cheques arrasará o Plano Real, sabotará a estabilidade da moeda, recriará uma inflação maílsica. Abastecidos por "analistas financeiros" como o próprio Maílson da Nóbrega, ex-ministro de uma inflação de 80% no mês e hoje colunista da Folha, divulgou-se com estardalhaço que o Tesouro gastaria mais do que arrecadaria com o imposto, por conta de um efeito nocivo na dívida pública, ou seja, a alíquota de 0,20% sobre cada cheque passado no país aumentaria os juros da dívida e no final das contas o Tesouro desembolsaria mais do que arrecadaria. Quando lê ou ouve uma profecia desses o leitor só pode acreditar, pois ela vem embrulhada na enganosa embalagem da informação técnica. Não menos antijornalística é a divulgação de informações tão graves sem explicações de como os autores constroem seus cenários malignos. E sem oferecer uma segunda opinião.
O argumento de que a CPMF é a bomba de nêutrons do Real rebimbou na mídia até que dois influentes colunistas de economia o trituraram como a um busca-pé. Luis Nassif, na Folha ("A visão financeira do mundo", 12/7), e Joelmir Beting, no Estadão ("Excesso de fantasia", 14/7), mostraram mais uma vez que o nível das notícias anda tão rasteiro quanto a credibilidade da imprensa. "Tenha-se a santa paciência!", escreveu Nassif. "Além da inconsistência das contas, a desaprovação fala por si do ridículo desses argumentos e da maneira torta como se analisam as prioridades no país."
Com seu límpido estilo de traduzir a Teoria da Relatividade para crianças, Joelmir Beting fez uma contundente crítica de mídia antes de alertar seus leitores para a bobagem que estavam lendo noutras páginas: "Pela leitura dos jornais, a volta do imposto sobre o cheque, agora rotulado de (...) CPMF, vai reatiçar a inflação, convocar a recessão, agravar o desemprego, defasar o câmbio, elevar os juros, protelar os investimentos, excitar a violência, desequilibrar o Mercosul, estragar o carnaval, provocar a 3ª Guerra Mundial". E esbravejou: "Valha-nos, Santa Edwiges, medianeira dos inadimplentes. Somos todos ignorantes ou somos todos cínicos?".
Nas contas de Beting, uma arrecadação de R$ 4,5 bilhões da CPMF em doze meses significaria 0,7% do PIB. "Ora, como poderia um acréscimo tributário equivalente a 0,7% do PIB desencadear tamanhos estragos na economia brasileira se, com todo o seu efeito em cascata, o recolhimento total de pessoas e de empresas não passará de R$ 4,5 bilhões por ano?"
Depois que os colunistas publicaram sua interpretação oposta à das notícias, o suposto efeito arrasador dos 0,20% da CPMF na economia sumiu do noticiário. Curiosamente, a palavra foi então dada pela primeira vez a quem faz as contas nacionais, o secretário do Tesouro, Murilo Portugal. O secretário, que tal como os dois colunistas e o resto dos 157 milhões de brasileiros não morre de amores pelo imposto, disse ao Estadão (23/7) que "o aumento no custo da dívida, se houver, será ínfimo perto da arrecadação da CPMF".
 

Número 10, julho-agosto de 1996
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