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Pesquisas

Eunuco estatístico

Avaliação de "regular" só funciona para o Congresso

Os principais institutos de pesquisa, acuados pelos protestos contra a manipulação dos números nas últimas eleições, anunciam um manual de auto-regulamentação. Nada mais oportuno. A polêmica com as pesquisas – sejam eleitorais, sejam de avaliação de governos, personalidades ou produtos – indica que o problema não está só nos institutos que as fazem, mas nos jornais, revistas e TVs que as divulgam. Dados básicos costumam ser omitidos – até mesmo a data do trabalho de campo e a pergunta feita aos entrevistados. A manipulação torna-se acinte quando o avaliado é o presidente Fernando Henrique Cardoso, e ofende a equidade quando o alvo é o Congresso Nacional – a Geni da mídia.
Em todas as pesquisas feitas pelo Datafolha e divulgadas pela Folha, a maioria dos entrevistados considerou Fernando Henrique um presidente "regular." Nem ótimo, nem bom, nem ruim, nem péssimo. Insipidamente regular. Nunca, no entanto, o jornal deu destaque fiel ao fato apurado. A Folha sempre sublinhou, nos títulos e nas aberturas das reportagens, a "popularidade" do presidente, mesmo quando a novidade era a impopularidade. Para o jornal, importam os entrevistados que consideram FHC "bom/ótimo" ou "ruim/péssimo" . Não importa se a maior parte responde que o presidente é "regular" ("nem bom, nem mau; razoável, suficiente", segundo o Aurélio). Ao divulgar as avaliações do presidente, o consórcio Datafolha/Folha soma as respostas "ótimo" e "bom", significando aprovação ("popularidade)". "Ruim" e "péssimo" são reunidos como reprovação. Não há meio de o jornal pôr na manchete que o presidente foi reprovado ou tachado de regular. O "regular" figura nas pesquisas como um eunuco estatístico: rouba a cena, mas vai para o limbo.
Vejamos a avaliação nacional do presidente, feita pelo Datafolha em 10 e 11 de dezembro, com 11.851 pessoas em 299 municípios, conforme divulgado pela Folha em 27/12/98:
Regular: 37%
Ótimo/bom: 35%
Ruim/péssimo: 25
Não sabem: 3%
Qual foi a manchete do jornal? "Popularidade de FHC cai após a eleição".
O foco – como sempre – foi posto nos índices de aprovação (ótimo+bom), que somaram 35%, sete pontos percentuais a menos que os 42% registrados na pesquisa anterior.
Uma semana depois, a Folha publicou a avaliação do Congresso Nacional:
Regular: 43%
Ruim/Péssimo: 31%
Ótimo/bom: 18%
Não sabem: 8%
Qual a manchete do jornal? "Eleitores acham que Congresso é ´regular`".
O leitor torce os neurônios para entender por que a resposta "regular", a preferida os entrevistados, é menosprezada para o presidente da República e valorizada para o Congresso Nacional. Se "regular" for nota negativa, Fernando Henrique Cardoso tem sido reprovado desde que o Datafolha iniciou as pesquisas sobre o presidente, em janeiro de 1995. O volume e a importância do quesito são, no entanto, sistematicamente desprezados.
O manual que os institutos prometem instituir para orientar a divulgação das pesquisas pode contribuir para a erradicação dessas distorções jornalísticas. A falta de zelo com a informação servida ao público é tão grande que alguns jornais – todas essas observações valem para os consórcios Jornal do Brasil/Gerp e o Ibope/Globo – já não publicam as respostas específicas. O leitor ignora, por exemplo, qual porcentagem dos entrevistados considera o presidente da República "ótimo" ou "bom", "ruim" ou "péssimo. Outra distorção grave está na omissão da pergunta feita aos entrevistados – fonte da informação a ser gerada pela pesquisa. O leitor não sabe se a avaliação é do presidente ou do governo, e há pesquisas do Vox Populi e da Brasmarket mostrando que o público distingue e dá notas diferentes para FHC e a administração. Por essas e outras, a pesquisa de avaliação merece ser avaliada como... "regular".

©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 25 Série eletrônica
Março-Abril, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 1 - Março de 1999

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