As mordomias da Gratistur Instituto Gutenberg

Turismo

As mordomias da Gratistur

Cadernos de viagem continuam a ser financiados pelas fontes

Há cinco anos o boletim do Instituto Gutenberg fez um levantamento do que chama de Gratistur nos cadernos de turismo da elite da imprensa. O resultado foi constrangedor: a maioria das reportagens era custeada pelas fontes, hotéis, companhias de aviação, governos ou agências de turismo. O farisaísmo e a vigilância da imprensa (sobre os outros) aumentaram nesse período, mas o leitor continua sendo despachado, a bordo de relatos sedutores, para os lugares onde os jornalistas se aboletaram, passearam, comeram e beberam de graça. Não há outra palavra para tanta desfaçatez: suborno.

O maior jornal do país, a Folha, enche seu suplemento Turismo com essas reportagens pagas pelos interessados. A linha aérea alemã Lufthansa leva repórter (Alcino Leite Neto) e fotógrafo (Lalo de Almeida) para contarem como é maravilhosa a Expo 2000 de Hanôver. No Jornal do Brasil, Martha Neiva Moreira vai a Londres sem passar pelo caixa da British Airways. No Estadão, Mitsi Goulias exalta as maravilhas de Oslo com mordomias pagas pela companhia de cruzeiros Norwegian Cruise Line e pela agência de turismo Sailaway. Até para deslocar-se a Arraial do Cabo, no litoral fluminense, o grande jornal paulista aceita ter sua repórter Gláucia Leal financiada pela TurisRio e pela agência Trilhas do Mar.

Diga-se o que se disser, inclusive que a viagem foi paga pela fonte, como é moda se informar no rodapé, mas a prática é inaceitável numa imprensa que se pretende independente. Nesse aspecto, o modelo americano é ignorado. Desde os anos 70, quando o escambo viagem por notícia foi questionado, jornais cobrem as despesas de seus jornalistas segundo o sistema se-eu-gasto-eu-pago. Não há hipótese de um jornal da elite da mídia de notícias dos Estados Unidos mandar um profissional fazer uma reportagem com as despesas cobertas pelo hotel que vai recomendar aos leitores. Pagar a viagem é ponto de honra no New York Times, no Washington Post, no Los Angeles Times, no Philadelphia Inquirer, no Boston Globe.

No Brasil, duvide desse modelo mesmo se um jornal rico e influente, como o Estadão, anunciar que essa é também sua política editorial. Em 1995, quando a revista Veja preparava uma reportagem sobre a excursão nababesca de um grupo de jornalistas levados pela Fiat-Alfa Romeo à Itália, o jornal afirmou que tinha como “norma básica não publicar reportagens de jornalistas em viagens a convite de empresas ou quaisquer instituições”. Era jogo de cena. Se a fonte paga, o Estadão embarca para mais uma reportagem independente.

As viagens financiadas pelas fontes geram vários problemas, entre eles:

1Quem paga, e suborna o jornal, ganha divulgação gratuita no caderno de turismo;
2) Reportagens que o jornal jamais faria às suas expensas, por serem caras, resplendem nas páginas só porque foram ofertadas pelas fontes;
3) Viagens curtas e baratas, que o jornal poderia pagar sem comprometer seu borderô, passam a ser feitas com patrocínio. (Em 2/5, o Estadão publicou um relato de Moacir Assunção sobre “Ribeirão Pires, o oásis da Grande São Paulo”. A cidade-dormitório fica a quarenta minutos de carro da sede do jornal, mas, para tamanho esforço de reportagem, foi aceito o patrocínio da agência Jovem Tur e da Prefeitura da miserável Ribeirão Pires).
4) Jornalistas convidados recebam tratamento especial nos vôos, hotéis e passeios, e divulgam essa especialidade em seus textos; 5) A advertência de que o “repórter viajou a convite...” não isenta o jornal de manter-se independente perante as fontes. É a estampilha de honestidade que sela a maracutaia.

Os grandes jornais brasileiros faturam em média meio bilhão de reais por ano, e portanto podem pagar as viagens de seus repórteres. Se não pagam é porque estão acostumados a um jornalismo arcaico. A viagem paga passava despercebida quando o Brasil não fazia o debate ético que tomou força a partir da campanha contra o presidente Fernando Collor. Até ali, nem se questionava esse modelo antiético, daí ser raro o jornalista antigo que não tenha viajado a convite e na volta elogiado os serviços do anfitrião. Era comum as chefias distribuírem os convites como prêmios a profissionais que trabalhavam muito e mereciam férias informais.

O país mudou, em parte graças à vigilância da imprensa, mas o modelo da mídia é o da casa do ferreiro. Se um político pega carona num avião de empreiteira, é acusado de tráfico de influência. Mas jornais e jornalistas acham que podem fazer escambo com as fontes, brandindo o argumento invertebrado de que uma viagenzinha nas asas da Gratistur não lhes tira a objetividade. Continua a valer uma opinião dada em 1987, e reproduzida em nosso artigo de 1995, por David Shaw, crítico de mídia do jornal Los Angeles Times: “Eu não sei como é que alguém pode pensar que você vai escrever uma história honesta sobre Bora-Bora quando tem uma pessoa pagando cinco mil dólares para levar você até lá.”


©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 34 Série eletrônica
Setembro-Outubro de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 17 - agosto de 2000

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