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Parente não é notícia
Parente não é notícia

Interesse vampiresco pela notícia consanguínea
Se cunhado não é parente, na frase famosa da política, parente não é necessariamente notícia. Poucos jornais brasileiros seguem esta regra — uma das exceções honrosas é o Globo, cujo manual de redação determina: "Apenas em circunstâncias muito especiais é aceitável destacar a relação de parentesco, amizade etc. entre pessoa envolvida em ato ilegal e outra já conhecida do público (político, atleta, artista etc.). Não é correto registrar a existência da relação apenas para aumentar o interesse do leitor pela notícia".
Foi por isso que, em 1/9/95, o Globo não deu a notícia que seu concorrente Jornal do Brasil estampou com um oportunista título genealógico na primeira página: "Irmão de Edmundo é preso em favela" (leia no boletim n° 5). O Estadão não lê o Globo, e parece ter um interesse vampiresco pela notícia consanguínea. "Morre baleado o irmão de Roberta Close", publicou o jornal paulista em 30/3, num título em que anunciava a morte do irmão do ex-travesti pela Polícia Militar do Rio, numa suposta perseguição após tentativa de roubo de carro. "Irmão de Suplicy fica detido por dez minutos", repetiu a dose em 5/9, ao dizer que o empresário Ronald Matarazzo Suplicy, irmão do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), fora preso por não pagar uma dívida municipal de R$ 111, mas logo libertado porque fez o depósito do valor cobrado. O que Roberta Close e Suplicy têm a ver com as tropelias policiais de seus irmãos? Nada, mas seus nomes foram canibalizados pelo Estadão para atrair a atenção do leitor.
Há um caso em que a reportagem foi claramente espichada para alcançar o parente famoso — mais uma vez figurando no lide como Pilatos no Credo. "Sobrinho de Benedita da Silva é baleado", anunciou o mesmo Estadão, num título de quatro colunas, em 31/5, para dizer que o segurança Luiz Claudio Pereira, sobrinho da senadora Benedita da Silva (PT-RJ), levara um tiro ao evitar um assalto a uma loja na Estrada Velha da Pavuna ,no Rio. Ou seja, é evidente que o caso em si — reles episódio policial ocorrido num remoto território pelo qual o jornal paulista se interessa tanto quanto por Botsuana — foi aditivado pelo parentesco.
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Número 11, setembro-outubro de 1996
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