IGutenberg Sugestão de pauta

Mídia deveria dar a notícia da notícia

Fala-se muito em tiragens e brindes, mas pouco de ética

Avenda ao público dos manuais de redação de alguns jornais (Folha, Estadão, Globo e Zero Hora) foi um marco na construção de uma relação de transparência da imprensa com o público. O manual é um contrato com o leitor — as regras neles anunciadas balizam o público sobre a forma como o meio de comunicação cobre os acontecimentos, seus critérios, seu código de conduta, sua visão do mundo. É claro que os manuais são ignorados no dia-a-dia, por conveniência ou preguiça, e alguns contêm verbetes ornamentais, como o da Folha, que promete: "Nenhuma acusação criminal contra qualquer pessoa poderá ser publicada sem a comprovação documental".
Para avançar minimamente na transparência, a mídia deveria divulgar a atualização dos manuais e a implantação de novos critérios para solução de velhos problemas. As empresas jornalísticas, muito auto-referentes, são pródigas em atulhar seu público com notícias sobre tiragem, venda de anúncios, novos produtos, brindes, furos, mas são sovinas na divulgação de normas de conduta. Assuntos da ética e da técnica jornalísticas deveriam gerar reportagens de interesse do público, como ocorre nos Estados Unidos.Na verdade, são raríssimos no Brasil os comunicados sobre a implantação de critérios éticos para apuração e divulgação de notícias, e o pior é que não se pode acreditar na sinceridade deles. Em 20 de maio do ano passado, por exemplo, o Estadão — acossado por uma reportagem que a revista Veja preparava sobre mordomias de jornalistas brasileiros na Itália — informou que tinha como "norma básica não publicar reportagens de jornalistas em viagens a convite de empresas ou quaisquer instituições". A tal norma básica não vigorou uma semana — e o caderno de turismo do jornal, feito basicamente com reportagens custeadas por hotéis, agências de viagem e companhias aéreas, continuou sendo uma oração de São Francisco (Boletim n° 3, Mordomias são admitidas pelos manuais de redação).
A questão voltou à baila nas últimas semanas quando cresceu no país um movimento pela classificação de programas da TV. O Departamento de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça prometeu exigir das emissoras de TV (Folha, 12/8) um controle mais severo dos horários em que passam filmes considerados impróprios para crianças, como, por exemplo, o abusivo Cine Trash, um lixo de terror pornográfico que a rede Bandeirantes exibe no meio da tarde. A auto-regulamentação é o primeiro passo. A experiência dos publicitários com o Conar é muito positiva: qualquer pessoa pode reclamar , por exemplo, de propaganda enganosa, e o Conselho dá ouvidos: instalou 150 processos em 1995, todos resolvidos internamente sob a guarida da auto-regulamentação. "Achamos que isso é o que deve ser feito", disse à Folha o vice-presidente da Abert, associação das emissoras de rádio e TV, Luiz Eduardo Borgerth. "Tanto que temos um código de ética e um conselho de ética em funcionamento há três anos". Não há notícia, porém, de que nesse triênio a Abert advertiu publicamente uma rádio ou uma TV por despejarem lixo na casa dos ouvintes ou telespectadores. O código da Abert é uma letra morta tão enrijecida quanto o cadáver dos "Preceitos" da Associação Nacional dos Jornais. O Brasil tem cerca de 350 jornais diários, dos quais aproximadamente cem são filiados à ANJ, mas também não se conhece uma só advertência a um jornal que, por exemplo, deixe de indicar (preceito n° 9) que determinada reportagem ou caderno/informe especial é matéria paga. A rigor, as associações atuam como lobbies de interesses corporativos das empresas de comunicação, e a ética ou compromisso com a verdade são valores a que podem aderir de acordo com a sua conveniência, mas não como um imperativo social.
Isso ficou transparente na Declaração de Chapultepec, promulgada pelos jornais filiados à Sociedade Americana de Imprensa (SIP), em 1994, e referendada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em 5/8/96. A declaração tem um caráter libertário muito positivo, mas o item 9 reproduz a falta de compromisso orgânico com a ética:
"A credibilidade da imprensa está ligada ao compromisso com a verdade, à busca de precisão, imparcialidade e eqüidade e à clara diferenciação entre as mensagens jornalísticas e as comerciais. A conquista destes fins e a observância destes valores éticos e profissionais não devem ser impostos. São responsabilidades exclusivas dos jornalistas e dos meios de comunicação. Em uma sociedade livre, a opinião pública premia ou castiga."
Ou seja, adere quem quer. Valores fundamentais do jornalismo, como a verdade, a precisão e a eqüidade, são enunciados não como um imperativo social, mas como um jogo de mercado. Se, de fato, não cabe ao Estado, através de leis, impor normas aos meios de comunicação, a sociedade tem o direito de exigir, inclusive na Justiça, um jornalismo honesto e preciso. Os donos de jornais, por sua vez, poderiam pelo menos se auto-impor a obrigação, não a "responsabilidade exclusiva", de aplicar esses valores.

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Número 10, julho-agosto de 1996
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