Propaganda IIMentira e ingratidão Todo mundo viu e ninguém fez nada. Depois de cair com seu avião ultraleve em Araraquara (SP), em 7/9, o piloto Emerson Fittipaldi e seu filho Lucca, de 6 anos, foram salvos pelos bombeiros da cidade. A TV acompanhou o resgate, mostrando os bombeiros caminhando num charco, à noite, num trabalho duro mas feito com a alegria de salvar um ídolo nacional. Era o que mostravam seus rostos na TV. Em terra firme, longe dos mosquitos e dos urubus, depois de medicados num hospital, os Fittipaldi foram transportados para São Paulo num avião da empresa de saúde Amil. Uma semana depois, um comercial dava conta de que a Amil salvara o piloto e ele agradecia por isso. Até o médico de Emerson em Miami, nos Estados Unidos, Barth Green, participou da encenação, e posou de garoto-propaganda para elogiar a empresa de planos de saúde. Milhões de pessoas que viram os bombeiros com o pé na lama, no noticiário sobre o resgate, e em seguida assistiram ao comercial da Amil, notaram que a publicidade era mentirosa.
Foi preciso que um oficial da Polícia Militar escrevesse uma carta para a Folha de S.Paulo na qual fazia justiça ao trabalho dos bombeiros. Ainda assim, a imprensa diária calou-se. A revista Veja rompeu o silêncio com a reportagem “Heróis abandonados” (19/11), na qual chamou o comercial de mentiroso. “Essa propaganda é absurda. Tem a perigosa mensagem subliminar de que o cidadão comum precisa pagar por um serviço que tem de graça. É parte da ideologia de que só a iniciativa privada funciona”, disse à revista o coronel Renato Luiz Fernandes, comandante do Corpo de Bombeiros no Estado.
Só então jornais como a Folha entraram no assunto. O Ministério Público já abrira um inquérito civil para apurar se a propaganda da Amil era “enganosa”, mas o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) antecipou-se com esta conclusão. O comercial foi refeito para incluir os bombeiros. Os jornais, mais uma vez, dependeram de uma ação oficial para dar uma notícia que estava na cara de todos.
Boletim nº 19 Novembro-Dezembro de 1997
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