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Notas2
 

Bicudo e os bicões no Estadão

O Estadão continua no encalço do deputado Hélio Bicudo (PT-SP), acusado por fontes anônimas do Banespa de levar vantagem num empréstimo tomado em 1986 e pago em 1990. “Advogados do Banespa” citados pelo jornal insistem em que a dívida era de US$ 425 mil (com juros de 24% ao ano, correção monetária pela LBC e mais 1% de taxa de inadimplência), mas, segundo as fontes anônimas, mesmo com um parecer contrário do departamento jurídico , foi feito um acordo pelo qual o deputado do PT pagou US$ 200 mil em sete parcelas, com TR e juros petistas de 2,5% ao ano.
Um leitor esforçado não consegue entender como um acordo vetado pelo departamento jurídico foi firmado, quem autorizou o acordo lesivo ao banco, quem assinou um nebuloso protocolo judicial que prevê a ratificação do acordo depois da quitação da dívida. Baseado nesse protocolo, o interventor no Banespa, Altino Cunha, comunicou à justiça que quer refazer os cálculos antes de ratificar o acordo. No número passado, a nota “Vozes das sombras” deste boletim destacou o caso, observando a prática antiética de um jornal acolher acusações em off (“advogados do Banespa”) e estampar o nome e a foto do acusado. O problema com as fontes secretas é que elas vazam para a imprensa apenas o que interessa - a elas e à imprensa.
Nesse acordo de conveniências, os erros e crimes das fontes secretas passam em brancas nuvens. Foi o que aconteceu nas matérias sobre a apreensão de um avião da Vasp e a prisão do empresário Wagner Canhedo. O Estadão, também usando fontes anônimas, informou nas entrelinhas que Canhedo deve onze vezes mais do que os R$ 190 milhões que o Banespa está cobrando em oito processos. “Segundo um especialista do banco, se a taxa de inadimplência fosse cobrada integralmente, a dívida chegaria a R$ 2,2 bilhões. ‘Mas nos damos por satisfeitos se ele pagar os R$ 190 milhões’, diz o funcionário”. (7 de abril).
Invisíveis, as fontes secretas podem cobrar de uns e doar a outros - o dinheiro público, claro. No mesmo jornal onde denunciam indignadas que o deputado do PT levou US$ 225 mil do Banespa, anunciam, onipotentes, que estão renunciando a nada menos que R$ 2,010 bilhões da dívida de Canhedo. Do que diz ser o calote total de R$ 2,2 bilhões, menos de 10% satisfazem o “especialista” do banco do estado. É peculato. Talvez por isso a fonte do Estadão prefira o anonimato. Conhecida, poderia ser processada junto com os devedores oficiais do Banespa.

indicações

Recomendamos...
O artigo “Os erros da imprensa “, de Miguel Jorge, publicado no número 648 do semanário Meio&Mensagem (Tel 011-263 5400). Combinando as estratégicas condições de ex-diretor de redação de um grande jornal (O Estado de S. Paulo) e de atual vice-presidente de uma grande empresa sempre às voltas com a mídia (Volkswagen), Miguel Jorge trafega em mão dupla pelo tema. Em resumo, o articulista mostra que os debates esporádicos sobre os danos produzidos pela mídia à imagem e reputação de pessoas e instituições não têm gerado mudanças objetivas nos métodos de trabalho que fatalmente conduzem a esses erros.
A seção Imprensa, publicada aos domingos no Correio Braziliense. É rara crítica noticiosa de mídia na grande imprensa, fora do importante trabalho dos poucos ombudsmen. O jornal tem feito reportagens sobre reportagens (Veja e a OAS), entrevistado vítimas da imprensa (ex-ministro da Saúde Alceni Guerra) e discutido iniciativas como a da Folha de perguntar ao presidente da República, em entrevista coletiva, o que ele faria se ganhasse salário mínimo. O Correio opinou que os jornalistas não devem fazer perguntas cujas respostas já conhecem.

