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Gol de Placa(r) Investigação

Gol de Placa(r)

Quando determinados jornalistas elogiam demais um jogador, duvide: talvez seja um negócio e não uma crônica esportiva. Foi o que Placar (janeiro) demonstrou com a reportagem “Os piratas da TV”. A revista provou que alguns profissionais cuja missão é dar informações honestas ao público “não têm o mínimo pudor em dar um bico na isenção e na credibilidade quando farejam negócios vantajosos”. Os repórteres da Rede Bandeirantes Luciano Júnior, Eli Coimbra e Octávio Muniz criaram a empresa Sports General Business para fazer negócios com passes de jogadores e o que aparecesse.
A empresa chegou a mudar o local do jogo União São João e Palmeiras da cidade de Araras para Mirassol, em novembro do ano passado, para fazer negócio: pagou quotas de R$ 45 mil ao Palmeiras e R$ 30 mil ao União, e faturou R$ 80 mil com a renda e R$ 15 mil com as placas de publicidade. O também apresentador Luciano Júnior intermediou a ida de Elivélton para o Corinthians e ganhou do jogador comissão de R$ 32 mil. Outro jornalista-empresário citado pela revista é Luis Orlando, do programa Camisa Nove, da Rede CNT, procurador de Túlio. A reportagem foi corroborada pelo apresentador Sylvio Luiz, que foi para o SBT: “Nunca sei quando as informações e comentários deles [os três “piratas” de Placar] têm ou não segundas intenções”.
Excelente, baseado em investigação e documentos, o “dossiê” de Placar revolve um campo do jornalismo onde fala-se muito e investiga-se pouco (ver boletim n  4 - Imprensa insinua mas não investiga suborno dos cartolas do futebol). A imprensa ainda deve ao público matérias como esta de Placar sobre as insinuadas negociatas no esporte.
Mas isso não impede o auto-exame do jornalismo esportivo, onde sobrevivem práticas da era pré-Collor. É comum o locutor gritar gol e uma marca de chuteira — um concubinato antiético de jornalismo e publicidade. (Na Bandeirantes, se o jogador se machuca o narrador receita: Passa Analgen nele). Repórteres acompanham clubes, com despesas pagas, assistem ao jogo da “tribuna da imprensa”, têm estacionamento grátis (no Morumbi) e não pagam ingresso, embora não haja um motivo honesto para esse privilégio. Quando denunciam “evasão de renda”, os jornalistas deveriam se incluir.
O deputado estadual Eider Dantas (PSDB) apresentou na Assembléia do Rio um projeto para acabar com a entrada gratuita: num jogo de Botafogo e Flamengo, em junho do ano passado, o deputado contou 460 jornalistas que entraram de graça (O Fluminense, 20/6/95). E o pior, segundo o deputado, é que a maioria não estava trabalhando.
 
 Boletim Nº  7  Janeiro-Fevereiro de 1996
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