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Casa de ferreiro...

Jornais só vêem os erros dos outros

Grandes jornais opõem-se à campanha de defesa da língua portuguesa. Em editoriais, tanto o Estadão (“Nonsense chauvinista”, 13/08) como a Folha (“Língua presa”, 11/08) sustentam que é bobagem (“bullshit”, afirma o Estadão) tentar barrar o processo de enriquecimento do idioma representado por termos estrangeiros. Curioso nessa defesa é que a Folha admite a existência de uma saraivada de estrangeirismos na praça – mas age como se não fosse agente da desnacionalização do idioma.

“É assaz reprochável, para dizer o mínimo, a horda de neologismos que tomou de assalto a língua portuguesa. Não se pode mais nem mesmo ir a um shopping center sem encontrar `sales` e `offs´ no lugar de liquidações e descontos. Não se toma mais um cafezinho, mas se faz um ´coffe break`. Pior ainda é quando alguém se vê obrigado a ´ressetar` o seu computador, por conta de um ´bug` no ´software`, e não consegue ´forwardar` um ´e-mail` urgente nem acessar o seu ´personal banking`”, notou o jornal. E mais disse: “Qualquer um que aprecie um bom autor de língua portuguesa tem ganas de deletar essas expressões do idioma.”

Não se pode ir ao comércio sem deparar com estrangeirismos transcritos com a grafia original, certo? E um jornal, se pode ler sem trombar em barbaridades que degradam o idioma? Talvez, mas não a Folha. O McCamões que escreveu o editorial fez ironia sutil com uso de estrangeirismos aportuguesados, como assaz, horda, gana, acessar e deletar.

Tudo o que a Folha atribui ao comércio e à informática resplandece em suas páginas, mas, como é regra da imprensa brasileira apontar nos outros os pecados que em casa são virtude, longe está o jornal de verificar que lá não se lêem os tais bons autores de língua portuguesa. Basta folhear o caderno Informática, publicado às quartas-feiras, para anotar barbaridades em penca – a começar das que o jornal diz ser visíveis nas...lojas. “Bug”, software, e-mail – tudo isso a Folha tem, e ainda anuncia um serviço intitulado “delivery”. A chacota é tanta que, em , 07/08/99, na pág. Especial2, o jornal que lamenta o excesso de termos estrangeiros no comércio imprimiu esta pérola: “Com capacidade de 4.000 pessoas, a praça do Sesc Belenzinho recebe os maiores nomes do hip hop norte-americano e brasileiro na noite `Dazantiga` (old skull, em português)...”

Duas semanas depois do editorial hipócrita, a Folha publicou o caderno Moda, com quinze páginas bilíngües. Uma seleção: “fashion, fashionistas, spray pink, looks, pathworks, stylist, show-rooms, denim leather, shampoos, hypes, bingo, fly-girls, hip hop, outdoor, background, clean, wonderfull time, casualwear, sexy, hardcore, pop stars, maison, flour, tailleur, demi-coutoure.”

Comparados com os nossos, jornais americanos parecem síndicos do português. Uma reportagem sobre alta-costura do Wall Street Journal, publicada no Estadão (28/08), continha um único estrangeirismo com grafia original: “declassé”. No mais, pontificavam estandes, estilistas, criadores, loja, moda, marca, roupa, vestido. Explica-se o zelo: os artigos vêm traduzidos para o Brasil.

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Quando entregou sua primeira reportagem no Estadão, em 1948, Claudio Abramo foi elogiado e repreendido por ninguém menos que Julio de Mesquita Filho. “Sua matéria está bem-feita, mas o senhor tem um defeito, escreve em italiano e em inglês”, disse o diretor. “E era verdade...”, reconheceu Abramo ao dar um depoimento reunido no livro A regra do Jogo. Naquela época, e até os anos 60, o Estadão resistia aos estrangeirismos a ponto de proscrever das páginas galicismos como detalhe, greve, carnê. Hoje, se podem ler bobagens como “bullshit” até em editoriais. Se o leitor quiser entender, que compre um dicionário poliglota.

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Em contrapartida, o Manual de Redação e Estilo, preparado pelo jornalista Eduardo Martins, completa dez anos como virgem no bordel. Espalhou-lhe em tiragem de 750 mil exemplares e ficou cinqüenta semanas na venda de livros mais vendidos da revista Veja. É adotado por escolas, como a de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, e outros jornais. Faz mais sucesso na rua que em casa. Se fosse seguido, o Estadão seria mais bem-acabado.


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Boletim Nº 34 Série eletrônica
Setembro-Outubro de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 17 - agosto de 2000

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