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Sigilo da fonte

O deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) tornou-se um garimpeiro eletrônico dos gastos do governo. Com seu computador ligado no Siafi, Sistema Integrado de Assessoria Financeira, Carvalho levanta dados sobre gastos públicos e abastece os jornalistas de Brasília com informações que rendem boas reportagens. O problema é que nem sempre há reconhecimento. Em 17/3, O Globo publicou um levantamento feito por Carvalho no Siafi sobre gastos com chuteiras e bolas de futebol e o crédito ao deputado-repórter só foi dado no quinto parágrafo. Em 8/3, Carvalho discursou na Câmara sobre a possibilidade de a União perder o controle acionário do Banco do Brasil e antecipou o prejuízo de R$ 4 bilhões do banco em 1995.

O Jornal do Brasil deu uma reportagem em quatro colunas, e editou-a como se o levantamento tivesse sido feito pelo jornal, pois o nome do deputado só aparecia no sexto parágrafo e sem crédito pelos dados. O Jornal da Tarde, em contraste, creditou as informações ao deputado na primeira linha da sua matéria. Quando o governo confirmou o que Carvalho havia antecipado (19/3), e anunciou a injeção de R$ 2,3 bilhões de dinheiro público no Banco do Brasil, ninguém fez menção ao trabalho do parlamentar.

 

Por trás da voz

A contextualização das declarações da fonte sempre é um enriquecimento da notícia. Se a imprensa (jornais e revistas) indicassem, nos limites do bom senso, como obteve determinadas declarações, e a forma como foram dadas, o leitor estaria melhor servido. Mas esse cuidado é uma exceção somente praticada quando há interesse especial. Foi o que ocorreu com a Folha ao informar que o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, teve a iniciativa de fazer gracejos sobre o ingresso da empresa jornalística no negócio de telefones celulares. (Leia mais na pág. 8) Das 52 linhas de texto da matéria “Motta faz acusações contra a Folha”, apenas dez constituíam a seca notícia declaratória habitual.

As 42 linhas restantes serviram de contextualização — acrescidas de uma Nota da Redação com mais 21 linhas. O jornal disse que o ministro falou “espontaneamente”, sem ninguém perguntar nada; que se dirigiu ao repórter da Folha; que o comentário foi feito às 19h40 de Tóquio (7h40 em Brasília); que o ministro riu e usou “tom jocoso”; que “falou informalmente”, e que ninguém gravou; que estavam na sala do aeroporto de Haneda jornalistas dos principais meios de comunicação do Brasil. Eis um excelente exemplo de contextualização que poderia ser mais comum.

      Boletim Nº 8  Março-Abril  de 1996
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