As manchetes de economia do Estadão destacando em geral um cenário cor-de-rosa podem ser lidas reportagem interna. O jornal dobrou seu faturamento de R$ 212,9 milhões em 1994, para R$ 456 milhões em 1995. A Folha pulou de R$ 231,6 milhões para R$ R$ 440,1 milhões — nada menos que 90% de expansão. A circulação das revistas deu um salto brutal de 44%, com a venda de 370 milhões de exemplares. E a receita de publicidade aumentou em 72%. O negócio da mídia, monitorado pelo Projeto Intermeios, que contabiliza de 85% a 90% da verba no Brasil para o jornal Meio & Mensagem, movimentou US$ 6,49 bilhões no ano passado — 42,5% a mais que em 1994 (Meio & Mensagem, 12/2)
Uma das razões para esses negócios de primeira página foi o aumento da circulação de dinheiro nas chamadas classes C e D, o que fez engordar o anúncio classificado em 68% — e o classificado significa em média 40,7% da receita publicitária dos jornais. “Estado lidera mercado e publica 1,5 milhão de anúncios classificados”, informou o Estadão em 7/3, dando conta de que seus classificados fecharam o ano com 12 mil páginas, enquanto o “segundo jornal” teve 8 mil páginas. A Folha respondeu com um anúncio publicado em Meio&Mensagem, em 18/3: “Uma notícia que faltou no caderno de negócios do outro jornal. Folha de S. Paulo. 6.405 páginas a mais de publicidade que o outro jornal em 95”. O sucesso no negócio também decorreu do aumento dos investimentos em publicidade de produtos populares, a coqueluche do ano, e da entrada no mercado, mais competitivo, de novos anunciantes. A frase mais ouvida nos departamentos comerciais das empresas de comunicação é : “Nosso faturamento dobrou em 95”.
O caixa gordo tem empurrado as empresas de comunicação para a formação de conglomerados. O padrão tende a ser o das Organizações Globo, com interesses tentaculares em televisão, jornal, rádio, TV a cabo paga e as chamadas novas tecnologias — TV a cabo associada a cinema, computadores e telefones celulares. A Editora Abril segue a Globo de perto e o Grupo Estadão, que já tinha uma rádio, e edita guias e listas telefônicas, entrou no negócio dos celulares. As listas são uma mina de prata para o Estadão: o faturamento da Oesp Mídia passou de US$ 56,7 milhões em 94 para US$ 142 milhões em 95.
O último dos grandes a entrar no clube foi a Folha de S.Paulo. Em 8/3, o jornal antecipou o anúncio formal, que faria em 18/4, de que estava se associando ao Unibanco, à construtora Odebrecht e à operadora americana Air Touch para disputar o mercado de 17,2 milhões de telefones celulares previsto para o Brasil em 2003. A Folha era o único dos grandes jornais a não ter vinculação com negócios paralelos — exceto granjas de frangos — (veja o quadro abaixo) e por isso a diversificação gerou ironias até do ministro das Comunicações, Sérgio Motta. “Vocês viram a Folha? Agora vai ficar de rabo preso com o governo. Vai entrar na telefonia”, disse o ministro (Folha, 13/3). O jornal esclareceu que seu consórcio vai entrar num leilão, e interpretou as declarações do ministro como “o desejo de usar as licitações como meio de chantagem e de intimidação”.
A diversificação é uma tendência internacional, particularmente forte nos Estados Unidos, onde todos os grandes jornais, revistas e redes de TV avolumam-se em corporações. “A era dos conglomerados de mídia chegou”, disse o crítico de mídia do Washington Post, Howard Kurtz. Já não se reclama do fato de jornais, revistas ou TVs se associarem ou serem adquiridas por grandes companhias que passam a ser ao mesmo tempo fontes e proprietárias das notícias. No ano passado, três negócios espetaculares de US$ 40 bilhões consolidaram essa tendência: a Disney comprou a mais influente rede de televisão americana, a ABC. A Westinghouse comprou a rede CBS. A Time juntou-se à Warner e comprou a TBS-CNN.
A questão é saber até onde o choque e a comunhão de interesses num conglomerado podem afetar a objetividade do noticiário. A revista Newsweek (do grupo do Washington Post, que tem interesses em TV a cabo) criticou os negócios em agosto de 1995. “Bolsos forrados significavam, antigamente, que os veículos de comunicação tinham recursos suficientes para apoiar suas reportagens investigativas, se arriscando, com freqüência, a ser processados. Hoje, entretanto, bolsos forrados freqüentemente significam um compromisso maior com acionistas e compradores em potencial do que com o princípio jornalístico da busca da verdade.” (JB, 2/9/95).
No Brasil, as empresas jornalísticas não demonstram objetividade ao tratar na notícia o concorrente nos negócios, e muito menos o parceiro. Pode ter sido coincidência, mas tão logo a Folha anunciou seu consórcio, o Estadão deu com destaque fora do comum notícias adversas à Construtora Odebrecht — parceira da Folha no celular.” Odebrecht é impedida de disputar obras no Ceará”, anunciou o jornal (17/3), informando ainda que a empreiteira foi “declarada inidônea” naquele estado. O Globo e a Rede Globo sempre trataram a Tele-Sena do SBT como um crime — exceto quando as Organizações Globo participavam do Papatudo. Depois que a Globo saiu do negócio da loteria na TV, seu jornal e sua televisão voltaram à carga, cobrindo com rigor o negócio paralelo do concorrente. “TeleSena: promotor denuncia Silvio Santos”, deu o jornal em quatro colunas (13/3) com foto do apresentador e o subtítulo de que ele fora “acusado de enganar os consumidores e pode ser condenado a 5 anos”. Três dias depois, baixou o interesse dando em apenas uma coluna o título “Juiz rejeita acusação contra a Tele Sena”.
Se a regra é essa, os leitores e as empresas concorrentes de outras que estejam associadas à mídia têm motivos para se preocupar. A construtora Andrade Gutierrez, por exemplo, integra um consórcio para exploração de telefones celulares do qual não participa nenhuma empresa jornalística, mas uma de suas principais concorrentes no ramo da construção está associada à Folha. Qualquer notícia da Folha sobre a Andrade Gutierrez — seja sobre celulares, seja sobre a Via Dutra — terá de levar em conta esse conflito de interesses.
Boletim Nº 8 Março-Abril
de 1996
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