Jornalismo aderiu à greve e deu folga para a investigação
Instituto Gutenberg

Jornalismo aderiu à greve e deu folga para a investigação

A cobertura da greve dos petroleiros merece uma reflexão sobre a forma engajada, pouco informativa e nada investigativa com que a mídia atua nas horas difíceis. Em vez de dar prioridade à informação de seus ouvintes, telespectadores e leitores, escolhe um lado e milita. A imprensa militou, mas o jornalismo fez greve com os petroleiros. Faltou combustível porque os petroleiros pararam - e tudo o que aconteceu decorreu deste fato inspirador. Mas uma greve de 21 dias em 1990 nem de longe produziu o pandemônio da greve de um mês em 95. Pesaram desta vez questões como a quebra do monopólio e a queda de braço do governo FHC com as estatais. Ao governo interessava - e a mídia apoiou - encurralar os petroleiros com o sofrimento da população. A mídia não investigou:

Se era verdadeira a afirmação dos petroleiros de que o fornecimento mínimo estava garantido. Controlando as refinarias, eles poderiam mostrar os medidores aos repórteres, e estes checariam, nos distribuidores, o que acontecia com o gás bombeado.

Se as filas eram engrossadas por especuladores e pessoas que ainda tinham bujões cheios. A anunciada escassez de produtos essenciais provoca estoque e desabastecimento imediatos. A instintiva autoproteção do consumidor pode ter sido estimulada pelo alarmismo.

Por que o governo e os distribuidores não orientaram à população. A Petrobrás gastou um bom dinheiro convocando os petroleiros para o trabalho, mas poderia ter instruído o consumidor a economizar - até como forma de resistir à greve. Os distribuidores até fecharam depósitos em fins-de-semana. No dia 18, no auge da greve, um caminhão da Ultragaz cumpria o calendário de entrega no bairro de Pinheiros, em São Paulo e um diretor da empresa dizia no SP Já, da TV Globo, que caminhões não saíam porque não havia gás. No fim da greve, o empresário dizia à Globo que ninguém deveria ir para filas: “Um botijão de gás dá para 30 dias”.

Leia mais:
A segunda greve do jornalismo

Boletim Nº 3 Maio-Junho de 1995

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