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Crime no lide Polícia

Crime no lide

"A missão do jornalista é a de buscar a informação onde quer que ela esteja. Viemos testemunhar que a repórter não teve a intenção de provocar danos a ninguém", Américo Antunes, presidente da Fenaj. "Eu, jornalista, me envergonho mais uma vez, e uma sacrossanta ira me atropela, em nome ...dos cidadãos que nos lêem e não esperam ser seqüestrados ou roubados por nós", Elizabeth Lorenzotti, repórter.

A mídia tem desempenhado o papel de enfant gâté da democracia — um menino mimado, transgressor, apegado a privilégios e protegido por uma couraça de corporativismo siciliano. O fenômeno não é exclusivo do Brasil, como demonstraram alguns episódios recentes. Na França, jornalistas fizeram greve quando o governo anunciou o fim do desconto de 30% que usufruem no imposto de renda. Só por serem jornalistas, eles pagam menos impostos que as coristas do Moulin Rouge. Nos Estados Unidos, o repórter David Kidwell, do Miami Herald, recusou-se a ser testemunha num processo, como qualquer cidadão seria. Condenado a 70 dias de prisão por um tribunal da Flórida, a Sociedade dos Jornalistas Profissionais glorificou-o como um mártir da liberdade de imprensa. Nada disso se aproxima, no entanto, das carteiradas à brasileira, isto é, do uso da carteirinha de jornalista para obtenção de privilégios e desrespeito às leis do país. É sacar a carteirinha e pleitear a prerrogativa de furar a fila do telefone. Ou de ser condenado a uma pena de serviço comunitário, muito longe das grades, se praticar um crime pelo qual o cidadão comum vai para o xadrez infecto. Ou de cometer delitos obscenos a pretexto de denunciar a obscenidade que está cometendo.
A última contravenção de uma safra volumosa foi praticada pelo Jornal de Brasília. Depois do seqüestro de um bebê numa maternidade do Rio, o jornal brasiliense teve a marrom idéia de invadir um hospital e forjar o rapto de um recém-nascido para demonstrar a falta de segurança nos berçários da cidade. O golpe foi aplicado no Hospital Regional da Asa Sul, em 8/10. Tal como no filme A Montanha dos Sete Abutres, no qual Kirk Douglas interpreta um repórter escrupuloso como Al Capone, o Jornal de Brasília saiu à rua e mordeu um cachorro. A repórter Rovênia Amorim foi escalada para cumprir a tarefa. Acompanhada da fotógrafa Sheyla Leal, ela entrou no quarto de Vilma da Silva, que dera à luz um bebê havia apenas dez horas. Pegou o recém-nascido, mentiu para outras mulheres do quarto ao dizer que levaria o bebê para o pediatra, e levou-o ao corredor para ser fotografada como prova da insegurança do hospital.
Segundo o Jornal do Brasil (10/10), a repórter pretendia sair do hospital com o lide a tiracolo, mas foi barrada por um segurança. Segundo o relato da repórter, o guarda apenas perguntou onde ela ia com o bebê, e ela voltou para o quarto e devolveu o troféu ao berço sem que Vilma desse pela falta do filho. O diretor do hospital chamou a polícia e a repórter foi presa, enquadrada no artigo 349 do Código Penal, pelo crime de "subtração de incapazes". Horas depois foi solta para escrever a reportagem. "Repórter é presa ao mostrar que é fácil roubar bebê", regalou-se o jornal no dia seguinte. Abaixo, uma foto enorme da repórter com a presa no colo.
Toda a operação foi um show de incompetência, e aproximou-se perigosamente da cascata, a notícia inventada. Ao contrário da manchete, tudo o que o jornal demonstrou foi que sua repórter entrou no Hospital Regional da Asa Sul sem se identificar na portaria e molestou mães e bebês nos quartos. O texto da reportagem deixa dúvidas sobre a sua honestidade, ao relatar que a repórter, antes de invadir o quarto para raptar o bebê que dormia, tentou convencer duas mães a permitirem que ela levasse um dos seus filhos até o corredor para ser fotografado — como prova do quê? "Pode ficar daqui me olhando. Só vou chegar ali e volto", propôs a repórter, mas a mães não concordaram em ceder seus bebês para a foto no corredor.
Espantoso é que haja quem defenda essas práticas. Segundo a Folha (9/10), o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Américo Antunes, disse que era "exagero do hospital imputar tentativa de crime contra uma jornalista que apenas cumpria uma pauta." Quem sabe é exagero a polícia prender um pistoleiro profissional que apenas cumpre um contrato. O sindicalista foi à delegacia e, segundo o JBn (9/10), ofereceu outro habeas corpus: "A missão do jornalista é a de buscar a informação onde quer que ela esteja. Viemos testemunhar que a repórter não teve a intenção de provocar danos a ninguém".
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal, Luiz Felipe Coelho, assinou o artigo "Entre o fato e a ética" na edição de 10/10 do Jornal de Brasília, no qual afirmou que "as repórteres estavam no exercício de seu dever como profissionais de jornalismo...", e tratou o episódio como se Rovênia tivesse sido presa ao fazer anotações num chá de caridade. A professora doutora Zélia Leal Adhghirni, da Universidade de Brasília, escreveu no Correio Braziliense (13/10) que condenação da repórter "tem qualquer coisa de má fé. Não houve dolo, como dizem os advogados".
Os jornais trataram o caso como um reles fato policial, e não como uma trapaça do jornalismo. O Correio Braziliense foi a exceção ao abrir sua página semanal "Imprensa" para várias opiniões, entre elas a professora doutora Zélia Leal. Alberto Dines, diretor do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade de Campinas (SP), ponderou que "é necessário enquadrar a ação dos jornalistas dentro das normas legais". Paulo Totti, editor executivo do Jornal do Brasil, disse que "jamais mandaria um repórter cometer um crime". Eliane Catanhede, da Gazeta Mercantil, sugeriu estender o debate para os limites éticos da profissão. Alexandre Garcia, da Rede Globo, enfocou o outro lado: "Se eu fosse o pai da criança, depois de conter a justa ira contra a repórter, iria processar o jornal porque a reportagem fez a criança e a mãe correrem risco de vida". Uma das críticas mais eloqüentes ao rapto foi publicada na Folha, por Elizabeth Lorenzotti, repórter das revistas Telaviva e Play-TV, em 15/10:

