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Papai Noel edita e entrega Pesquisas de opinião

Papai Noel edita e entrega

Jornais fazem de levantamentos um presente para o governo

As eleições para prefeitos de cinco mil cidades do Brasil em outubro retomam a importância e a manipulação das pesquisas de opinião. Existem muitos institutos sérios e independentes no ramo, mas freqüentemente a mídia divulga pesquisas de forma desleixada e antinoticiosa. Deveria fazer parte do código de conduta da imprensa só divulgar pesquisas acompanhadas do número, local e data das entrevistas e, sobretudo, da pergunta feita aos entrevistados. Volta e meia, colunistas referem-se a "pesquisa em poder do..." e repassam ao leitor números incompletos tão confiáveis quanto uma história do Lobo Mau para Chapeuzinho Vermelho. Não se fica sabendo sequer quem fez a pesquisa — e se é mesmo uma pesquisa séria ou uma adivinhação marota.

A Folha de S.Paulo prestou um bom serviço ao revelar (28/5) que o Palácio do Planalto usa os serviços da MCI Marketing, Estratégia e Comunicação Institucional — uma usina de índices sempre favoráveis ao governo. A MCI só faz consultas por telefone e despreza os pobres — se a empregada da casa ou a faxineira da firma atender, o pesquisador manda ela chamar o patrão. "Fica de fora a base da sociedade, os desempregados, os mais pobres, os trabalhadores braçais", contou à Folha o responsável pelas pesquisas da MCI, Antonio Lavareda. Cada "levantamento" da MCI parece ser levado ao Palácio do Planalto pelo Papai Noel.

A última pesquisa divulgada da MCI revelou que 40% desse universo de elite acham o governo ótimo ou bom. Ao dar a notícia, a Folha contrapôs levantamento feito pelo seu instituto, Datafolha, em 15 de maio e divulgado pelo jornal no dia 19, com a revelação de que, de 1.080 pessoas ouvidas na cidade de São Paulo, apenas 25% acham o governo ótimo ou bom. A forma como a Folha publica as pesquisas do Datafolha não é, porém, um exemplo de seriedade. Ao divulgar essa pesquisa, com a manchete de primeira página "Despenca a popularidade de FHC", o jornal, mais uma vez, deixou de publicar a pergunta feita aos entrevistados, embora tenha publicado um quadro com a frase "Resposta única e estimulada, em %".

Na falta da pergunta, só resta uma pergunta: afinal, a pesquisa avaliou o governo ou a popularidade do presidente? A especificação é importante porque a população pode ter respostas diferentes para os dois quesitos. Foi o que mostrou uma pesquisa IstoÉ/Brasmarket, realizada em junho com 4.789 pessoas em 14 capitais, e publicada na edição de 19/6 da revista — com as perguntas devidamente transcritas. "Qual a sua opinião quanto à pessoa do presidente?" Ótima/boa, responderam 50,7% dos entrevistados, contra 12,3% de ruim/péssima. "Como está o governo de FHC?" Só 17,8% disseram que estava ótimo/bom, enquanto 39,1% responderam ruim/péssimo. Tanto o Datafolha quanto a Brasmarket continuam usando o inútil quesito regular. O Instituto Vox Populi, no entanto, força o entrevistado a fazer um julgamento, dando-lhe as opções de responder regular negativo ou regular positivo (leia no n° 8).

O problema é que os institutos de pesquisa parecem mais jornalísticos que os jornais. Em 30/6, o JB publicou uma pesquisa do Vox Populi com 5.277 pessoas nas oito maiores capitais e o presidente foi avaliado, individualmente, mas em nenhum título o JB destacou esse fato. A pergunta foi "Como você avalia o desempenho do presidente Fernando Henrique até o momento?". A avaliação positiva (ótimo/bom/regular positivo) foi de 49%; a negativa (ruim/péssimo/regular negativo), de 48%. O jornal confundiu a avaliação do presidente com avaliação do governo e destacou num quadro a arcaica avaliação positiva de 24% (ótimo/bom) e a negativa de 32% (ruim/péssimo) e o quesito bruto regular de 41%. Foi um destaque injusto com o critério do Vox Populi e, nesse caso, com o desempenho do presidente. Na conta certa, FHC obteve um saldo geral positivo de 1%. Na conta errada, uma reprovação de 8%.

A Folha praticou o mesmo antijornalismo, mas ao contrário, ao noticiar a pesquisa do Datafolha em 19/5. Afinal, desde a primeira avaliação, feita antes da posse, em dezembro de 1994, essa foi a primeira vez que "a popularidade do presidente", "o governo FHC" — ou seja lá o que o Datafolha pesquisa — obteve um índice de reprovação (33%) maior que o de aprovação (25%). Essa era a notícia, e dela deveria ser extraída manchete que mostrasse a reprovação inédita ao presidente ou ao governo — no saldo geral, de bons 8%.

O jornal brigou com a notícia e também chamou Papai Noel para anunciar na página 1-8: "Aprovação a FHC desce para 25% em SP" — outra impropriedade, pois SP é o Estado e a pesquisa limitou-se à capital. Se fosse o resultado de um jogo Corinthians 3 x 2 Palmeiras, o esquisito método de edição da Folha forjaria um título assim: "Palmeiras faz 2 gols no Corinthians".

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