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Jornais erram o passo em pesquisas de opinião

Perguntas inoportunas e quesito inútil prejudicam
a função jornalística dos levantamentos
Duas reflexões sobre a inoportunidade de alguns levantamentos e a inutilidade do quesito “regular”:
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Dia 6 de março. O senador Antonio Carlos Valladares (PSB-SE) encaminha um requerimento com 29 assinaturas para instalação de uma CPI dos Bancos, e a partir daí o país não fala em outra coisa até o dia 21, quando o requerimento da CPI é arquivado por manobras fisiológicas do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Entre a proposta e o arquivamento, os grandes jornais noticiam que o Planalto suborna parlamentares, com cargos e li beração de verbas, para que arquivem a comissão de inquérito e aprovem a reforma da Previdência. De sua parte, a imprensa opõe-se à CPI em editoriais (o mais violento foi o do Jornal do Brasil) e empenha-se em mostrar que a proposta é um ardil de senadores liderados pelo ex-presidente José Sarney para encurralar o Executivo. A imprensa não pede a fontes independentes, fora do go verno, do Congresso e dos bancos, uma segunda opinião para o prognóstico arrasador de que a CPI vai infundir pânico nos correntistas e quebrar o sistema financeiro*.

 Dia 24 de março. Os dois grandes jornais de São Paulo publicam pesquisas de seus institutos Datafolha e InformEstado informando que o paulistano apoiava a CPI. Se os jornais fossem mensais, a pesquisa extemporânea teria sentido, mas, como são diários, capazes de fazer o levantamento num dia e publicá-la no outro — ainda mais com o minúsculo universo de 539 entrevistados, na Folha, e 206, no Estadão — ficou claro que notícias, como CPIs, podem ser inoportunas e portanto adiadas. Os jornais tiveram quinze dias para realizar uma pesquisa quente sobre o assunto mais explosivo da quinzena. Quando a publicaram, não disfarçaram o descompasso e deram os títulos no presente, como se a CPI ainda corresse na raia parlamentar: “76% querem que bancos sejam investigados por CPI”, escreveu a Folha. “Paulistanos apóiam CPI, mas sem Sarney”, disse o Estadão, em cuja pesquisa o índice favorável à investigação foi de 86,4%. “Opinião é que bancos fraudam e governo protege”, concluiu o Estadão.

 

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As pesquisas de opinião parecem as bruxas: ninguém acredita nelas, mas... Só que, como uma forma auxiliar do jornalismo, as pesquisas demandam uma cota maior de lógica e uma auto-regulamentação ética que a imprensa poderia se impor. O Conselho de Ética dos Meios de Comunicação do Chile editou uma recomendação com 18 itens a serem observados pela mídia. Um deles: “Assinalar textualmente as perguntas feitas aos entrevistados relativas às respostas sobre as quais se informa”. No Brasil, isso é ignorado.[É rotina os jornais publicarem as respostas sem as perguntas, assim como é rotina apresentarem contas que o leitor não entende.]

Há que se conferir função e conteúdo ao quesito “regular”. Ao avaliar um governante, o Datafolha dá cinco opções de resposta: ótimo, bom, regular, ruim e péssimo, além da obrigatória não sabe. Ótimo e bom somados são traduzidos como aprovação. Ruim e péssimo, como reprovação. O “regular” entra como Pilatos no credo — atrai elevadíssima taxa de respostas, mas não serve para nada na pesquisa. Institutos de boa estirpe como o Gallup já consideraram o regular como reprovação, somando-o a ruim e péssimo, mas, como houve polêmica, o quesito foi congelado num limbo estatístico.

Os institutos Soma e Vox Populi resolveram o problema ao criar o “regular/positivo” e o “regular/negativo”. Eles forçam a avaliação e colhem um julgamento e não um número-eunuco. Ao adicionar conteúdos de “aprovação” (regular/positivo) ou “reprovação” (regular/negativo), o quesito pode ser acareado. O “regular positivo” soma-se a ótimo e bom; o negativo, a ruim e péssimo.

Veja-se, por exemplo, a inutilidade do “regular” na última pesquisa do Datafolha sobre a “popularidade” do presidente Fernando Henrique Cardoso (cita-se “popularidade” porque, ao divulgar a pesquisa, em 24/3, a Folha omitiu a pergunta feita aos entrevistados). A pesquisa revelou que 37% das 539 pessoas ouvidas em São Paulo acham que o presidente é “regular”. Foi o maior (e mais inútil) índice da pesquisa. O que o jornal levou em conta foi a aprovação de 38%, e a “reprovação”, que somou 24%. O Jornal do Brasil (9/4) também perdeu a oportunidade de mostrar a funcionalidade da inovação do “regular negativo/positivo” ao divulgar, em 9/4, a última pesquisa do Vox Populi sobre a popularidade do presidente. O JB, além de não publicar a pergunta feita a 5.172 pessoas em oito capitais, não divulgou os índices obtidos pelos quesitos, limitando-se a tabelar os índices gerais de avaliação positiva e negativa. Ou seja, cada um publica o que quer.


*Em 24/3, Zero Hora deu uma entrevista com José Alexandre Scheinkman, “o economista brasileiro mais respeitado no Exterior”, com o título “Tapar rombos não é tarefa do governo”. Chefe do Departamento de Economia da Universidade de Chicago (EUA), o liberal, monetarista, devoto do mercado Scheinkman disse que “a opção entre salvar um banco em dificuldades e deixá-lo quebrar é muito difícil, mas o governo precisa estar atento para não gastar dinheiro à toa”. E, ao contrário da unanimidade em vigor, condenou o salvamento do Continental Bank pelo Tesouro americano, nos anos 80, “porque desestimulou principalmente os grandes investidores de procurar um banco sólido para depositar seu dinheiro. Sem contar o que isso custou à economia do país”. Como se vê,existe segunda opinião.

 

      Boletim Nº 8  Março-Abril  de 1996
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