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Os sindicatos e a gorjeta do governo Prêmios

Os sindicatos e a gorjeta do governo

Entidades insistem em pedir privilégios e pegar patrocínios nos cofres públicos

Jornalistas, sobretudo por intervenção de sindicatos, fazem tudo para manter a vinculação ancestral entre imprensa e erário — uma ligação siamesa inaugurada pela Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro jornal brasileiro editado, a partir de 1808, pelo governo, naturalmente. Independências posteriores à parte, pululam no país concursos criados para brindar jornalistas com dinheiro público. Muitos governos estaduais, sem dinheiro para pôr esparadrapo no posto de saúde, recompensam a imprensa, e o contribuinte paga a conta. O Amazonas, por exemplo distribuiu R$ 120 mil no ano passado. Nas edições de número 5, 6 e 7 deste boletim mostramos como jornalistas levam reportagens para o governo distinguir com um selo de qualidade expresso em cifrões. Não cabe ao poder público dizer se uma reportagem é boa, e premiar o autor. A imprensa é que é fiscal do governo, mas mistura os papéis quando vai ao caixa da repartição pública chancelar seu melhor trabalho com um carimbo e um cheque oficial, ainda que o concurso seja cavado por entidades sindicais.
Neste equívoco incorre o Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco. Trata-se de uma entidade combativa e atuante, que, num bom exemplo, recusa-se a indicar representantes "à mamata e à imoralidade do cargo de juiz classista.". A atual diretoria toca uma agressiva campanha salarial e promoverá no Recife, em abril de 1997, o 23° Congresso Internacional dos Jornalistas. Mas o sindicato insiste em beneficiar seus associados com verbas públicas e privilégios do Brasil arcaico. O boletim dos jornalistas pernambucanos, O Batente, circulou em outubro com pouco mais de uma página e meia de publicidade — uma página do governo estadual e meia página do governo municipal.
Na coluna dos privilégios, O Batente informou que jornalistas de Pernambuco, que já conseguiram do Detran um cartão especial para estacionamento irregular, agora vão ter telefones celulares "sem precisar esperar por sorteio". Graças a um acordo firmado com a companhia estatal Telpe, 400 jornalistas vão furar a fila dos cidadãos que esperam por um telefone. Não importa que antes deles tenham se inscrito médicos, comerciantes e quitandeiros; esses vão esperar sua vez porque não são jornalistas.
Não há justificativa honesta para essas mordomias. A alegação é a de que com um celular no cinto os profissionais da imprensa poderão ser localizados mais rapidamente pelas fontes ou fazer contato com as redações "sem ter de ficar procurando um orelhão". Na verdade, quem deve prover os jornalistas são as empresas para as quais trabalham. Cabe a elas providenciar telefones, carros, computadores, câmeras, blocos de notas e toda a logística necessária à coleta de informações.
Na coluna dos prêmios bancados pelo contribuinte, os jornalistas de Pernambuco têm dois: um, o Cristina Tavares, é pago pelo Banco do Estado. O outro, Cidade do Recife, para "incentivar reportagens" sobre a capital pernambucana, custará R$ 9 mil à Prefeitura.
O Código de Ética dos Jornalistas brasileiros não diz uma palavra sobre o assunto, mas as regras da Sociedade dos Jornalistas Profissionais dos Estados Unidos só toleram prêmios em dinheiro se os recursos saírem de organizações do meio, como fundações, escolas e entidades de jornalistas. O grande prêmio do país, o Pulitzer, é administrado pela Universidade de Columbia. Ao contrário do Brasil, onde nenhum meio de comunicação restringe o ingresso de jornalistas em concursos, muitos veículos americanos proíbem a inscrição. Outros, como Philadelphia Inquirer, Lousville Courrier-Journal e Milwaukee Journal, indicam por escrito em que tipo de prêmio seus jornalistas podem se inscrever. Os códigos de conduta dos grandes jornais brasileiros falam do assunto como a Bíblia fala de computador.
Mesmo experiência bem-sucedidas com independência terminam por dar uma garfada Tesouro. É o caso do Prêmio Vladimir Herzog, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, que distingue trabalhos sobre direitos humanos. Criado em 1979, o Vladimir Herzog consolida-se como o segundo mais importante prêmio de jornalismo do país (o primeiro é o Esso). O concurso afirmou-se e funcionou muito tempo sem interferência ou dinheiro público, mas nos últimos anos passou a dar, além de uma estatueta de bronze, um cheque emitido pelo contribuinte. Este ano, a comissão organizadora pediu a uma empresa estatal, a Petrobrás, que desse R$ 500 a cada um dos vencedores. Os premiados em Teatro e Literatura não receberão dinheiro, mas terão seus trabalhos impressos em livro, gratuitamente, pela Imprensa Oficial do Estado.
É de se apostar que muitos jornalistas sérios e independentes se inscrevem no Vladimir Herzog pensando apenas no prestígio do troféu. (O mais famoso prêmio do mundo, o Oscar, distribui estatuetas muito cobiçadas, e nenhum centavo em dinheiro.) Talvez nem saibam do "prêmio" suplementar de R$ 500, aliás dispensável para profissionais de salários altos, que provavelmente desejam apenas inscrever seus nomes na campanha permanente pelo respeito aos direitos humanos — celebrando a memória de um jornalista assassinado pelo governo em 1975.
Um dos prêmios principais de texto de 1996 foi dado ao repórter Bernardino Furtado, do Globo, por uma reportagem reveladora do laudo cadavérico do guerrilheiro Carlos Lamarca. O jornal mostrou que, ao contrário da versão oficial, Lamarca foi morto em 1971 pelo atual secretário de Segurança do Rio, Nilton Cerqueira, quando descansava à sombra de uma árvore, e não em combate. O prêmio de TV foi dado a Caco Barcelos por um excelente Globo Repórter que revolveu o caso da bomba que dois militares iriam estourar no Riocentro. O Sindicato dos Jornalistas deve ponderar que nenhum desses repórteres merece ser insultado por uma gorjeta da Petrobrás.

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Número 11, setembro-outubro de 1996
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