Instituto Gutenberg
Resposta

(Comentários à carta do Datafolha)

Em atenção ao direito de resposta, que respeitamos e incentivamos, reproduzimos na íntegra a carta do Datafolha, embora seja desproporcional: tem 60 linhas, o quádruplo do que a Folha recomenda para seu “Painel do Leitor”. Damos atenção especial ao assunto porque pesquisas de opinião no Brasil são muito contestadas e pouco debatidas (Leia mais na pág 3). Achamos justo não replicar as cartas, mas nesse caso a verdade está em jogo. Vamos nos concentrar nos itens 1 e 2 da carta, pois os demais são puro diversionismo.

 Recapitulando, o Datafolha faz uma série de pesquisas sobre o que chama de “prestígio” e “poder” de doze instituições. Criticamos a última, publicada na Folha em 29 de janeiro, com as respostas de 5.491 entrevistados em onze capitais para as questões “Agora vou citar algumas instituições nacionais e gostaria que você me dissesse de cada uma se tem muito prestígio, pouco prestígio ou nenhum prestígio na sociedade brasileira”. (As outras perguntas eram sobre poder). Com as respostas, o Datafolha preparou o “ranking do prestígio das instituições”, liderado pela imprensa (69%).

 É uma pesquisa errada com conclusões erradas. Primeiro, colocamos em questão o fato de a imprensa só obter bons resultados em levantamentos que ela mesma faz. Depois, criticamos a impropriedade do quesito “prestígio”, mas a carta do Datafolha endossa nossa interpretação de que a enquête mediu a imagem, a fama das instituições, ao invés de avaliar essas instituições, como interpretou a Folha, na retranca e no subtítulo da reportagem de 29/1: “avaliação das instituições Apenas 25% da população avaliam positivamente o Legislativo...”. A pesquisa não avaliou o Congresso, mas a imagem do Congresso. O Datafolha pode escrever quinze linhas para a Folha reclamando da distorção.

 A seguir, criticamos o Datafolha por não explicar como montou esses índices. O leitor teria de perscrutar o texto e cruzar os gráficos para descobrir que o índice de “prestígio” é baseado apenas na resposta “muito prestígio”. É tapeação vã alegar que “as três respostas possíveis tiveram o mesmo peso na tabulação dos resultados”. Não tiveram. Só foi considerada a primeira das três respostas opcionais, e os índices das outras duas sequer foram publicados, exceto num gráfico sobre os três poderes da República.

Examinando esse gráfico e uma linha do texto da reportagem, o leitor-garimpeiro descobre que o índice de “prestígio” do Congresso é de 26% porque foi essa a porcentagem de entrevistados que optaram pela resposta “muito prestígio”. Ocorre que 44% dos entrevistados disseram que o Congresso tem algum (“pouco”) prestígio, mas essa taxa alta foi ignorada na conclusão geral. Um pouco, como se pode aprender no romance O primo Basílio, de Eça de Queirós, é uma parte de muito. “Muito” e “pouco” são avaliações diferentes, mas pertencem ao mesmo gênero, assim como ótimo e bom ou ruim e péssimo. Logo, “muito” e “pouco” deveriam ser somados para se ter o índice final de prestígio do Congresso, que seria de 70%. Mas isso o instituto não viu. Montou uma pesquisa que não consegue tabular e gera resultados distorcidos. No máximo, o Datafolha poderia anunciar que o índice de “muito prestígio” do Congresso é de 26%, mas não que esse é o índice total de “prestígio” do Congresso.

      Boletim Nº 8  Março-Abril  de 1996
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