Ilhas de competência A grande receita (70 páginas de publicidade, mais de um milhão de exemplares por semana) tem permitido a Veja manter uma equipe de primeiro nível fora do dia-a-dia do noticiário. Nela figuram alguns dos maiores jornalistas do país, como Raimundo Rodrigues Pereira, Roberto Pompeu de Toledo, Marcos Sá Correa e Geraldo Mayrink. Trabalham com planejamento, tempo e recursos. É um modelo de primeiro-mundo e pode resultar em matérias onde se gastem dois dos grandes inimigos do jornalismo brasileiro: tempo e dinheiro. Em oposição a seu econômico modelo mc-paper, a Folha deu um exemplo de investimento na investigação para esclarecer de vez um assunto controverso: o jogo do milésimo gol de Pelé. Quatro páginas da edição de 14 de maio provaram que o gol foi marcado no jogo Santos x Botafogo, em João Pessoa, em 14 de novembro de 1969. O gol no goleiro Andrada, no Maracanã, de pênalti, cinco dias depois, foi o 1001º. A Folha investiu três meses de trabalho, revirou arquivos de 12 jornais, confrontou notícias com súmulas de jogos, e exibiu a transparência da sua conta: deu a data e o jogo de cada um dos mil gols do Rei. Isso sim é jornalismo de investigação - trabalho duro, paciente, métodos transparentes e precisos.
Público confia na imprensa tanto quanto na polícia A quarta rodada da série de pesquisas que o instituto Vox Populi faz para o Jornal do Brasil mostrou, pela enésima vez, a baixa credibilidade da imprensa. De 3.038 entrevistados, só 22% disseram confiar na imprensa - índice igual ao da Polícia Militar, e abaixo do Judiciário e das Forças Armadas (veja à direita). Ao apresentar o resultado, em 21 de maio, o JB destacou: “Povo já não confia mais na imprensa” - mas não há pesquisa anterior mostrando que confiava. Os levantamentos conhecidos demonstram rasa confiança do público nos jornais e revistas, abaixo até da credibilidade da TV (ver nosso boletim de março). Outra curiosidade é que os entrevistados de Vox Populi acreditam mais no Judiciário que na imprensa - mesmo depois de o Jornal do Brasil ter publicado, dias antes da pesquisa, minuciosa e reveladora série de matérias sobre os desmazelos da Justiça. Por ironia, a confiança no Judiciário subiu um ponto em relação à pesquisa de fevereiro, enquanto a imprensa ficou estacionada em 22%. Ainda assim, o jornal defendeu o controle externo do Judiciário - pela imprensa. Outra pesquisa, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (IBEP), com 20% dos deputados e 31% dos senadores, avaliou alguns dos maiores jornais, revistas e Tvs do Brasil e revelou que o jornal mais confiável, de menor arrogância e que menos manipula a opinião pública é a Gazeta Mercantil. O Estadão foi considerado o mais arrogante; O Globo, o menos confiável (veja quadro dos jornais). À parte o merecido primeiro lugar da Gazeta, é de se ponderar que é jornal de economia avesso às investigações e denúncias que os demais costumam fazer contra o Congresso. Se excluirmos a Gazeta da lista, o jornal mais confiável é a Folha, o menos arrogante e que menos manipula é o Jornal do Brasil. De todos os avaliados, a TV Globo levou o duplo troféu de arrogância e manipulação. O único jornal a destacar a pesquisa do IBEP foi a Gazeta Mercantil, ressaltando, no título, que é “o jornal mais confiável e menos arrogante”. A Gazeta arranhou a fama, no entanto, quando escreveu no subtítulo que os parlamentares a apontaram “como o único meio de informação que não manipula a opinião pública”. Na verdade, 65,4% dos entrevistados responderam não, mas 21,2% não responderam (a maior abstenção no quesito) e 3,8% afirmaram que a Gazeta manipula sim a opinião pública.
O Congresso acha que o jornal... Mais confiável é a Gazeta Mercantil e o menos confiável é O Globo Mais conservador é o Estadão e o menos conservador é a Folha Mais manipulador é a Folha e o menos manipulador é a Gazeta Mais arrogante é o Estadão e o menos arrogante é a Gazeta Fonte: Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (Tel 061-224 0029)
O último inocente O americano Richard Pedicini foi o último inocentado no inquérito (policial) da Escola Base. Preso em abril de 1994, acusado de corrupção de menores na seqüência das prisões e invencionices que forjaram a demolição de reputações e da saúde mental de donos e empregados da escola infantil, Pedicini, cuja casa em São Paulo era freqüentada por garotos e foi misteriosamente vinculada com a Escola Base, livrou-se do inquérito por falta de provas. A Folha foi o único grande jornal a registrar o fato, em matéria de página inteira e chamada na primeira - numa demonstração de que o resto da imprensa, depois de uma autocrítica ligeira e genérica, que não alterou os métodos errados de engolir e inflar o que a polícia diz, ignora o pesadelo em que lançou gente inocente.
Quem escreve as notícias O jornalista dos três grandes centros de notícias (Brasília, São Paulo e Rio) é petista, católico, social-democrata, de esquerda, apoia a reforma da Constituição e ganha até R$ 3.000 por mês. O salário é considerado insatisfatório. O perfil foi feito pela Data Kirsten para a revista Radar (Tel 011-258 0344). A maioria tem casa própria, diz que “veste a camisa” da empresa onde trabalha, acha o jornalismo uma “atividade prestadora de serviço” e de “forte cunho social”. O sonho de consumo é uma viagem ao exterior, e o plano para o futuro é estudar no exterior. O jornalista mais admirado pelos entrevistados é Elio Gaspari. O mais odiado, Paulo Francis. O mito nacional é Assis Chateaubriand; internacional, Bob Woodward, repórter de Watergate.
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