Instituto Gutenberg


    Crimes I

     

    A segunda morte de dois jornalistas

    Entidades corporativas da mídia nada fazem,
    além de discursos, para esclarecer assassinatos

    Duas cruzes foram impressas com balas na imprensa brasileira em 1998. Dois jornalistas foram assassinados a tiros no primeiro trimestre, mas, ao encerrar-se o ano, as investigações resultaram na detenção temporária de um suspeito e no arquivamento de um dos inquéritos com a brasileiríssima conclusão de "autoria desconhecida." Os mortos trabalhavam nos grotões do país. O primeiro, Manoel Leal de Oliveira, era diretor-proprietário do semanário A Região, de Itabuna, Bahia, cenário dos romances de Jorge Amado e seus coronéis truculentos. O outro era José Carlos Mesquita, dono da TV Ouro Verde de Ouro Preto do Oeste, em Rondônia, um faroeste à espera de um autor.
    A geografia dos veículos e a biografia dos mortos explica por que os crimes são esquecidos pela elite da imprensa, e só mencionados como recheio de discursos de entidades corporativas. Tanto a Associação Nacional de Jornais (ANJ) como a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) adornam seus relatórios sobre atentados à liberdade de imprensa com estrepitosas denúncias de "impunidade", mas não movem uma palha para sequer produzir informações jornalísticas sobre os crimes.
    Leal, morto por três homens na noite de 14 de janeiro, e Mesquita, fulminado também por três pistoleiros em 9 de março, figuram no último jornal da ANJ. O diretor da Associação, Paulo Cabral, levou os casos para a 54ª Assembléia Geral da SIP, realizada em Punta del Leste, no Uruguai, em novembro. "Esse quadro de violência e impunidade é inaceitável," disse Cabral. Segundo os trechos do discurso transcritos pelo Jornal ANJ, Cabral, também diretor do Correio Braziliense, sublinhou que no Brasil se verificam "Ampla liberdade de imprensa, aumento das pressões e violências contra jornais e jornalistas e absoluta impunidade nos crimes contra jornalistas e jornais".
    A liberdade de imprensa deveria ser uma ferramenta para impedir crimes contra jornalistas. Mas o que se verifica é que, além de esgrimir os cadáveres para forrar as denúncias, a imprensa e suas entidades corporativas sequer noticiam o andamento das investigações. As exceções ficaram por conta das revistas Imprensa e Carta Capital. A primeira fez um amplo levantamento sobre os crimes em todo o país, e a segunda publicou em novembro uma entrevista com o filho de Leal, Marcel, publicitário em Itabuna. Fossem os dois jornalistas do Sudeste, integrantes da equipe de um jornal, revista ou TV influentes, o noticiário com certeza seria abundante, sistemático e os criminosos já estariam identificados.
    A campanha da ANJ contra a impunidade dos assassinos é como uma reportagem malfeita: engorda o comentário e emagrece o fato. O tom dos protestos dá a impressão de que há uma escalada de pressões e crimes contra jornalistas. E de que a impunidade é própria desses crimes. Não é bem assim. Age com coerência a entidade corporativa que levanta a voz para proteger seus membros - a ANJ não defende motoristas de táxi mortos no exercício da profissão, em número n vezes superior ao de jornalistas. Mas colorir o protesto com um matiz persecutório é inadequado. A impunidade de assassinos é uma marca nacional. Na Área Metropolitana do Rio, por exemplo, são assassinadas cerca de 6 mil pessoas por ano, e apenas 20% desses crimes são esclarecidos. A impunidade reina em 80%.
    É salutar para a democracia - e, nela, para os jornalistas e todo mundo - que os crimes contra profissionais da imprensa sejam exemplarmente apurados e os culpados, punidos. É bom que as entidades corporativas falem alto contra a impunidade. Uma categoria forte propaga protestos em defesa de seus membros de forma a dar voz às categorias fracas, e assim expõe um problema de toda a sociedade. Foi o que ocorreu em outubro de 1975, quando os jornalistas protestaram contra a morte de Wladimir Herzog no Doi-Codi de São Paulo e denunciaram o problema crucial da perseguição, tortura e assassinato de inimigos da ditadura militar.
    As coisas mudam. A ANJ assumiu a bandeira da liberdade de imprensa e da defesa profissional e física dos jornalistas, a ponto de importantes reuniões dos assalariados silenciarem sobre crimes. O relatório da "plenária final" 28.º Congresso Nacional dos Jornalistas, realizado no Rio em agosto, sequer faz menção ao assassinato de Leal e Mesquita. Foram aprovadas moções "em prol da libertação da brasileira Rosimary Gracia Ferreira, presa no Paraguai há 2 anos e 3 meses vítima de um golpe do narcotráfico" e pelo fim do embargo econômico imposto a Cuba.
    O silêncio se contrapõe à prática não menos inadequada de denunciar como "atentado à liberdade de imprensa" todo crime contra jornalista.
    O que se espera dessas entidades é que superem o ditado "casa de ferreiro, espeto de pau". Elas se queixam de que as autoridades locais não investigam os crimes, mas não há notícia disso. O envio de um repórter, ou de um advogado, para checar os procedimentos policiais e judiciários seria mais eficaz do que os discursos sobre impunidade. Em Itabuna, o delegado João Jaques Valois concluiu, em 14 de agosto do ano passado, o inquérito sobre a morte de Manoel Leal. Não indiciou ninguém. Em Ouro Preto do Oeste, o inquérito sobre o assassinato de José Mesquita roda pelas delegacias e cidades - agora está em Ji-Paraná, e a família do morto, ainda apavorada, temendo falar sobre o assunto, só recentemente, sem apoio nenhum, constituiu um advogado para acompanhar o caso.
     

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    Boletim Nº 24 Série eletrônica
    Janeiro-Fevereiro, 1999

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