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Dicionário

E de envolvido e de enganoso


Todo jornalista que se preza deveria evitar a expressão "envolvido". Freqüentemente, lê-se nos jornais e nas revistas e ouve-se no rádio e na TV que alguém está "envolvido" num episódio ilícito. Tal informação é que é ilícita, de vez que envolvido não quer dizer protagonista ou coadjuvante de um delito, não significa necessariamente fora-da-lei, ao contrário da conotação que a palavra exala.
O Dicionário Etimológico Nova Fronteira, de Antônio Geraldo da Cunha, diz que a palavra foi registrada pela primeira em 1813, no Diccionario da língua portugueza, de Morais Silva. O Aurélio dá treze acepções para o verbete envolver, mas é a décima ("Tomar parte; intrometer-se") que parece ser a preferida da mídia.
É uma forma preguiçosa, às vezes caluniosa, de manchar uma biografia sem procurar a informação exata. A acurácia manda que, em vez do genérico e maroto "envolvido", cite-se a acusação precisa: matou, roubou, esfolou, desfalcou, grampeou – citando a data, local e sobretudo o desfecho do "envolvimento". "Envolvidos", muitas vezes, são inocentados, mas, vítimas dessa técnica de acusar sem se comprometer, permanecem "envolvidos".
A palavra até inspirou um causo — uma dessas estórias que mesclam realidade e ficção, e mudam de lugar, de época e de protagonista, mantendo o enredo. Conta-se que o causo foi contado originalmente, no princípio do século, pelo poeta e jornalista Olavo Bilac (1865-1918). Um honrado cidadão do Rio de Janeiro, ao cruzar o Largo do Machado, viu um ladrão roubando o relógio de uma mulher. Deteve o meliante e levou-o para a delegacia. Tempos depois, um jornal publicou que o homem estava "envolvido" num roubo de relógio no Largo do Machado.

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Boletim Nº 25 Série eletrônica
Março-Abril, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 1 - Março de 1999