"Eu, jornalista, me envergonho mais uma vez, e uma sacrossanta ira me atropela, em nome dessa profissão que me sustenta, em nome de companheiros vivos e mortos por ideais, em nome dos cidadãos que nos lêem e não esperam ser seqüestrados ou roubados por nós, mas informados decentemente, em nome de entidades sindicais que já viveram dias mais gloriosos..."

Um pauteiro cínico poderia sugerir ao Jornal de Brasília que toque fogo no Palácio do Planalto para testar a eficiência do Corpo de Bombeiros. Se eles apagassem o incêndio, a manchete poderia ser "Bombeiros do DF são eficientes". Se demorassem muito, o jornal poderia escrever: "FHC morre queimado por culpa dos bombeiros".
Jornalistas que traficam seres humanos, compram diplomas, disfarçam-se de freiras grávidas, propõem suborno, corrompem funcionários e até mesmo planejam assalto a banco têm freqüentado o lado opaco da crônica policial brasileira. Essas reportagens estão para o jornalismo como um gol de mão para o futebol. A facilidade da prática de crimes não legitima o crime, sequer autoriza a denúncia do crime mediante a sua materialização. A legislação e o pacto social que garantem a liberdade de imprensa, e conferem à mídia o poder de fazer investigações de competência formal do Estado, pressupõem a contrapartida da seriedade e da correção. A ninguém mais é dado esse poder na sociedade, e ele deve ser exercido com dignidade e respeito ao público.
A liberdade de imprensa é um bem precioso demais para ser corroído pelo aventureirismo de editores sem escrúpulos, incapaz de ponderar que seu dever, em qualquer reportagem, é sempre "minimizar o dano". Se um jornal pode armar uma presepada dessas sem ser imediatamente massacrado, por isso mesmo tem o dever de evitá-la. Imagine-se o quanto soaria ridículo a mulher que seqüestrou o bebê no Rio (e largou-o numa rua de Teresópolis, sem pedir resgate) alegar que seu propósito era testar a segurança da maternidade. Aliás, a seqüestradora anônima do Rio agora tem esse álibi, presente sob medida do jornalismo-abutre.
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Número 11, setembro-outubro de 1996
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