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Concursos

Título para as notícias de prêmios para jornalistas:

"Você paga a conta"

 
 
A revista Veja informou, na seção Datas do número de 7 de fevereiro, que seus jornalistas Valéria França e Joaquim de Carvalho ganharam o Grande Prêmio Caixa Econômica Federal de Jornalismo Social. Foram distinguidos com a reportagem “O suor dos pequenos”, publicada em 30 de agosto de 1995 — um excelente levantamento de onze páginas sobre a exploração do trabalho infantil no país. A reportagem merece prêmios — de preferência da Unicef ou da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, mas a revista errou de guichê ao inscrever-se num concurso de repartição pública. Há algo errado quando a imprensa leva reportagens para o governo julgar, sobretudo se o governo é um dos responsáveis pelo horror escravagista descrito na reportagem. A imprensa é que é fiscal do governo.
Os jornalistas de Veja embolsaram R$ 20 mil da Caixa Econômica — o equivalente a 83 anos de trabalho de um de seus personagens, o garoto Ozelmo da Rocha, 8 anos, que ganha salário de R$ 5 por semana para quebrar pedras no Ceará. O valor do prêmio é ínfimo se comparado à orgia de gastos do dinheiro público, mas o problema é quem paga e quem recebe.
Como freqüentemente separam o que é notícia do que deveria ser notícia, mídia e jornalistas excluem-se quando denunciam conflitos de interesse. Veja (28/2) deu indignado destaque ao que chamou de “Folia amazonina”, os gastos do governador Amazonino Mendes, que só na reforma do estádio Vivaldão teria aplicado US$ 20 milhões, e paga cachês milionários a cantores e jogadores de futebol que vão a Manaus.
A revista omitiu, no entanto, que o governo do Amazonas malbaratou R$ 120 mil num desses concursos para jornalistas. Se o astro Romário figurou na reportagem com um cachê de R$ 50 mil (“Até o jogador Romário...”) por que não os jornalistas e seus R$ 120 mil? Do setor de comunicação, foi citado apenas o apresentador de TV Otavio Mesquita: teria faturado US$ 40 mil para divulgar um show de Julio Iglesias em Manaus.
A nota sobre o prêmio da Caixa Econômica abiscoitado pela revista poderia repetir o título dado, na mesma edição, à opípara festa uruguaia do empresário Gilberto Scarpa, acusado de sonegar impostos no Brasil: “Você pagou a conta”.
 
 
 Boletim Nº  7  Janeiro-Fevereiro de 1996
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