Imitar é melhor Instituto Gutenberg

Correções

Imitar é melhor

Seção da Folha deveria ser imitada em vez de achincalhada

A seção Erramos, da Folha de S.Paulo, voltou a ser motivo de piada – desta vez na Internet, com intensa circulação de um punhado de correções hilariantes feitas pelo jornal. Algumas são engraçadas, de fato, e a reprodução vale como lance de bom-humor. Não há graça, no entanto, na manipulação gaiata das correções. Em vez de imitadas e respeitadas como um sério exercício de autocrítica indispensável ao jornalismo, elas são reproduzidas como um indicador de que a Folha comete erros demais.

Oxalá os grandes jornais brasileiros seguissem o exemplo do maior deles. A Folha se expõe porque se corrige. Tem uma política editorial para tanto – a começar da leitura minuciosa do jornal do dia, feita por uma equipe de caça-erros do jornal. Um levantamento preparado pelo Instituto Gutenberg, no período de 1º. de janeiro 30 de junho de 1997, mostrou que, enquanto a Folha publicava 730 correções, o Globo saía com 143, o Jornal do Brasil com 104 e o Estadão com 31. A Folha foi responsável por 73% das correções publicadas nos quatro grandes jornais naquele período. Publicou, em média, quatro notas de correção diárias, enquanto o concorrente mais autocrítico, o Globo, não chegava a uma, e o Estadão empacava na arrogante taxa de 0,15% por edição.

O elevado número de correções não indica que a Folha erre mais que os outros, e sim que se corrige mais. A quota é alta porque, como em epidemiologia, existe o diagnóstico. O jornal também dá maior visibilidade às correções ao concentrá-las na página 3, abaixo do Painel do Leitor, enquanto o Estadão usa o truque de diluí-las ao longo da edição. Associar as correções às cartas facilita o recurso de admitir os erros apontados pelos leitores e fontes, remetendo-os para a seção Erramos logo abaixo.

Outro mérito da Folha é enfrentar os erros humilhantes, que abastecem as piadas, como o de que foi Noé e não Jó quem construiu a Arca de Noé... Em contrapartida, barbaridades vendidas ao público noutros jornais permanecem incólumes nos arquivos.


©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 34 Série eletrônica
Setembro-Outubro de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 17 - agosto de 2000