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Imprensa se deixa enrolar até no número do PIB

Na aritmética metafísica do governo, que a imprensa acolhe e amplia, não se salva nem mais o número fundamental da economia: o do Produto Interno Bruto, PIB. É a quantificação das riquezas produzidas no país. Um PIB alto, como o dos Estados Unidos, significa uma economia forte. Se o PIB cresce no ano, é sinal de que o país se desenvolveu, gerou mais riquezas, bens e serviços — embora, no caso brasileiro, de forma extremamente concentrada. Pois bem: quanto o Brasil cresceu e qual foi o PIB do ano passado? “Para IBGE, Brasil cresceu 4,2% em 95”, anunciou em manchete de página, por exemplo, o Estadão, mas a notícia foi destacada em outros jornais do dia 15/2. O PIB de 95, nas contas do IBGE, foi de R$ 621 bilhões.
Distraidamente, a mídia informou que o PIB de 94 fora de R$ 356 bilhões — embora todos citassem “algo em torno” de US$ 500 bilhões. Ninguém comparou nada — e o número novo seguiria como um troféu que entroniza o país no oitavo lugar da economia planetária, superando o Canadá e a Espanha. Como a matemática é uma ciência autoritária e não admite pluralismo ideológico, a colunista Míriam Leitão, do Globo (20/2), fez uma conta elementar e estranhou: se o PIB era de R$ 356 bilhões e aumentou 4,2%, subiu para R$ 371 bilhões. Se o IBGE anuncia R$ 621 bilhões, o aumento foi de 74% e não de 4,2%. Ah, tudo depende da metodologia — uma intrincada combinação e opção por taxas de dólar, índices de inflação, poder de paridade de compra e muito mais. É a escolha e não a ordem dos fatores que altera o produto.
O número é provisório, logo, virtual, pode ou não ser confirmado em agosto, quando sairá a conta definitiva, conforme anunciou o diretor de Pesquisas do IBGE, Lenido Fernandes. Mas coincide com a conta feita anteriormente pelo Departamento de Economia do BNDES, que chegou em R$ 619 bilhões (JB, 7/2). A coincidência indica que esse será o PIB oficial, mas vai ficar sob suspeita até que as autoridades se expliquem. É compreensível que vários institutos, utilizando métodos diferentes, cheguem a resultados polêmicos — como ocorre, por exemplo, com a inflação e a taxa de desemprego. Mas o número do PIB gerado pelo único serviço oficial de estatística deve ter credibilidade, e para isso precisa ser virado pelo avesso como tentou fazer a colunista do Globo.
Ela foi atrás das explicações, mas os leitores continuaram desinformados: “No IBGE, tive que ouvir que o assunto era muito complexo para que eu entendesse.” Até mesmo um diretor do Banco Central, Gustavo Franco, lavou as mãos: “Fico desconfiado de tudo. É um inferno essa questão de inflacionamento do PIB.”
Como bem cobrou a colunista do Globo, a obrigação do governo é apurar números confiáveis, expor a metodologia, usar os critérios internacionais e traduzi-los para o público. O episódio reitera o descalabro do governo com números e a preguiça e incompetência técnica da imprensa para noticiar as contas do país.

Fogo(fátuo)nos títulos

Esquentar o título é a fórmula fraudulenta do jornal popular. “Cachorro fez mal à moça”, dizia o título famoso, para uma notícia sobre intoxicação com cachorro-quente. Jornais respeitáveis emulam a fraude — sobretudo em títulos apelativos, desautorizados pelo bom senso. “Álcool no corpo do piloto”, deu O Globo em 5/1 para a notícia de que “vestígios de álcool” haviam sido detectados no corpo do piloto do Boeing da American Arlines que bateu numa montanha em Cali, na Colômbia. Era uma forma de esquentar a notícia: o piloto talvez estivesse bêbado. Álcool em cadáver pode ser produto de reações químicas em casos de mortes violentas — e a própria notícia do jornal informava isso.
Outro exemplo de esquentamento: “Dona Ruth anima Pacotão”, deu em manchete de seis colunas o Correio Braziliense (18/2), ao noticiar o tradicional bloco carnavalesco de Brasília. O primeiro registro do leitor é o de que a mulher do presidente da República iria requebrar na folia mais irreverente da cidade — quando ela apenas inspirara o tema musical do Pacotão, “Dona Ruth liberou”. Rigorosamente, o título não mentiu, mas produziu fogo-fátuo como “Cachorro fez mal à moça”.

Entre(vista)eles

A Revista da Folha eliminou os intermediários. Na edição de 25/5, a anunciante Cosette Alves, do Mappin, entrevistou o anunciante Samuel Klein, das Casas Bahia. Eram dois donos de lojas de departamento, numa entre(vista) eles de dez páginas — quatro acima da média dada aos assuntos de capa da revista (seis páginas ganhou, por exemplo, o "tesão nacional" Teresa Collor). Uma pergunta da empresária para o empresário:
—Sr. Klein, o que é vender?”

A imprensa do Rio enfim viu notícia no argentino César Arrieta, acusado de praticar, na Previdência Social, fraudes maiores que o Pão de Açúcar (US$ 1,5 bilhão segundo o Jornal do Brasil, US$ 3 bilhões segundo O Globo; com a diferença se poderiam construir 230 mil casas populares). Arrieta era preso, solto, preso, solto, e os jornais ignoravam (ver boletins de junho e julho). Mas, em 5/1, os jornais noticiaram com destaque mais uma libertação do acusado, beneficiado por um habeas-corpus. O Globo deu chamada na primeira página. O Jornal Nacional fez uma extensa reportagem, ouvindo as autoridades. Ainda não foi noticiado, no entanto, quais empresas se beneficiaram das fraudes.

 Boletim Nº  7  Janeiro-Fevereiro de 1996
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