Instituto Gutenberg


O maniqueísmo da RBS não ameaça o Estado do RS

A diferença entre Arte Retórica e Sofísma: quando o jornal se torna um simulacro

Luis Henrique Silveira

Os meios de comunicação são fatores condicionadores da consciência. Por seu valor ontológico assumem como princípio a geração do real (Subiratz, 1989). Neste sentido, ao analisar o editorial de 29 de agosto de 1989, domingo, do mais importante jornal da Região Sul, Zero Hora, encontra-se uma série de problemas de discurso. Problemas estes que diante do quadro político vivido pelo Estado do Rio Grande do Sul são agravados a partir do editorial do jornal que se coloca numa posição de juiz e dono da verdade.
O editorial passa a idéia que existe um “clima de posições extremadas e de posturas intolerantes”(...) “fazendo que ressurjam no Estado as sombras de períodos históricos que podem ter produzido mitos, mas que também foram responsáveis por situações de atraso e de violência(...)”. Embora demonstre a existência de dois lados em confronto, nas entrelinhas, percebe-se que existe um lado, no caso o Governo do Estado, culpado pelo tensionamento.
Com argumentos alarmistas e sem nenhuma sustentação na realidade, mostra que o Governo atual, está parando o Estado, seguindo a mesma linha de argumentos utilizados durante as eleições passadas pela coligação Rio Grande Vencedor, do ex-governador e candidato a reeleição Antônio Britto. “O Rio Grande está parando, atravancado de radicalismos” “O clima destrutivo é produto de muitas mãos e, neste sentido, só um esforço consciente e determinado de cada uma das partes possibilitará que se desarme essa escalada de intolerâncias” e o texto diz mais, “Insatisfeitos em razão da intolerância ou da ausência de diálogo, investimentos fundamentais para o futuro do Rio Grande migram para produzir empregos e riquezas em outras regiões. Pelo mesmo motivo a mais importante e tradicional mostra gaúcha quase se vê transformada em refém de interesses e é ameaçada de esvaziamento”.
O jornal sustenta a idéia que o investimento da Ford era fundamental para o futuro do Estado, enquanto em todo o país se discute a necessidade de recursos públicos para a saúde, educação, habitação, reforma agrária etc. Neste argumento, o jornal deixa claro que não está interessado em verificar os fatos, ou relatá-los conforme o desfecho dos fatos. A Ford já foi para a Bahia, e não está mais em discussão.
A diferença entre o conceito de Arte Retórica e Sofisma, elaborado na Grécia Antiga, pode nos auxiliar nesta discussão do papel dos meios de comunicação de massa e algumas posturas do jornal Zero Hora, expressas no seu editorial. Pelas características com que são tratadas as informações referentes às atividades do Governo do Estado do Rio Grande do Sul o jornal está se comportando como um simulacro. Simulacro na definição do dicionário Aurélio, tem sentido de falsificação, imitação, um fingimento, disfarce, simulação, cópia; reprodução imperfeita ou grosseira; arremedo daquilo que deveria ser um jornal. As suas matérias, entendidas como textos discursivos, em se tratando das notícias sobre o novo Governo, não passam de sofismas.
O sofista é aquele que exerce a profissão de retórico, de político e a comunica aos demais mediante o pagamento de suas lições (Rohden, 1997). Ele pretende com sua arte fazer do argumento mais débil o mais forte. Para os sofistas, em toda a questão, pode-se sustentar um pró e um contra. Neste sentido, ele maneja a linguagem visando a persuasão, conduzindo através da própria linguagem uma coerência discursiva, sem preocupação com a verdade ou com o verossímil, simplesmente preocupados com a vontade de quem os ouve. Eles consideram a eloqüência uma ação mágica exercida pela palavra sobre a alma das pessoas. Eles não buscam outra coisa que alegrar e encantar o auditório com a harmonia da frase e do estilo, com o enfeitiçamento dos sons e dos ritmos, com acentos vibrantes e patéticos.
O editorial, enquanto posição oficial do veículo, é legítimo que tenha o conteúdo daquilo que os donos da empresa pensam. E justamente por ser esta a função do editorial, se torna mais verdadeira a afirmação inicial e o objetivo deste texto. Por ser, justamente, a postura do veículo, usando as provas da Retórica, é possível demonstrar o maniqueísmo do discurso corrente hoje na ZH e em todos os veículos de comunicação do grupo em questão, que estão agindo da mesma maneira.
O título sugestivo do editorial deveria ser substituído por: “O maniqueísmo da RBS ameaça o Estado”. O que do ponto de vista da informação estaria mais correto, pois como editorial, não tem como omitir a posição de quem escreve. Este artigo pretende discutir a dimensão fundamental da reprodução da realidade pela mídia, o fato dela assumir seu caráter instrumental, como extensão dos sentidos e da experiência, em sua capacidade manipuladora, como bem demonstra o editorial da ZH. Os meios de comunicação assumiram um outro papel: o ideológico. Aquele discurso de imparcialidade, de neutralidade, de objetividade, foi apresentado na sua forma mais costumeira, sem nenhum pudor.
