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A Folha, o Datafolha e a doutrina Ricupero
Pesquisas eleitorais

A Folha, o Datafolha e a doutrina Ricupero

Jornal esconde os erros e comemora os acertos do seu instituto

Celso Pitta
Datafolha 40%
TRE 45%

Luiza Erundina
Datafolha 20%
TRE 24%

Quando o público — e particularmente os políticos — duvida das pesquisas eleitorais, alguma razão tem.
Se não há provas de que são manipuladas ou distorcidas para favorecer candidatos, sobram evidências de que no mínimo as pesquisas são mal-apresentadas pela mídia. Para entender o que elas dizem, é necessário conhecer aritmética, lógica formal, munir-se de uma calculadora e de muita paciência. Veja-se, por exemplo, o enigma das pesquisas do Datafolha, tal como divulgadas pela Folha de S.Paulo. "Pitta vai a 40% e Erundina cai", anunciou o jornal no dia da eleição, 3/10. A Folha citava pesquisa feita pelo seu instituto com 3.542 "pessoas" nos dias 1 e 2 de outubro, na qual, segundo o jornal, foi usada metodologia cuja margem de erro seria de apenas dois pontos percentuais. Ou seja, se Celso Pitta obtivesse 42% ou 38% — dois pontos a mais ou a menos do que os 40% apurados —, a diferença seria estatisticamente aceitável.
Primeiro detalhe importante para entender a pesquisa: ela mediu a intenção de voto. É um tipo de simulação do comportamento geral dos eleitores, apurando, inclusive, a intenção de voto nulo e em branco. Foi, portanto, uma pesquisa sobre o total de votos. Anote esse detalhe porque há uma diferença importante entre as porcentagens baseadas no total de votos e as que se baseiam apenas nos votos válidos, ou seja, descontados os votos em branco e nulos. Pois bem, a manchete da primeira página da Folha do dia da eleição, dando 40% dos votos para Celso Pitta e 20% para Erundina, simulava uma pesquisa no total de votos. Compare com o resultado oficial: Celso Pitta, que segundo o jornal teria 40% (com margem de erro para 42%), teve 45% dos votos — um erro de cinco pontos, mais que o dobro do aceitável. Erundina foi a 24% dos votos — quatro pontos acima do número pesquisado pelo Datafolha.
E tem mais. No final da reportagem sobre a pesquisa, publicada no caderno Eleições 96, a Folha escreveu sobre o desempenho de Pitta: "Descontados os votos nulos e brancos, seus 40% de intenção de voto devem corresponder a 45% dos votos válidos". Errou de novo. Pitta teve 48% dos votos válidos e, mais uma vez, o levantamento do Datafolha transbordou o limite de dois pontos auto-imposto como aceitável para o erro. Para comparar, o Ibope esteve mais perto da correção; ao anotar 42% dos votos para Pitta, errou por três pontos (ou um, se se considerar a margem de erro de dois pontos) mas furou sobretudo na votação de Erundina: com quase 23% do total de votos, ela abocanhou quatro pontos a mais do que os 19% anunciados no dia da eleição pelo instituto.
Para maquilar o olho roxo do Datafolha, o marketing da Folha seguiu o ricúpero breviário: escondeu o ruim e divulgou o bom. Os furos da pesquisa publicada no dia 3 foram ignorados para que se comemorasse, na edição do dia 5, o acerto do levantamento de boca-de-urna feito pelo instituto com 4.221 eleitores na porta de 306 locais de votação. "Datafolha obteve resultados mais precisos", disse o jornal sobre a pesquisa realizada durante a eleição. De acordo com os números da Folha, divulgados em tabelas somente quando o Tribunal Regional Eleitoral já havia contado 95% das urnas, Celso Pitta teria 44% do total de votos e 48% dos votos válidos. Um mérito da Folha foi divulgar uma parte dessa projeção já na chamada da primeira página da edição seguinte à eleição, ao informar a seus leitores que "Pesquisa Datafolha na boca-de-urna indicava Pitta com 48% e Erundina com 25%."
Não houve, no entanto, o cuidado de diferenciar essa pesquisa das anteriores, ou seja, até o dia da eleição o Datafolha anunciava as porcentagens dos candidatos sobre o total de votos, e na pesquisa de boca-de-urna anunciou as porcentagens sobre os votos válidos. Mas é fato que na boca da urna o Datafolha acertou na mosca, embora os políticos experientes digam que descobrir o voto do eleitor na seção eleitoral não é mais difícil do que acertar um tiro num elefante amarrado.

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Número 11, setembro-outubro de 1996
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