O bagaço do tenista
O canibalismo da Rede Globo com o tenista Gustavo Kuerten ficou patente quando ele voltou ao Brasil derrotado nas pistas de Wimbledon. Enquanto ganhou em Roland Garros, Guga foi exaltado como um Ayrton Senna das quadras. Não era só jornalismo, merecido pelo eficiente e simpático atleta. Era também um show e a manufatura de um herói, para animar a nação e o Ibope. Quando perdeu, mereceu uma frase no noticiário de Esporte do Jornal Nacional. Em 28/6, o Jornal Nacional fez de conta que seu herói fugaz estava na Cochincinha e não sendo recepcionado por uma multidão nas ruas de Florianópolis. Em contraste, o Jornal da Band passou as imagens alegres da festa para Guga na cidade e lançou a esperança de que ele ainda conquiste muitas vitórias. Um exemplo de elegância e respeito versus rapinagem e ingratidão.
A mentira da TV
Os anúncios da Rede Bandeirantes de que o apresentador Paulo Henrique Amorim é "o jornalista mais confiável da televisão" são mentirosos. Na verdade, o excelente e confiável âncora do Jornal da Band ficou em segundo lugar na pesquisa promovida pela revista Imprensa, com a média 8,23, cabendo o primeiro lugar a Sérgio Chapelin, da Rede Globo, com 8,28 pontos. O truque da Bandeirantes é dizer que houve "empate técnico" e, por conta deste mistério numerológico, o menor fica maior que o maior.
A Bandeirantes já havia distorcido informações sobre a primazia de seus profissionais quando anunciou que sua rádio AM era a primeira emissora do mundo a ter um ombudsman. Até o ombudsman sabia que, quando assumiu o cargo, outros profissionais já faziam este trabalho em, por exemplo, emissoras do Canadá.
Pesquisa livre
As pesquisas eleitorais devem ser divulgadas nas vésperas das eleições? A questão está em debate na Câmara dos Deputados no bojo da redação de uma nova lei eleitoral. Países democráticos como a França proíbem a publicação das pesquisas, mas o Brasil tem a tradição de divulgá-las até mesmo no dia da votação. É bom para a democracia que as pesquisas eleitorais continuem sendo feitas e divulgadas, a qualquer hora, em nome da liberdade de informação. Mas alguns diretores de institutos reconhecem que é necessário prevenir a picaretagem.
Segundo a Folha (12/6), os diretores do Ibope, Carlos Montenegro, e do Datafolha, Eneida Nogueira, apoiaram a idéia do deputado Silvio Torres (PSDB-SP) de a lei exigir o registro dos institutos na Justiça Eleitoral pelo menos dois meses antes das eleições. A lei já determina que os resultados das pesquisas sejam encaminhados à Justiça para eventual verificação do método e da honestidade. "Com isso, seriam evitadas as pesquisas feritas nas vésperas das eleições por institutos despreparados ou desonestos", informou o jornal. "O maior interessado na correção é o próprio instituto", disse Carlos Montenegro. "Um erro poria em risco todos os negócios".
Confronto de direitos
"Um atentado universal à liberdade de imprensa"
Censura na Internet? Bomba terrorista no New York Times? A polícia proibiu a Rede Globo de transmitir o Jornal Nacional? Nada disso. O título acima, publicado na edição de junho do Unidade, jornal do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo, dava conta de que dirigentes e deputados ligados à Igreja Universal do Reino de Deus abriram um processo contra jornalistas da revista IstoÉ. A igreja apresentou quatro queixas-crimes contra o jornalista Gilberto Nascimento e um pedido de reparação de danos contra a Editora Três. O pivô dos processos é a reportagem "Crise na Igreja Universal - O calvário do bispo", publicada na edição de 15/1.
Segundo o Unidade, "trata-se de mais um atentado contra o exercício da profissão, a liberdade de expressão e de imprensa". O título faz um trocadilho com o nome da igreja, mas, mesmo que se omita o duvidoso jogo de palavra, o texto de duas páginas nega o direito (secularmente democrático) de uma pessoa ou instituição processar um jornalista por reportagem considerada caluniosa ou difamatória.
Da mesma forma que o figurino liberal é talhado na liberdade de imprensa, cabe aos que vivem dela respeitar a prerrogativa alheia de discordar na Justiça - depois de apurada e publicada livremente a notícia - dos termos de qualquer reportagem ou artigo. Se alguém se sente caluniado ou difamado, só tem o caminho livre e aberto do processo judicial para exigir uma reparação. No dia em que o recurso à Justiça for considerado um atentado à liberdade de imprensa, a sociedade será tão injusta que nem a imprensa será livre.
Chupa-credibilidade
O Troféu Goebbels de Ouro fica agora com a mídia da região de Campinas (SP), sobretudo o jornal Diário do Povo, que tem infundido pânico na população a propósito de boatos sobre um incerto "chupa-cabra". As notícias, como manda o figurino do jornalismo marrom, são sempre ambíguas: misturam dúvidas com disseminação do boato. O truque é tão velho quanto o jornalismo: volta e meia, um meio de comunicação faz estardalhaço com uma fantasia popular (ETs, bebê-diabo, lobisomem) e fatura alto com a mentirada.
Reparação de dano
Duas vítimas da polícia e da imprensa no Caso Escola Base entraram com ação de reparação de danos contra a Rede Globo (Folha, 28/6). Saulo Nunes e sua mulher Mara querem receber R$ 3,6 milhões de indenização por terem sido linchados moralmente sob a acusação de molestar alunos da escolinha infantil, em 1994. Os advogados haviam prometido processsar também jornais, entre eles a Folha (leia no nº 12, A última aula da Escola Base). Outras vítimas - Icushiro Shimada e Maria Aparecida - já ganharam ação contra o governo do Estado.
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