Idéias
É melhor ser repórter ou diretor de redação?
Um dos mais completos jornalistas do Brasil, Ricardo Setti dá uma aula (gratuita, parafraseando sua citação de Walter Lippmann) sobre o equilíbrio das funções no jornalismo. Seja repórter ou diretor de redação, o jornalista deve sempre cumprir sua função social de informar o público. Setti é diretor da revista Playboy
Este artigo saiu originalmente no livro “Jornalismo é...”, em que o autor foi convidado a responder a pergunta do título. O livro foi editado pela ABA - Associação Brasileira de Anunciantes (011/283- 4588) e seus 14.500 exemplares, doados a escolas de Comunicação,sindicatos e cursos de formação de jornalistas. Reprodução autorizada pela ABA e pelo autor.
Ricardo Setti
Como repórter, Theodore White certamente não teve
uma vida monótona. Ainda jovem,
privou da intimidade de Mao Tsé-
tung e Chun En-lai nas montanhas de Yenan, no começo da revolução comunista na China. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, que cobriu na Ásia, assistiu de perto ao resgate do General Douglas MacArthur da aposentadoria e do esquecimento para o papel de condutor da vitória americana no Pacífico e o conquistador do Japão. Naquela manhã de 2 de setembro de 1945, no convés do supercruzador Missouri, ancorado ao largo da resplandecente Baía de Tóquio, ele era um dos poucos jornalistas presentes à rendição do Japão — a cerimônia solene e grandiloqüente que encerrou a maior guerra da História da humanidade.
Seu passo seguinte foi, já na Europa, reportar a reconstrução do continente no pós-guerra pelo Plano Marshall. Mas White também registrou, como espectador privilegiado, o surgir de uma nova era no país mais poderoso do mundo, com a ascensão e a morte de John Kennedy. Finalmente, marcou a reportagem política americana com a insuperável série de livros Como se Faz um Presidente, em que radiografou quatro diferentes campanhas presidenciais.
São biografias desse tipo que fazem a mística da figura do repórter. Embora na vida real nem sempre (ou quase nunca) as coisas sejam assim para a grande maioria, paradigmas como Theodore White, falecido em 1994, contribuem poderosamente para fixar, em especial na mente dos jovens aspirantes ao jornalismo, a idéia de que o importante, na profissão, é ser repórter — tudo mais é secundário, o exercício de nenhuma outra função tem a mesma densidade e, principalmente, a mesma carga de emoção.
À figura idealizada do repórter heróico, em busca da verdade e da justiça, como nos filmes de Hollywood, costuma-se contrapor sobretudo a de um tipo de jornalista: aquele que trabalha no que depreciativamente se costuma chamar de a “cozinha” da Redação — tipo que, é claro, inclui os chefes dos repórteres. É como se houvesse, num mesmo exército, os guerreiros e os intendentes, os valentes e os burocratas, os que arriscam a vida e os que, mesmo sendo generais, se espreguiçam, indolentemente, em cima de suas mesas, à espera de que a vida lá fora seja trazida pelo reportariado.
A realidade é bem mais complexa. Uma redação – de jornal, de revista, de programas jornalísticos de TV – precisa tanto de um como do outro tipo de jornalista. Se o repórter é fundamental, se ele representa Augusto Nunes (acima), Evandro Carlos de Andrade (no alto, à direita) e Walter Cronkite: grandes repórteres em qualquer função os olhos, ouvidos e terminações nervosas do veículo, nenhuma Redação chega a lu gar algum sem planejamento, sem alguém cuidando da orientação geral, sem comando. São os repórteres que inundam a Redação de informação, mas são os jornalistas da retaguarda que organizam e dão sentido – começo, meio, fim, onde estamos, para onde vamos – ao dilúvio de material, freqüentemente contraditório, trazido pelos repórteres ou enviado por sucursais e correspondentes.
Não se devem opor uns aos outros. O ideal talvez seja que os jornalistas possam mudar de papel e de função ao longo da vida, de forma a que não apenas os chefes (inclusive diretores de Redação) tenham sido repórteres, mas que grandes repórteres tenham passado, em algum estágio de sua carreira, por cargos de chefia. Embora haja chefes (e mesmo diretores de Redação) que nunca carregam piano na reportagem, a grande maioria dos que dirigem os grandes veículos brasileiros é constituída de jornalistas formados na dura batalha da notícia.
