Jornais fiscalizando jornais e jornal se desculpando com os leitores por ter errado? Ainda que pareça incrível no Brasil, essa relação de vigilância e acurácia acaba de ocorrer mais uma vez, nos Estados Unidos. O protagonista da história foi o San Jose Mercury News, um jornal da Califórnia que pertence à cadeia Knight Ridder, a terceira maior do país. Seu carro-chefe é o Miami Herald. Em agosto do ano passado, o Mercury publicou uma série de reportagens, apuradas pelo repórter Gary Webb, dando conta de que nos anos 80 a CIA havia recebido dinheiro de traficantes de drogas para financiar a luta dos "contras" na Nicarágua. A reportagem recebeu o título de "Aliança negra". Se fosse verdade, ou, pelo menos, se houvesse evidências e testemunhos que autorizassem o jornal a imprimir semelhante bomba, o Mercury estava publicando a reportagem do ano.
A inconsistência das reportagens provocou protestos do Senado e da CIA, mas o que se destacou no episódio foi a pronta reação dos dois mais influentes diários dos Estados Unidos, The New York Times e The Washington Post. Acostumados a vigiar os desmandos americanos no exterior, o Times e o Post investigaram a rota do Mercury e, como se tratassem de um assunto qualquer, informaram a seus leitores que a história estava mais para fantasia do que para realidade. Pelo menos não havia substância jornalística na fantástica série do Mercury.
Convencido de que imprimira acusações sem evidências, o editor do Mercury, Jerry Ceppos, escreveu uma coluna com um pedido de desculpas aos leitores, e transferiu o repórter Webb para outro setor do jornal, proibindo-o de continuar a série. Com 28 anos de profissão, Ceppos admitiu que afrouxou os controles, e foi em frente sem provas de que a CIA mediou relacionamento de traficantes com os "contras". E por isso concluiu: "Parte do nosso contrato com os leitores é sermos tão claros sobre o que sabemos como sobre o que não sabemos".
Boletim Nº 15, Maio-Junho de 1997
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