Caluniar, segundo o Código Penal, é atribuir falsamente a alguém fato definido como crime. Em 20 de agosto de 1995, no Fantástico, e no dia seguinte, no Jornal Nacional, o motorista da Universidade de São Paulo Antonio de Morais Filho, o Tonhão, foi carimbado para cerca de 40 milhões de telespectadores como um receptador de objetos roubados no centro da capital paulista. A Rede Globo passou uma fita de vídeo que mostrava assaltos no centro e um dos supostos assaltantes entregando um objeto ao motorista de um veículo com o logotipo da USP. Era impossível identificar o motorista. Mas nas cenas seguintes, Tonhão aparecia manobrando o mesmo carro na Cidade Universitária, como se estivesse voltando da cena do crime.
Em 27/7 passado, Tonhão venceu um processo contra a Globo no qual ficou patente a inconsistência da “reportagem”. A fita foi gravada por um cinegrafista amador em setembro de 1994 — e não em agosto de 95. O cinegrafista garantiu no processo que a Globo sabia disso. O motorista que estava no veículo foi identificado numa sindicância da USP. Tonhão entrou na história porque a Prefeitura da Cidade Universitária, procurada pela Rede Globo em agosto de 1995, comprovou pela fichas de saída que ele dirigiu o carro no dia da gravação — só que naquele ano, e não em 1994. O funcionário Rui Campos Pereira acumpliciou-se com a TV para fazer Tonhão trazer o carro da garagem para o pátio e ser filmado pelos jornalistas.
Ao longo do processo, a Globo fez propostas de pagar 80 e depois 100 salários mínimos pela calúnia. “Tonhão recusou e declarou que sem retratação pública da Globo não tinha acordo”, informou o boletim do Sindicato dos Trabalhadores da USP (04/07). Finalmente, em 6/8, o Fantástico informou que Tonhão era inocente. O Jornal Nacional não se retratou. Para o público, ficou a conclusão de que alguém errou, mas não a Globo. Mas só ela errou ao divulgar a fita com data trocada e enredar um inocente numa trama que pode levar qualquer nome feio — menos jornalismo.
Boletim Nº 16, Julho-Agosto de 1997
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