É preciso atribuir às fontes as passionais matérias de polícia<center><tt><b><font size=+1 color="#ff0000" face="LithographLight">Instituto Gutenberg<br></font></font></b><hr width=100% align=center><p></center>

Sugestão de pauta

É preciso atribuir às fontes as
passionais matérias de polícia

Jornais publicam notícias de crimes sem citar sequer o boletim de ocorrência

Atribuir as informações é um princípio universal do jornalismo - usado mesmo nas mais inverossímeis matérias em off. Sempre haverá o recurso de “fontes fidedignas” para se atribuir a alguém a informação publicada. Mas está virando rotina nos grandes jornais a omissão das fontes nas matérias de polícia. O primeiro problema está na clássica e vazia citação “segundo a polícia”, que, em muitos casos, é o máximo que se atribui e o mínimo com se informa ou desinforma o leitor. “Segundo a polícia” tem servido para se imprimir informações que um leitor atento fica sem a menor idéia de quem passou, com que interesse e seriedade. Polícia tem chefe, delegado, investigador, detetive e PM - todos com nome e departamento. Na esteira dessa atribuição genérica, termina-se comprando versões policiais que não cabe ao jornalismo endossar.

É o caso dos supostos tiroteios entre policiais e bandidos. A rotina é os jornais publicarem notícias dando conta de que os bandidos receberam os policiais à bala e foram mortos no confronto. O Jornal do Brasil de 22 de maio, por exemplo, deu a nota “Polícia mata traficantes no Catumbi” sem que ninguém, nem mesmo a polícia, fosse chamada para dizer se os mortos eram, e com que indícios, traficantes de drogas.

Há jornais escrevendo matérias policiais sem citar sequer a “polícia”, e isso é particularmente grave se cabe ao leitor imaginar que as informações foram colhidas do boletim de ocorrência, ou, como é mais legítimo, dado o ritmo narrativo do texto, até supor que o redator testemunhou a cena.

As matérias policiais encerram paixões e os boletins de ocorrência são as atas dessas paixões nas quais o repórter não pode se fiar. Um boletim de ocorrência é sempre um amontoado de relatos, em que as partes registram versões antagônicas. Escolher uma delas é mau jornalismo. Não citar sequer o BO pode ser fraude. A falta de fontes e de atribuição é mais comum nas notas e pequenas matérias. Com títulos conclusivos, os jornais descrevem crimes com o tempero que os repórteres do setor chamam de riqueza de detalhes. O Globo de 9 de maio garantiu a seus leitores que o ex-craque Del Vecchio, atacante do Santos nos anos 50, foi baleado pelo genro numa briga doméstica, mas não contou como obteve informações tão seguras.

O Estadão, onde são publicadas muitas notas de intrincados assassinatos sem atribuição a fontes, afirmou em 13 de maio: “Marido mata mulher e se suicida”. A matéria não informou sequer em que delegacia o caso foi registrado, e o texto não ofereceu um só indício de que o analista de sistemas José Wagner Pereira de Carvalho dera três tiros na educadora Márcia Pandolfi e depois se matara com um tiro no rosto. Como o jornal soube disso? Contando a história com esta precisão, sugeria que testemunhara o crime.

Boletim Nº 3 Maio-Junho de 1995

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