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Globo volta a biografar os mortos importantes na cidade Questão de Método
Obituários

Globo volta a biografar os mortos importantes na cidade

Uma das seções mais antigas dos jornais é a de Obituário — uma página onde se registram as mortes importantes no mundo e na cidade. Os grandes diários brasileiros praticamente acabaram com a seção — substituindo-a por uma burocrática relação de falecimentos. É assim que fazem, num exemplo comum, o Estadão, na coluna "Falecimentos", patrocinada por um cemitério, e a Folha, na seção "Mortos", que se limitam a dar o nome, a idade e a família do morto.
O Globo refez-se dessa falha ao criar a seção Obituário e noticiar também a morte de pessoas que não foram figuras do showbiz nem se destacaram na política ou nos negócios, mas que foram importantes nos limites da cidade ou de um bairro — como, por exemplo, "Pepê, festeiro do Leme". A notícia da morte dele, que se chamava Pedro Paulo Ribeiro da Cunha e era um boêmio carnavalesco, teve o mesmo espaço dado, na edição de 16/7, à de Soledad Seánez, viúva do líder revolucionário mexicano Pancho Villa. Pelos critérios de só se destacar o que se pode espetacularizar, hoje também vigentes nas seções de óbito, Pepê sairia numa econômica lista de mortos.
Uma professora de muitas gerações, uma costureira de vestidos de debutantes, um guarda de trânsito famoso numa esquina são personagens importantes para a cidade onde um jornal é editado. Ao noticiar a morte deles, o Globo resgata a antiga tradição dos jornais de comunicar aos leitores que a comunidade perdeu um membro que, se não era um astro nacional, tinha uma história local.
Isso se se faz amiúde com os mortos ilustres — elesganham um registro mais detalhado, seja um texto escrito às pressas, sob a comoção de um acidente, seja um artigo de gaveta preparado a partir do momento em que um figurão entrou no hospital. Os não-jornalistas podem ficar chocados, mas se uma pessoa famosa corre risco de vida, um jornal organizado imediatamente destaca um redator para escrever a biografia do doente e deixá-la pronta para ser publicada no dia seguinte à morte. Tal previdência um tanto macabra ocorreu, por exemplo, em setembro passado, com o general Ernesto Geisel, cuja morte estava anunciada por reiteradas internações numa clínica. Isso explica por que, no dia seguinte, os jornais saíram com três ou quatro páginas bem articuladas sobre a vida e a gestão de Geisel na Presidência da República.Na antecipação de necrológios, os mortos às vezes pregam peças nos muito vivos. Em 16/6, a Folha publicou um artigo do escritor Ruy Castro sobre a recém-falecida cantora Ella Fitzgerald, no qual se afirmava que somente outra dama do jazz, Carmen McRae, sobrevivia como ‘‘a única que poderia herdar o cetro e o manto’’ das desaparecidas Ella, Billie Holiday e Sarah Vaughan. Sucessão impossível, pois, contrariando a escala mortuária do jornal, Carmen morrera antes de Ella. A explicação: o necrológio de Ella Fitzgerald jazia na gaveta havia quase três anos, escrito por Ruy Castro sob encomenda do Banco de Dados da Folha. Quando o texto ganhou vida com a morte da cantora, o jornal o publicou sem checagem. O escritor reclamou e a Folha registrou o deslize na seção "Erramos".
A prática de preparar antecipadamente o que em algumas redações se chama de "funéreo" é levada muito a sério nos jornais americanos. O New York Times teve um redator famoso nos anos 70, Alden Whitman, cuja história foi contada pelo jornalista e escritor Gay Talese no livro Aos olhos da multidão, publicado no Brasil, em 1973, pela editora Expressão e Cultura. Segundo Talese, Whitman erguia as sobrancelhas ao saber "que um estadista se encontra doente". O "Sr. Agourento", como o chamou Talese, era um redator elegante e erudito, talhado para o cargo: frio diante da morte, era um ardente defensor da exatidão dos textos fúnebres. Para não ser apanhado de surpresa pela morte dos outros, ele mantinha um banco de mortos vivos. Escreveu com anos de antecedência os necrológios de Mao Tsetung e de Picasso, mas apenas duas semanas antes da morte o de Winston Churchill — e prazo tão curto era para ele um trabalho sob pressão. Preferia redigir com calma e rigor, recorrendo aos "biografados" para conferir detalhes.
Como um repórter que vai fazer um perfil para a edição do dia seguinte, Whitman pedia entrevistas para "atualizar a biografia" — e algumas pessoas aceitavam almoçar com ele sabendo que estavam ajudando a redigir a notícia da própria morte, mas faziam isso com a certeza de que nada do que dissessem seria publicado enquanto vivessem. Tinham a esperança de que pelo menos na notícia do óbito o jornal não cometeria erros. Afinal, diz a lenda que o Times passou a dar maior atenção à exatidão dos obituários depois que um de seus editores recuperou-se de um ataque cardíaco e, ao ler na redação o necrológio que prepararam para ele, teve outro ataque.

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