Na sentença em que condenou o Globo a pagar 50 salários míni mos à Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista-Unesp (Vunesp), por reportagem considerada difamatória (leia no n.º 18), o juiz Ricardo Cintra Torres de Carvalho, da 21ª Vara Cível de São Paulo, fez uma curiosa recomendação ao jornal carioca. “Melhor teriam feito os jornalistas[do Globo] recorrendo ao “Manual de Redação e Estilo” do jornal “O Estado de S. Paulo”: “34 - a correção do noticiário responde, ao longo tempo, pela credibilidade do jornal. Dessa forma, não dê notícias apressadas ou não confirmadas nem inclua no texto informações sobre as quais você tenha dúvidas... 36 - Nas versões conflitantes, divergentes ou não confirmadas, mencione quais as fontes responsáveis pelas informações ... toda a cautela é pouca; o máximo cuidado nesse sentido evitará que o jornal tenha de fazer desmentidos desagradáveis.”
E mais
€ O juiz Hugo Leandro Maranzano rejeitou a queixa-crime que o ex-presidente Fernando Collor apresentou contra jornalistas da revista República. O juiz entendeu que os editores Wagner Carelli e Reinaldo Azevedo, ao destacarem o fato de Collor estar solto num país de tantos presos, estavam exercendo o direito de crítica, numa reportagem “relativa à impunidade e à corrupção”.
€ O dono do jornal A Verdade, de Magé (RJ), Mário de Almeida Coelho, foi condenado a três meses de prisão pelo juiz Geraldo José Machado, por ter publicado um artigo que o prefeito Nelson Melo considerou injurioso. O artigo classificou como irregulares algumas contratações de funcionários públicos. Coelho, de 68 anos, foi preso, mas em seguida internado num hospital porque estava com problemas cardíacos.
€ O Diário da Manhã, de Goiânia, foi condenado a pagar uma indenização de cem salários mínimos (R$ 12 mil) ao compositor Chico Buarque de Hollanda e sua ex-mulher Marieta Severo por conta de uma nota racista publicada pelo colunista Ton Alves (Folha, 6/11). Em 12 de janeiro, o jornalista fez referências discriminatórias à cor do recém-nascido neto do compositor, filho do cantor Carlinhos Brow com Helena Buarque de Hollanda. O jornalista Alves, que é negro e milita em movimentos pelos direitos humanos, referiu-se ao bebê como “crioulinho, mulatinho de nariz chato e grosso”.
€ É aceitável numa democracia fechamento de agremiações como as torcidas organizadas Mancha Verde e Gaviões da Fiel? A mídia registrou o ato totalitário como se noticiasse um acidente de esquina. Nenhuma linha sobre o direito à livre organização. Em contrapartida, a cobertura para a prisão da banda Planet Hemp, acusada de fazer apologia das drogas, foi uma copiosa e eloqüente defesa da liberdade de expressão.
Boletim nº 19 Novembro-Dezembro de 1998
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