Em outra ocasião, o jornal Zero Hora respondeu a uma carta do Coordenador de Comunicação Social do Governo do Estado, Guaraci Cunha, que esclarecia alguns fatos sobre as versões publicadas, a empresa RBS utilizou como resposta ou prova, para demonstrar a sua verdade, um silogismo, como se chamam os argumentos segundo a Retórica de Aristóteles. A premissa utilizada para reforçar a linha editorial do jornal foi o fato de circular, há 30 anos no estado do Rio Grande do Sul. Sendo assim, pressupõe que o jornal é lido por todos e todos os leitores concordam com o que é publicado. Por outro lado, difícil é encontrar alguém que fale bem da Zero Hora, ou que não saibam que a Zero Hora e o Grupo RBS são tendenciosos.
A ideologia é diferente que o capitalismo. O capitalismo pode se adequar a outras situações. A ideologia, justamente por ser fechada em seus paradigmas, ela é dogmática. E a ideologia, que os meios de comunicação no Brasil defendem é a conservadora, dualista, cartesiana, burguesa, retrógrada e não podem mudar sob pena de morrer enquanto ideologia. Mas é justamente isto que está acontecendo, ao contrário do que a RBS e os Francis Fukuyama estão dizendo.
Já que não se pode mudar a ideologia que se mudem aqueles que a utilizam. O povo gaúcho quando elegeu Olívio Dutra optou por uma ideologia, que não é a ideologia neoliberal, de dar dinheiro para multinacional, ou aumentar o salário dos magistrados, ou instalar e elevar o preço dos pedágios, ou entregar a CRT, a CEEE, a Petrobrás, a Telebrás, tudo aquilo construído pelo trabalhismo, como proposta de desenvolvimento autônomo de Estado.
A ideologia vitoriosa defende a inversão de prioridades, o investimento nos pequenos produtores rurais, a reforma agrária, estradas sem pedágio, empresas sobre o controle público, a alfabetização de jovens e adultos, escolas para todos, o direito a infância, etc.
A esta ideologia que o mercado tem que se adequar. As novas tecnologias também influenciam o modo de pensar, independente da ideologia. Tornando a realidade complexa exigindo, para dar conta desta realidade, um tipo de pensamento também complexo. Dentro destes novos paradigmas existem questões centrais como a democracia, que implica em aceitar e respeitar os diversos pontos de vistas e não somente os dois lados da história, porque já está provado que a história tem várias versões, só depende de quem está contando. Para demonstrar como a ideologia tem contribuído para solucionar problemas, um bom exemplo é a Administração Pública de Porto Alegre. Os empresários da cidade hoje estão satisfeitos com esta nova ideologia. As obras de revitalização do centro, estão sendo custeadas pela iniciativa privada. O ressarcimento dos danos causados pelo episódio da encampação das empresas de ônibus, em 1989, foi transformado num acordo em que a Prefeitura não vai desembolsar nenhum recurso, nada, e todos os cidadãos vão usufruir um sistema de transporte melhor. Porque os empresários se comprometeram em cobrar a dívida em troca de melhorias no sistema de transporte. Os empresários do maior shopping da América Latina, que ainda nem existe, já construíram casas para 700 famílias, realizaram obras de infra-estrutura viária no bairro onde vão se instalar, e tudo isto porque o poder público foi lá e conversou sobre os custos sociais da obra, e eles concordaram e acharam justo o preço.
No entanto, não se houve notícias de cidades do interior ou da capital de outros estados governados pelo PSDB, ou PFL, ou PPB, ou PTB, que os empresários colaboram com o bem estar da sua cidade e, ao invés de querer empréstimo do poder público, pagam pelas obras em benefício de toda a população, com dinheiro do seu bolso.
Isto são provas que a ideologia está mudando, tanto dos empresários quanto dos trabalhadores e sem maniqueísmo. A lógica do discurso está mudando. Por este motivo é um equívoco, alguém pensar em acabar com o poder da RBS porque este grupo, apesar dos pesares, também tem seus valores.
Não podemos ser maniqueístas e negar o estágio de desenvolvimento tecnológico e humano que estas empresas atingiram. Mas estes grupos também podem se voltar para a população, ideologicamente, fazendo um jornalismo ético voltado para a solução dos problemas. É só falar a verdade. Não precisa mais se aliar com a burguesia. Os meios de comunicação possuem poder só que, pensando ainda de forma cartesiana, estão usando para o lado errado. Porque eles não usam todos os recursos humanos e tecnológicos que possuem para fazer excelentes programas de TV e rádio? Porque os articulistas da RBS, Mendelsky e Barrionuevo, os mais ferozes contra o governo do Estado e o Município de Porto Alegre, não usam suas brilhantes capacidades argumentativas para o “bem”, da população ao invés de usar para o “mal”, sendo cartesiano e maniqueísta, novamente.