correções

Boletim saiu com erros e trecho do editorial foi criticado por leitor
Parte da tiragem do primeiro boletim do Instituto Gutenberg circulou, no mês passado, com erros de acabamento, por culpa do birô gráfico Brasil Laser Color, onde foi impresso. A manipulação de disquetes para a editoração eletrônica mudou a posição de textos e do gráfico. Uma página de correção foi enviada pelo Correio ou por fax, alertando que os números incompreensíveis do gráfico da página 6 eram, na verdade, os anos de 1990, 91 e 94. Foi cortada a última linha da matéria “Câmera digital é o fim da foto-documento”, na página 7, cujo parágrafo integral era o seguinte: “E até mesmo a irrepreensível National Geographic ( saiu Geografic, um erro da redação) não resistiu à tentação de mudar de lugar nada menos que uma das grandes pirâmides de Gizé, apenas para que o inamovível monumento se enquadrasse no formato da capa da revista”.
Um leitor apontou uma contradição no editorial, entre o trecho “O Instituto Gutenberg tem a convicção de que a imprensa não pode ser regulada por leis...” e o trecho “... a imprensa deve submeter-se às leis”. Não há antagonismo. Achamos que a imprensa não deve ser regulada por leis, como uma empresa comum. O Estado democrático fixa normas de funcionamento para muitas indústrias e atividades sociais, mas não pode fixá-las para a imprensa. Na indústria de alimentos, por exemplo, as empresas trabalham sob normas oficiais rígidas quanto à preparação de produtos, e se usam aditivo químico em quantidade superior à tolerada, podem sofrer sanções já fixadas em lei.
A lei jamais poderá, no entanto, fixar quotas de qualquer aditivo usado pela imprensa, como a dramatização de casos ou o exagero de informações. Tal intromissão, indevida, intolerável na democracia, é visível na atual Lei de Imprensa, que chega a especificar o que é notícia. Mas a imprensa deve submeter-se às leis do país, como a Constituição e o Código Penal. E devem sim ser regulados aspectos da relação entre a imprensa e os cidadãos, sempre depois da publicação. Um exemplo clássico é o do direito de resposta, cujo rito judicial deveria ser minuciosamente regulamentado e garantido pela lei