Para ficar em apenas alguns exemplos, Evandro Carlos de Andrade, responsável pela espetacular modernização de O Globo e hoje diretor de Jornalismo da Rede Globo de Televisão, fez carreira como repórter político (esplêndido) no Estado e no JB. Mario Sérgio Conti, diretor de Redação da Veja, gramou em diversas áreas, em jornais mas principalmente na própria, antes de ocupar, com méritos, a atual função. Paulo Nogueira, diretor de Redação da Exame, foi excelente repórter de economia na Veja e de internacional em IstoÉ.
Mas começar na reportagem e ascender para as chefias é, em boa medida, um caminho que faz parte da ordem natural das coisas. Interessante e criativo é o percurso inverso – ter, na reportagem, jornalistas com a bagagem de quem já pilotou o leme. Isso sempre foi possível no país que pratica o melhor jornalismo do mundo, os Estados Unidos. Muitos grandes nomes voltam ao batente da apuração e à roda-viva das fontes depois de terem reinado como senhores por longos períodos. A começar pelo mitológico Walter Cronkite, que comandou o telejornal noturno CBS News durante 19 anos (1962-1981) para, aos 65 anos, como special correpondent, retornar a campo. ( Ainda hoje, aos 81 anos e dono de uma produtora de documentários de TV, Cronkite vez por outra apura sua própria matéria.)
Essa química, como não poderia deixar de ser, produz bons resultados. No Brasil, Marcos Sá Corrêa, atualmente autor de belas reportagens na Veja como editor especial, dirigiu o Jornal do Brasil em uma de suas melhores fases (1985-1991). Antes disso, foi editor na Veja e no próprio JB. Elio Gaspari é um grande repórter que exerceu cargos de chefia no JB e em Veja, que também co-dirigiu como diretor adjunto por um longo período. Clóvis Rossi, repórter especial da Folha de S.Paulo, passou antes pelo cargo de editor-chefe de O Estado de S.Paulo. Roberto Pompeu de Toledo, repórter de primeiríssima linha na Veja com o título de editor especial, já comandou a Redação da IstoÉ e foi editor-executivo do JB. Augusto Nunes, jornalista de talento fulgurante, continuou a produzir grandes reportagens em seus longos anos de chefia – seja no JB, no Estado de S. Paulo ou no Zero Hora.
Por tudo isso, não tenho resposta para a pergunta que este capítulo propõe: “É melhor ser repórter ou diretor de redação?” Pessoalmente, já estive dos dois lados da questão. Em ambos, vivi momentos de alegria e dor, de exaltação e derrota, de frustração e sensação do dever cumprido. É óbvio que existem fundas diferenças entre as duas funções. O repórter enfrenta o stress de sair atrás de algo que ele não sabe se vai obter. Em compensação, tem a suprema ventura de poder se concentrar apenas em suas matérias. O diretor de Redação, por sua vez, se vê a braços com muitas tarefas não especificamente jornalísticas – e, se algumas são interessantes, outras são mortalmente chatas.
Mas acredito firmemente que ambas as situações – a de repórter e a de alguém que fica na retaguarda, tenha seu cargo o nome que tiver, exerça ou não o posto de número 1 de comando de uma operação jornalística – possibilitam a plena realização profissional e dispõem da mesma carga potencial de adrenalina.
Mais que isso, permitem que o jornalista exerça sua função social. Não custa lembrar que esta não é a busca da verdade (por apenas 1 centavo?, brincava o grande jornalista americano Walter Lippman nos anos 20, e referindo-se ao preço de um exemplar de jornal diário de então), nem da Justiça (para isso existe o Judiciário ou, para os mais exigentes, Deus). Mais modestamente, nossa meta e nossa função social é informar o público, dentro de determinado período e de muitas limitações. Se ela for perseguida com energia e determinação, dentro dos bons parâmetros técnicos e da rigorosa ética, já está mais do que bom.
Boletim nº 19 Novembro-Dezembro de 1998
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