Instituto Gutenberg

Idioma I

Bacharéis do solecismo

Página dos lingüistas só não escreve ambulância com h

Os cursos de Lingüística preparam especialistas em língua portuguesa. Já existem muitos graduados, parte deles reunida na Associação Brasileira de Lingüística – Abralin. A associação tem uma página na Internet (http://www.cce.ufsc.br/~abralin/index.html) que chama a atenção pela acintosa transgressão do idioma. Não é do feitio do Instituto Gutenberg apontar “erros de português” dos outros, até porque em erros de português somos auto-suficientes e tememos a volta do bumerangue. Abrimos exceção quando um jornal como o Estadão escreve “assinte” num título e não se corrige, ou quando uma organização de especialistas mata e salga em postas a língua portuguesa.

Os textos da Abralin são excepcionalmente mal escritos. Apedrejam a ortografia e trocam os hífens (contra-tutela, experiência piloto, neorealista, recém empossada, mini-curso) ou forjam neopalavrões (interacionista, tematizará, dinamicidade).

Contêm solecismos brabos e abusam de barbarismos que têm correlatos: banners, stand, workshop, site, home-page, homepage (em inglês é “home page”) e release (nem o consulado americano usa isso; prefere nota, comunicado à imprensa). Os lingüistas derrapam no estilo com construções como “reuniões onde se debateram” (melhor em que, nas quais se debateram...) e “maiores informações” (melhor mais informações). E que tal este texto: “Obs.: Segundo instruções da SBPC, ela não assumirá o financiamento para os participantes. Recomendamos que os proponentes, assim que tiverem a confirmação do aceite, acionem junto às instituições locais (universidades, fundações de amparo à pesquisa) o suporte para sua participação.” (qualquer professor primário corrigiria a redação de escrivão de polícia).

Ou este: “inúmeras visitas...” (certamente, não foram tantas como as estrelas; melhor numerosas). Ou este: “O trabalho junto à imprensa escrita...” (junto a já seria inaceitável; com ou sem crase está errado: junto a quer dizer perto de; imprensa escrita, vá lá, mas não na pena de lingüistas). Ou este: “Apela, igualmente, ao envio de recensões críticas...” (apela-se para alguém; e recensões críticas dói). Para acabar: “A primeira eleição para a Direção acontecerá...” (fatos programados não acontecem; ocorrem, sucedem, realizam-se...)

Essa Abralin tem a pretensão de ditar uma “Política lingüística” para o Brasil e expede “certificado de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros”. Deus nos proteja dos proficientes. A lambança talvez explique o paradoxo atribuído ao grande lingüista suíço Ferdinand Saussure (1867-1913): “Lingüista é aquele que não conhece nenhuma língua estrangeira e sabe mal a própria.”


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Boletim Nº 34 Série eletrônica
Setembro-Outubro de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 17 - agosto de 2000