Notas6

Mídia acreditou que o Sivam era secreto
O último trimestre do ano foi fértil em notícias do passado (grampo, Sivam e pasta rosa), permitindo à imprensa recuperar-se de um eclipse num assunto solar, o Projeto Sivam. Um ano antes, a maior obra pública em curso no país passou pelas barbas da mídia como uma honesta e pífia ponte de subúrbio. Esperava-se que depois das CPIs Collor-PC e do Orçamento, que conduziram a um suposto zelo com o dinheiro do contribuinte, as obras duvidosas e megalômanas estivessem sob a lente da mídia. Mas foi inacreditável o desinteresse pelo Sivam, escondido pelo governo como um projeto militar de “segurança nacional” (o suficiente para colocar o assunto na primeira página), ao custo bruneico de US$ 1,4 bilhão (US$ 2,8 bilhões com os juros em 18 anos).
O noticiário pesado deveria ter começado em junho de 1994, quando o presidente Itamar Franco dispensou a concorrência pública para o projeto. O governo dizia que o Sivam era secreto, e a mídia concordou. O ano de 1994 foi decisivo para o Sivam (dispensa da concorrência, escolha da Raytheon, aprovação pelo Conselho de Defesa nacional e pelo Senado, em sessão secreta) mas a mídia reportava o projeto com notinhas e números errados — só no final do ano cravou a cifra estelar de US$ 1,4 bilhão. Tome-se o exemplo do jornal que hoje melhor levanta o véu da suspeita que encobre o Sivam, a Folha. A Folha produziu a primeira matéria crítica (26/12/94) e, depois de estourado o escândalo, fez revelações como a de que o projeto só era secreto para os brasileiros, pois o governo mandara cópias para as embaixadas de 16 países. Naquele ano de 1994, a Folha deu mais atenção à duplicação da rodovia Fernão Dias (21 matérias e notas), uma obra de US$ 270 milhões, do que ao Sivam (14 matérias e notinhas). Só na reportagem de 26/12, quando o Senado, em apressada sessão, aprovou os empréstimos externos, é que o jornal enfim deu alguns pormenores sobre a rede de radares na Amazônia.
O Sivam só foi para o holofote da mídia brasileira quando um jornal estrangeiro, The New York Times, noticiou, em fevereiro de 1995, que a CIA apurara que a empresa francesa Thomson teria tentado subornar autoridades de Brasília para levar a obra que o governo já concedera à americana Raytheon. A imprensa brasileira fez, então, o que deveria ter feito dois anos antes - cobriu o Sivam.
O desinteresse instantâneo pelos fatos — noticiá-los enquanto eles acontecem — se repete em grandes assuntos que atualmente o conjunto da mídia noticia, mas não cobre. Cobrir é desbastar o tema, revolvê-lo, repercutir e provocar notícias — como se faz com, por exemplo, com a Igreja Universal. Mas está virando moda um tema importante só receber cobertura pesada quando alvejado por denúncia de corrupção. Desfilam incólumes na mídia temas como os juros (o que significa o Tesouro pagar US$ 36 bilhões por ano?) e o orçamento (peça de ficção recheada de fantasias, como receitas aleatórias — CMF para a Saúde). Uma notícia curta pode ser o atestado mais eloqüente da omissão, assim como um editorial indignado pode servir de epitáfio perfeito para um assunto indesejável.

Em nome de Deus
Há de tudo um pouco no rolo-compressor que os principais meios de comunicação - com exceção de Veja - passam sobre a Igreja Universal e seu bispo Edir Macedo, mas o que menos há é jornalismo. Há denúncias chocantes, que pedem investigação laica e não julgamento religioso, como a denúncia de que a igreja recebeu dinheiro do narcotráfico. Mas há disputas pelo mercado de TV, intolerância religiosa e uma amplificação histérica de fatos controversos baseados em fontes idem. A campanha arrasta o Estado, e o Estado gosta: sai das manchetes com seus casos de corrupção (grampo, Sivam, Econômico, etc., etc.) , e autoridades antes cautelosas, como o procurador-geral Geraldo Brindeiro, que demorou para ver um só crime nos escândalos do Banco Econômico, em três dias preparam inquéritos cujas conclusões são preanunciadas pelo noticiário. Burocratas de militância católica, como José Gregori, do Ministério da Justiça, anunciam a hipótese de cassação da concessão da rede de rádio e TV da igreja, tirando da gaveta uma suposta “legislação ética” que do aético setor de rádio e TV, com raras exceções, nunca se cobrou. Quando põe a paixão cega no lide, a mídia renuncia a um de seus papéis fundamentais numa sociedade pluralista: a de zeladora das instituições e liberdades democráticas.

