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Colunistas

A duas mãos

Original de colunista não vai direto pra gráfica

Colunistas são independentes, responsáveis pelo que sai em suas colunas, ou dividem a responsabilidade com a empresa de comunicação, que tem o poder de vetar ou alterar textos? Tão velha quanto o jornalismo, a questão é relevante para os tribunais e para a avaliação da imprensa. A 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio entende que é da "empresa proprietária, e que explora o veículo de comunicação, o dever inarredável de bem avaliar o que publica...". Muitas, efetivamente, não abrem mão desta prerrogativa – embora possa se pensar que os originais dos colunistas sejam entregues diretamente na gráfica.
O tribunal impôs a interpretação da co-responsabilidade das empresas ao condenar a Folha de S.Paulo a pagar 300 salários mínimos por danos morais ao delegado de Polícia Nilo Baptista. Homônimo do ex-governador fluminense, o delegado ofendeu-se ao ser citado pelo colunista Janio de Freitas como figurante da famosa e tortuosa lista de personalidades que recebiam propinas do bicheiro Castor de Andrade. A sentença dá o que pensar porque, à primeira vista, um jornalista é o primeiro e único responsável pelo que assina. Mas a prática das redações indica que o vôo dos colunistas circunscreve-se às idiossincrasias da casa e, por isso mesmo, há os que não querem ser muito livres. Em 1977, ao ser convidado pelo jornalista Claudio Abramo para escrever o que bem entendesse – inclusive malhar o que restava da ditadura militar –, na seção Tendências e Debates da Folha, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso foi cauteloso: "Eu não quero tanta liberdade..."
É fato que os meios de comunicação avaliam as colunas e podem mandá-las para o público ou para o lixo. O Estadão engavetou uma crônica de seu colunista João Ubaldo Ribeiro, na qual o acadêmico tratava o presidente Fernando Henrique Cardoso como o pé pisa o sapato. Uma semana depois, o artigo foi publicado.
Na Folha, colunistas e autores de artigos já se queixaram de acréscimos feitos sem nenhuma consulta. O professor Francisco Achcar reclamou que num texto de sua autoria, publicado no caderno Fovest, a mão leve do copidesqui contrabandeou um parágrafo e mais um caco no qual tremeluziam um erro de gramática e um suplício de estilo: "Era um tempo em que faziam-se freqüentemente comícios..." Até mesmo o ex-editor-executivo do jornal, Matinas Suzuki, hoje colunista de esporte, queixou-se de uma bexigada introduzida à sorrelfa em sua coluna, apropriadamente chamada de Tabelinha: "Alguém na Redação da Folha resolveu reescrever o meu texto..."
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Boletim Nº 25 Série eletrônica
Março-Abril, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 1 - Março de 1999

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