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O "jornalista", o jornal e a espinha de borracha
A saída do colunista Elio Gaspari do Estadão repôs um tortuoso dilema de jornalistas: até onde podem emborrachar a espinha. Gaspari, o jornalista brasileiro mais respeitado pelos jornalistas brasileiros, segundo pesquisa do Data Kirsten para a revista Radar, foi vítima de uma denúncia feita pelo Jornal da Tarde, do grupo Estadão, contra o candidato do PPB à Prefeitura de São Paulo, Celso Pitta. Segundo o jornal, quando era secretário de Finanças, em 1994, Pitta fez negócios nebulosos com corretoras e deu prejuízo de R$ 1,7 milhão à Prefeitura. A notícia foi publicada como fato verídico em 1/10, dois dias antes da votação em primeiro turno.
Gaspari elogiou a reportagem mas criticou a fonte do JT, o Banco Central, acusando-a de vazar a informação contra Pitta com o objetivo de beneficiar o candidato do PSDB, José Serra. "Deve-se ao oportunismo da direção do Banco Central, e ao seu hábito de incursionar pelo pântano da intimidação política, a transformação de uma revelação jornalística num instrumento vulgar de campanha eleitoral", escreveu o jornalista, em 2/10, na sua coluna no Estadão. O diretor do Jornal da Tarde Fernão Mesquita publicou um editorial repudiando "jornalistas" (entre aspas) que criticaram o BC. Gaspari passou uma descompostura em Mesquita, ponderando que não poderia responder a um editorial da "casa", e saiu altivamente.
A Folha (5/10) deu uma nota impressa com cicuta: "Segundo versão que circula no governo, um membro do BC pressionou a direção de ‘O Estado de S. Paulo’. Teria reclamado que, após terem passado informação valiosa ao jornal, foram duramente criticados". Logo a seguir, a Folha anunciou que Gaspari passaria a ser seu colunista, além de escrever no Globo e em Zero Hora. O Estadão, que costuma noticiar mudanças na equipe do New York Times, não teve a elegância de informar os leitores sobre a saída de seu principal colunista.

Até a notícia é secreta
É intolerável a tolerância da imprensa com a Abin - Agência Brasileira de Inteligência, sucessora do SNI. Volta e meia jornais anunciam a dotação de verbas e pessoal para a agência, que já conta com 1.200 funcionários e quer mais 400 (Estadão, 31/10) e reivindica um orçamento de R$ 70 milhões. É legítimo um governo democrático ter instrumentos de informação, para saber o que acontece de errado nas suas entranhas, mas não para espionar os cidadãos. Arapongas da Abin têm sido vistos em manifestações políticas em Brasília.

Ética, só a pedidos
Depois de brutalizadas por assaltantes ou estupradores, há sinais de que as vítimas deixam de ser, em seguida, também maltratadas pela imprensa. O Estadão, ao noticiar em 20/9 uma denúncia de estupro em Sorocaba (SP), publicou apenas as iniciais da vítima, uma menina de quinze anos. A Folha (9/10), ao relatar o seqüestro e o estupro de uma universitária de 20 anos, em São Paulo, também publicou as iniciais — mas como que se desculpou entre parênteses: "A família pediu que ela não fosse identificada". A ressalva sugere que se a família não pedisse o jornal identificaria a vítima.

Escola Base em inglês
Os jornalistas americanos estão freqüentado a Escola Base. A aula do dia é dada por Richard Jewell, guarda da AT&T que o FBI apontou como suspeito de colocar a bomba que, em 27 de julho, explodiu no Parque do Centenário, durante a Olimpíada de Atlanta. Uma "fonte" do serviço secreto disse à repórter Christina Headrick, do Atlanta Journal, que Jewell era suspeito — e o jornal saiu com uma edição especial. Desde então, a vida de Jewell, de 33 anos, foi esquadrinhada pela polícia e revirada pela mídia. No início de outubro, o FBI escreveu uma carta a Jewell dizendo que ele não era mais suspeito. A volúpia com que a imprensa divulgou notícia tão comprometedora, com base num "vazamento" de "fonte não identificada", está provocando um áspero debate nos Estados Unidos. Até mesmo o presidente da Sociedade dos Jornalistas Profissionais, Steve Geimann, criticou o açodamento da mídia, concluindo que o preço pago pelo erro "é muito alto em termos de confiança pública e credibilidade." Howard Kurtz, que escreve sobre a mídia no Washington Post, alertou para a "relação incestuosa" entre repórteres e "fontes não identificadas".
Para alguns, como Steven Rendall, do grupo de crítica de mídia FAIR, ficou a impressão de que o governo tratou de achar logo um suspeito para mostrar serviço, e os jornalistas engoliram a isca. Jewell vai processar jornais, revistas e o FBI. "A imprensa cercou-me como um cardume de piranhas", reclamou. Ao publicar uma boa reportagem sobre o assunto, em 29/10, o Jornal do Brasil comparou o caso ao da Escola Base — um "pesadelo" vivido por educadores de São Paulo, acusados, e depois inocentados, em 1994, de bolinar crianças. A demonstrar, mais uma vez, que a imprensa brasileira nada aprendeu com o episódio, o JB creditou todo o erro à polícia e omitiu o show da mídia.

Crime por crime
Há notícias que ninguém entende, como a nota dada pela Folha em 25/9: "Boate Kilt é fechada pela 3ª vez este ano". Se bordéis e similares funcionam indiscretamente no país, a repressão súbita da polícia precisaria ser explicada. O jornal não esclareceu por que os policiais do 4° DP de São Paulo de repente resolveram fechar bordéis que, de fato, são proibidos, mas tolerados. Se a lei fosse aplicada, a esmagadora maioria dos jornais brasileiros seria enquadrada no artigo 228 do Código Penal, que define o crime de favorecimento da prostituição. Anúncios de prostitutas oferecendo seus serviços tomam páginas com apelos do tipo "Sexo selvagem - Estou molhadinha...".

Goebbels de Ouro
A campanha publicitária do Banco Central sobre o Proer pode muito bem ganhar o Goebbels de Ouro. Repete, com o objetivo de tornar verdades, mentiras deste naipe: "Se a queda da inflação foi boa para você, não foi assim tão boa para alguns bancos. A famosa ciranda financeira acabou. Com isso, os bancos mal administrados ficaram em situação delicada, deixando seus clientes e o sistema financeiro do País inseguros". Entre outros, o anúncio dá como vítimas do fim da inflação os bancos Econômico e Nacional. Na verdade, fraudes acintosas, prontamente saneadas com o dinheiro do contribuinte, é que produziram a ruína dessas instituições.

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Número 11, setembro-outubro de 1996
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