Alto-contraste

Caso Arraes-Cultura pede reflexão sobre tocaia na TV

Uma questão difícil, e que por isso pede debate no jornalismo brasileiro, é a da entrevista-tocaia. A pessoa é convidada para falar sobre determinados assuntos e, no decurso da entrevista, é bombardeada com um torpedo que o jornalista escondera na manga. Os jornalistas argumentam, com razão, que a antecipação da pauta (uma parte é sempre comunicada ao entrevistado) não pode ser invocada como um contrato rígido, e de fato a rotina é entrevistas combinadas sobre um assunto derivarem para outros, mais interessantes. Apesar dessas verdades, o jogo duro dos bastidores pode embutir armadilhas. Uma delas é atrair a fonte com um pedido de entrevista sobre temas que, na verdade, não interessam ao repórter. Ele quer perguntar sobre assuntos que, enunciados na pauta, dariam ao entrevistado a chance de se preparar ou escapar. O repórter tem o privilégio de pesquisar, armar o bote e exigir equilíbrio da fonte. É um rito de espontaneidade ignorado em inumeráveis matérias da TV, onde a cena é montada para reportagens que parecem naturais, mas foram ensaiadas.
Um caso de entrevista-tocaia foi o da TV Cultura de São Paulo com o governador de Pernambuco, Miguel Arraes. Convidado do programa Opinião Nacional para falar sobre Nordeste, seca, relação com o governo federal, Arraes foi surpreendido por um videoteipe do historiador Luiz Mir acusando-o de enriquecer fraudulentamente no exílio. A acusação está no livro de Mir, A Revolução Impossível, publicado há um ano e meio. O governador irritou-se e abandonou o programa, o diretor de jornalismo da TV, Marco Nascimento, pediu desculpas a Arraes e por isso o apresentador Rodolfo Gamberini pediu demissão. Nove em dez jornalistas brasileiros acham que perguntar não ofende e que seria inaceitável antecipar perguntas de uma entrevista com um homem público. Aqui pode entrar a reflexão em busca de uma regra justa. Os jornalistas americanos são os que mais debateram esse assunto. A câmera, segundo muitos executivos da imprensa, faz a diferença.
Uma pergunta bombástica feita por um repórter com gravador ou caneta não produz o efeito desestabilizador de uma câmera de TV focalizada no rosto do entrevistado. No livro Procura-se Ética no Jornalismo, de H. Eugene Goodwin, o melhor levantamento já feito nos Estados Unidos sobre o assunto, a armadilha é aceita para vilões privados e homens públicos sob investigação, e ainda assim a se pensar se a entrevista for para a TV. (Os americanos também chamam de tocaia a entrevista-surpresa, quando, com a câmera ligada, o repórter surpreende ou persegue a fonte pelas ruas).
Algumas opiniões incisivas estimulam o debate. Ellen Goodman, colunista do Boston Globe, considera a tocaia na TV “uma maneira de fazer com que uma pessoa testemunhe contra si mesma. Ninguém deve fazer isso”. Ex-presidente da rede de televisão CBS e ex-professor da Universidade de Columbia, Fred Friendly disse que a entrevista-tocaia “é o truque mais sujo do jornalismo na TV”.

Monoglobo no ar
A regulamentação da TV a cabo, cujo projeto o Ministério das Comunicações divulgou em 18 de abril, contém a novidade de permitir ao poder público deter a crescente monopolização do setor. A lei, de 1994, admite o monopólio, mas o projeto de regulamentação prevê a limitação do “número de concessões por entidade ou afiliada”. A monopolização foi levantada em cartórios pela Folha, única corporação influente da mídia brasileira que jamais teve emissoras de TV ou de rádio.
Os conglomerados da notícia e do entretenimento não fizeram nenhum alarde sobre a revelação de que a Rede Globo tende a monopolizar o setor de TV a cabo, pois é sócia de pelo menos 42 das 70 operadoras (60%) já instaladas no Brasil. É um dado importante num país cujos meios de comunicação são uma caixa-preta - ninguém sabe com precisão quais são os sócios do quê. Há sociedades limitadas que nem publicam balanço (O Globo). Nos Estados Unidos, as publicações são obrigadas a divulgar seus sócios e sua tiragem uma vez por ano.

Notícia são os outros
As empresas de comunicação começam a publicar balanços do exercício de 1994. Alguns números de receita bruta/lucro líquido em milhões de reais:
Folha: R$ 231,6 / R$ 5,9
Estadão: R$ 212,9 / R$ 27,3 milhões (o primeiro lucro em alguns anos)
Abril Jovem : R$ 20,3 / R$ 2,9
SBT (só São Paulo) R$ 194 / R$ 11,5
Dinap (distribuidora da Nova Cultural) : R$ 155,9 / R$ 9,7
A Oesp Gráfica faturou R$ 19,1 milhões e teve prejuízo de 1,7 milhão.
Os balanços coincidem com a divulgação pela Folha de débitos da mídia nos bancos oficiais (Bloch, da TV Manchete, deve R$ 80,7 milhões ao Banco do Brasil), e no INSS, ao qual 59 jornais, 223 rádios e Tvs devem R$ 83,8 milhões, apenas na rubrica débitos não-renegociados. Não pagam, não negociam, não informam a seus leitores que devem “ao governo”. Empresários comuns cujos nomes são estampados nos jornais por dívidas com bancos oficiais têm direito a reclamar da discriminação?
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Boletim nº 2, Abril de 1995
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