Perguntar ofende
Em jornalismo, quem deve fazer perguntas é o pauteiro e o repórter, não as notícias. A lógica ensina que o leitor compra jornais para ter explicações e não ler indagações. Um problema com as perguntas (sem respostas) é que elas sugerem um diálogo público entre jornalistas e fontes, assistido passivamente pelo leitor mal-informado. Outro problema é que as interrogações se prestam a gracejos duvidosos ou embutem juízos de valor que as notícias não ousam fazer. Mas é comum jornais perdidos numa cobertura ou interessados em mostrar serviço num assunto controverso publicarem blocos inteiros de pontos de interrogação, sobretudo em casos de crimes ou investigações. É como se o jornal escrevesse as perguntas e cruzasse os braços à espera de que as fontes respondessem.
Quem pergunta sem responder pode cair na própria armadilha, como ocorreu com o Estadão em 28/12. Na Coluna do Estadão, a seção fixa Perguntar não ofende indagou: “Afinal, a Previdência registrou déficit ou superávit?”. “Previdência fecha 95 com déficit”, era a resposta que se podia ler, no mesmo dia, no concorrente Folha de S. Paulo, em matéria de cinco colunas, com gráficos e 104 linhas de texto, anunciando um provável rombo de R$ 200 milhões na Previdência Social.

Prêmios com dinheiro público, revistas, nomes errados...
Erramos ao informar, no número passado, que o dinheiro público a ser gasto pela Caixa Econômica Federal no concurso de “Jornalismo Social” somará R$ 15 mil. Na verdade, o valor total do concurso é de R$ 50 mil. A Caixa vai premiar reportagens sobre saneamento básico, habitação, medicina preventiva, educação básica, ou seja, tudo o que o governo não faz. Nem a Caixa Econômica de veria gastar o dinheiro público em prêmios para jornalistas, nem os jornalistas deveriam concorrer a prêmios pagos com o dinheiro do contribuinte. Parecem satisfatórios os galardões distribuídos pela iniciativa privada ou instituições — a começar pelo que realmente importa, o Esso, e outros como os da Fundação OK, da Aberje/Aracruz, federações e sindicatos de trabalhadores. Alguns governos estaduais e outras empresas públicas também recompensam jornalistas — o Amazonas, por exemplo, está distribuindo R$ 120 mil (A Crítica, 11/11). Se uma empresa pública extingue um concurso, jornalistas são os primeiros a querê-lo de volta: a Sabesp (companhia de águas do Estado de São Paulo) acabou com o Prêmio Saturnino de Brito de Jornalismo, em Santos (SP), mas a Delegacia do Sindicato de Jornalistas pediu a volta do concurso (A Tribuna, 12/10). Governos não têm que premiar jornalistas com dinheiro que suas combalidas instituições financeiras deveriam aplicar em programas sociais. Se quiserem homenagear algum trabalho, deveriam sacar sua enorme coleção de medalhas.
A omissão de uma linha no artigo “Negócios...” no número 5 creditou a revista American Journalism Review à escola de Columbia. Na verdade, a revista da famosa escola de jornalismo chama-se, apropriadamente, Columbia Journalism Review. American Journalism Review é independente. A confusão se deveu ao fato de ambas as publicações terem tratado da questão das palestras que jornalistas americanos fazem a peso de ouro, uma discussão que já chegou ao Brasil .
No número 4, foi possível incluir errata na maioria dos exemplares para reparar inúmeros erros de grafia: o nome do presidente americano John Adams saiu Adms, o da multinacional alemã Bosch saiu Bosh, a rotativa Goss saiu como Gooss e a palavra gaze foi escrita com s. A lei de Imprensa (5.250, de 9. de fevereiro de 1967), foi promulgada na gestão do marechal Castello Branco e não do marechal Costa e Silva.

Negócios por fora
O âncora do SBT, Boris Casoy, não está fazendo palestras pagas em empresas onde possa ocorrer conflitos de interesses com seu trabalho de jornalista. No artigo “Negócios por fora comprometem a independência dos jornalistas e da imprensa?”, publicado no número passado deste boletim, reproduzimos a posição de Casoy no debate : “Em mim está instalada uma grande dúvida ética”. Como não fechou questão, Casoy acha que eventualmente poderá aceitar pagamento por uma palestra, mas em 1995 recusou os convites porque todos produziam conflitos de interesses: seria pago para falar a portas fechadas em empresas que estavam no noticiário público, e nem sempre com notícias favoráveis.
O jornalista também não fez, neste ano, nenhum comercial institucional, sequer para o SBT. Se achar que é jornalisticamente interessante fazer contato com determinada empresa, o âncora diz que fará a palestra sem nada cobrar. O assunto pegou fogo nos Estados Unidos porque estrelas da TV cobram até US$ 35 mil dólares por uma palestra e depois criticam políticos que fazem o mesmo. No Brasil, o debate foi levantado pelo Correio Braziliense (16/7) na reportagem "A ética profissional e o dinheiro", com entrevista de Casoy e outros dois astros do telejornalismo e das palestras, Luis Nassif e Joelmir Beting.

     Boletim Nº 6 Novembro-Dezembro de 1995
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