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Mordomias são admitidas pelos manuais de redação

Promessas em código

Mordomias são admitidas pelos manuais de redação
A viagem de aproximadamente trinta jornalistas à Itália, a convite da Fiat-Alfa Romeo, elevou o som da discussão sobre mordomias que jornalistas e empresas de comunicação costumam aceitar. Os manuais de redação à venda no mercado são severos - excetuado o do Estadão, que se limita a normas de redação e estilo e portanto não trata do assunto. Se tratasse, o jornal não teria sido apanhado de calças curtas ao saber que a revista Veja divulgaria a mordomia dos jornalistas na Itália - dos quais um batalhão de oito pertencia ao Estadão e seu caçula Jornal da Tarde. O colunista social do jornal, César Giobbi, acendeu o holofote ao publicar, nos dias 16, 17 e 18, notas em sua coluna Persona. “Um grupo de jornalistas classe A está em Milão, a convite de Alfa Romeo, numa viagem de luxo nababesco”, escreveu Giobbi.
Quando soube da apuração de Veja, o Estadão noticiou a viagem, em 20 de maio, e apresentou como “norma básica não publicar reportagens de jornalistas em viagens a convite de empresas ou quaisquer instituições”. As notas, na coluna de Giobbi, nos dias 16, 17 e 18 foram atribuídas, pelo meio de comunicação, a “uma falha de comunicação interna”.
Ao publicar parte da lista dos jornalistas classe A embarcados pela Fiat, Veja informou que o editor-executivo da Folha, Matinas Suzuki, escrevera matéria favorável à empresa. O Manual de Redação da Folha, o primeiro e mais minucioso da imprensa brasileira, trata do assunto no verbete Convite. Deixa claro que jornalistas “podem viajar a convite de instituições, governos ou personalidades”, mas a Folha não se compromete a publicar matérias em retribuição. Quando publica, indica, no pé do texto, que o autor viajou por conta do promotor da viagem. O Manual de Zero Hora promete a mesma regra, e o do Globo, limitado, tal como o do Estadão, a normas de redação e estilo, foi acrescido de um código de Objetivos, Princípios e Valores onde é fixada política idêntica à da Folha. De um modo geral, os manuais proíbem jornalistas de receber presentes ostensivamente indicadores de suborno.
Seguramente não há empresa de comunicação (e jornalista influente) que não tenha embarcado em viagens como a da Fiat. Na verdade, as empresas usaram durante muito tempo convites desse tipo para “premiar” jornalistas. Os cadernos de turismo sempre foram uma espécie de grátistur: companhias aéreas, agências de viagem e de lazer bancavam passagem e hospedagem para repórteres, e na volta eles seduziam o leitor a pagar a viagem de sonhos que fizeram de graça. Um chefe de redação ou colunista na classe econômica poderia ser transferido para a primeira classe sem pagar a diferença. No fim do ano, as redações ficavam coalhadas de prendas que não podiam ser chamadas de inócuas - de caixas de vinho a calculadoras eletrônicas.
A imprensa preocupou-se com o assunto a partir da CPI Collor-PC, quando passou a inocular suspeição nos homens públicos que aceitam presentes - incluindo calendários e viagens nababescas - de empresas ou instituições, sobretudo empreiteiras. A fase aguda de zelo ocorreu durante a CPI do Orçamento, quando parlamentares que haviam recebido presentes de empresas como a Odebrecht foram crucificados (Roseana Sarney). Para a mídia, o dinheiro das empreiteiras somente é honesto na forma de publicidade e patrocínio de cadernos especiais e...brindes ofertados aos leitores.
Se auto-aplicasse o rigor cobrado dos homens públicos, a mídia teria de reescrever seus manuais. Os capítulos modernos são os que vedam a aceitação de presentes e facilidades que podem influir nas reportagens. Os verbetes discutíveis são os que revelam ao leitor que o jornalista autor da matéria sobre a excelente performance e os novos produtos da empresa F viajou a convite da empresa F. Para que serve a advertência? Antes de significar transparência, serve à desconfiança do leitor. Ele deve dar um desconto ao que ler? O leitor pode suspeitar que o jornalista dourou a pílula para não trair o patrocinador da viagem?

     Boletim Nº 3, Maio-Junho de 1995
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