A verdade é um valor ético universal
Seminário Ética na Imprensa - Realidades e Desafios no Brasil
São Paulo-Itu 17 a 19 de maio de 1996
Centro Internacional de Jornalistas
Instituto de Estudos Avançados da USP
Instituto Gutenberg


A verdade é um valor ético universal

Jornalista americano faz pesquisas que orientam códigos de conduta

O jornalista Rushworth Kidder era editor do Christian Science Monitor em 1986 quando pediu a 22 líderes mundiais — do presidente Jimmy Carter ao Dali Lama — que fizessem uma agenda dos temas mais relevantes para o século 21. Ele se surpreendeu ao notar que além das questões previsíveis — desarmamento nuclear, destruição do meio ambiente, superpopulação — apareceu um item incomum: ética. Kidder escreveu muito sobre isso e outros temas correlatos até deixar a redação para fundar o Instituto de Ética Global, que faz pesquisas e análises sobre o tema em todo o mundo. Para jornalistas, ele discorre sobre valores éticos a partir dos quais podem ser criados códigos de conduta ou tiradas orientações gerais para o trabalho de apurar e divulgar informações. Kidder (na foto) foi o principal conferencista do Seminário Ética na Imprensa — Realidades e Desafios no Brasil. Sua tese é que existem valores éticos universais, independentemente das raças, sexos, classes sociais ou qualquer fator de diferença entre os homens, como amor, verdade e justiça. Segundo Kidder, esses valores devem inspirar os códigos de conduta dos jornalistas. Alguns pontos resumidos da conferência:

N ós, jornalistas, quando tratamos de ética, não tratamos de uma idéia estranha, que apenas algumas pessoas possam achar importante. Estamos tratando de algo essencial à nossa existência. Uma pesquisa feita pela professora de ética Denny Elliot, do colégio Dartmouth, consultou o índice do New York Times de 1969 a 89 e demonstrou que nesse período de vinte anos houve um aumento de 400% no número de artigos e reportagens sobre ética. Eu asseguro a vocês, como leitor de longa data do New York Times, que isso não é um capricho de editores que querem mudar o mundo, mas iniciativa de editores que sabem vender jornal escrevendo reportagens que o povo realmente quer ler.


Como definimos esse termo que revisamos com tanta liberdade até agora? Uma definição da qual eu particularmente gosto foi escrita por um legislador inglês no começo deste século: ética é a obediência ao que não é obrigatório. Ele usou esse conceito para estabelecer a diferença entre ética e lei, que é a obediência ao que é obrigatório. Parece-me que uma forma de explicar porque estamos na situação em que estamos, particularmente nos países ocidentais, por que há tantas leis, tantas disputas, tantos advogados, é porque estamos ficando menos éticos e a lei preenche o vácuo deixado pela ética.


Entrevistamos 24 pessoas em 16 países, todas elas reconhecidas como líderes éticos. Algumas eram conhecidas, como o presidente Oscar Arias, da Costa Rica, outras desconhecidas, como uma mulher de 98 anos da tribo dos Maoris, que vivia numa montanha da Nova Zelândia. A questão era: "Se você pudesse formular um código global de ética para o século 21, quais seriam os valores essenciais que nos fariam viver conjuntamente como mundo?" Cada um falou do ponto de vista dos seus valores e da sua cultura, mas me ocorreu que se referiam, com palavras diferentes, a oito valores essenciais: amor (ou compaixão), verdade, honestidade (ou integridade), justiça, solidariedade, tolerância, respeito à vida e liberdade (menos nos EUA, onde nossas pesquisas mostram que se fala mais em responsabilidade).


Desde então, fizemos no Instituto de Ética Global muitos seminários com grupos de 20 a 25 participantes, homens de negócios, jornalistas, educadores ou funcionários do governo. Dizíamos a eles que nos imaginássemos como criadores de uma nova escola e que deveríamos escolher de 80 a 100 valores morais para escrevermos na porta da escola. Depois, pedíamos que se reunissem em pequenos grupos e reduzissem as 100 palavras a cinco. Já fizemos esse exercício com mais de 4.500 pessoas, e se pedir a vocês, sei o que vão escrever: amor, verdade, justiça, respeito à vida (ou tolerância) e liberdade. Lembrem-se de que falei que só nos EUA que liberdade não aparece, porque para nós é música de fundo.


Às vezes esses valores entram em choque. É um conflito entre o certo e o certo. Suponha que você seja um correspondente de guerra, acompanhando o exército de seu país, mas tentando ser um repórter honesto. Você descobre planos para uso de um desfolhante químico, como o agente laranja usado no Vietnã. O exército não quer que você divulgue isso, mas seus leitores são preocupados com o meio ambiente. Você escreveria essa reportagem? Você diria "esta é a verdade, portanto devo escrevê-la", ou diria "bem, eu também faço parte desse país, precisamos ganhar a guerra, é importante dar apoio aos militares, mesmo que eu não goste do que estão fazendo aqui". Eis um conflito entre a verdade e a lealdade.


Muita gente se guia pelo princípio utilitarista da ética: tomar a decisão que beneficia o maior número de pessoas. Mas esse processo tem seus problemas. Deixem-me colocar um caso: você acabou de inventar uma droga miraculosa que curaria milhões de bebês, mas antes precisa testá-la em cem bebês e sabe que cinqüenta deles poderão morrer. Você faria isso ? O que diria o utilitarista: "O que? Só cinqüenta bebês parta salvar milhões? É claro que devo fazer". Qual de nós ficaria tranqüilo ao tomar essa decisão? O utilitarismo nos ajudará em muitas circunstâncias, mas não será a única resposta, e é por isso em parte que as pessoas começam a se voltar para um segundo princípio, o do "imperativo categórico" do filósofo alemão Emmanuel Kant.


Essencialmente, Kant fala da idéia de universalidade do enfoque moral. Eis o que ele diz: "Eu nunca deveria agir se não de tal sorte que a minha máxima, o princípio pelo qual estou agindo, se torne uma máxima universal". O que quer que você esteja por fazer, se não quiser que ninguém mais faça igual no mundo, nas mesmas circunstâncias, não é moral. Você está no estacionamento, vê um carro saindo, mas já há outro esperando pela vaga antes de você; você pensa: "Bem, preciso estacionar para fazer a reportagem, há milhões de pessoas esperando para lê-la, se eu tomar a vaga estou moralmente certo". Isso é o que o utilitarismo diria. O que diria o imperativo categórico de Kant? Diria: "Muito bem, você está dando o exemplo. O que você fizer a partir de agora será definido como ato moral, e todo mundo fará exatamente o que você fizer. É este o mundo em que você quer viver?"


Vou dar um exemplo que traduz o que estamos dizendo. Em um dos nossos seminários uma mulher me procurou para dizer: "Você arruinou a minha vida. Eu sou uma consumidora com uma característica muito particular: quebro a pontinha das cenouras para me assegurar de que estão boas. De repente, compreendi que eu quiser que todo mundo faça isso, não haverá mais cenouras e possivelmente supermercados". A compreensão da universalidade, em outras palavras, nos levará de volta à nossa vida pessoal.

Índice de maio-junho

Leia mais

  • Ética na imprensa
  • A verdade é um valor ético universal
  • A obediência ao que nao é obrigatório
  • Casos: dilemas éticos no dia-a-dia dos jornalistas
  • Questionário: algumas respostas para questões éticas
  • Lista de participantes