Existem excelentes programas produzidos pela televisão brasileira, como o Globo Repórter, como as miniséries, as novelas. Um belo exemplo foi o programa esportivo da Globo, que assisti domingo, dia 29, pela manhã. Muito criativo. Um repórter numa gruta. O "off" do repórter e as imagens passando as emoções de estar num lugar mágico. Aquilo era jornalismo puro. O telespectador vivendo a emoção junto com o repórter. Após, teve um outro quadro com jogo de botão televisionado, com direito a tira teima, a lição de vida do jogador de basquete Oscar, o mão santa, falando que sofisticou o seu jeito de jogar botão brincando com o filho. A televisão é um poder, mas ela está mal direcionada ideologicamente. Tecnologicamente não se justifica mais adquirir programas enlatados, que trazem uma série de problemas e conceitos que não têm nada que ver com a realidade brasileira. Na década de 50, por falta de produção local, se justificava preencher a grade da programação com filmes e desenhos estrangeiros, em 1999, isto não se justifica, pois o País já sabe produzir para TV.
Porém, aquele programa Linha Direta, incomoda, assim como aqueles filmes de guerra com milhões de tiros por segundos. Pessoas fumando ou destruindo o meio ambiente só por destruir, filmes que demonstram violência incomodam, o Faustão incomoda, mas apesar disto, muitas vezes se chora junto com aqueles quadros que falam da vida dos artistas ou se ri com as videocassetadas.
Então, existe um jeito de fazer televisão diferente, como a programação infantil e os programas de entrevistas e debates da TV Cultura (estatal). O Mister M é uma indecência do ponto de vista da moral. O desrespeito a todo um imaginário histórico sobre as artes dos mágicos, o fascínio sobre a mágica. Tudo isto pode ser destruído por uma pessoa de má índole, que vende aquilo que é mais sagrado, por fama e dinheiro. Não se trata de um direito de liberdade de imprensa, é uma questão ética, de respeito as particularidades de toda uma categoria profissional e das pessoas que tem o direito de nunca saberem como se faz uma mágica. No entanto, a Rede Globo está lá exibindo o que para ela vale mais. A disputa por uns pontos no Ibope é o único paradigma? Ou, se pode pensar em uma comunicação sincera, com objetivo de colaborar para resolução dos grandes problemas da humanidade? Como os meios de comunicação poderiam colaborar para reduzir a violência na escola, prevenir contra gravidez na adolescência, preservar o ambiente e colaborar na construção de cidadãos?
A Rede Globo com sua capacidade técnica pode fazer, por exemplo, programas como os transmitidos no canal fechado TV Futura, que é muito bom. Por que não investir numa programação com a qualidade de uma TV Futura?
A liberdade de imprensa também se manifesta nas restrições impostas àqueles que querem organizar canais de TVs e rádios. Além de anacrônica não faz sentido. Porque uns podem ter direitos e outros não. Ou melhor porque os meus amigos empresários podem ter canal de televisão e os sindicatos e partidos políticos, ONGs, ou um grupo de filhinhos de papai não podem, ou os guris do rap, ou o pessoal do skate, ou, ou, ou, ou, ou,... Porque não deixam as pessoas usarem os meios naturais? O ar é livre. As ondas e as freqüências são naturais. Porque não permitir que todos usem? Por isto, a Arte Retórica de Aristóteles pode contribuir para que os meios de comunicação sejam instrumentos de utilidade pública, pois nos processos de persuasão, diferente do sofisma, o discurso tem um caráter moral.
Segundo Aristóteles, a Retórica se presta para o verdadeiro e o justo, porque estes por natureza, são melhores que seus contrários. Inclusive para Aristóteles é preciso que o orador esteja à altura de persuadir os contrários das suas proposições e por este motivo não se deve persuadir o que é imoral. O caráter moral do orador é considerado muito importante, pois pode-se obter a persuasão quando o discurso deixa a impressão do orador ser digno de confiança. O que separa a arte retórica do sofisma é a relação do discurso com a realidade.

Referências bibliográficas
SUBIRATS, Eduardo. A Cultura como espetáculo.
Trad. Eduardo Brandão. Ed. Nobel. São Paulo. 1989.
ROHDEN, Luiz. O poder da Linguagem: a arte retórica
de Aristóteles. Ed. Edipucrs. Porto Alegre. 1997.


Luis Henrique Silveira é jornalista e mestrando em Ciências da Comunicação pela Unisinos/RS.


©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 28 Série eletrônica
Setembro-Outubro, 1999

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