Instituto Gutenberg



Revistas

Estripulias do cuchê

Propaganda racial, entrevista falsa,
erro sem correção

Racismo na banca - A revista Raça, da editora Símbolo, circula há cinco anos no fio da navalha. Tirou da capa o lema racista "A revista dos negros brasileiros", mas segue o projeto editorial de valorizar o negro na sociedade brasileira, com um tom de exaltação racial. Daí que as reportagens, seções, dicas e anúncios são voltados para negros. Brancos, pardos, índios e amarelos aparecem para fazer contraponto, a exemplo, no número 45, de uma reportagem que anuncia "gente nova no samba" e fala do pagodeiro Dudu Nobre (negro) e da cantora Luciana Carvalho (branca). Afora isso, a linha editorial é enviesada para a cor das fontes e dos protagonistas dos textos.

A proclamação da igualdade confunde-se com a exaltação da superioridade dos negros - seja como modelos, atores ou como operadores de telemarketing. Mas, como num filme de Spike Lee, circulam agressões intra-raciais. Na coluna Nossa Gente, de Aimée Louchard, Maurício Mellone e Luciana Porto, foi usado um trocadilho grotesco para o título de uma nota sobre a ONG Fala Preta: "Fala, preta". Quanto barulho não seria feito se circulasse uma revista de exaltação dos brancos com laivos racistas desse tipo.

Por menos que isso, representantes do movimento negro já investiram contra negros - até mesmo o cantor Tiririca foi levado ao tribunal, em 1996 pelo Centro de Apoio às Populações Marginalizadas (CEAP) por causa da música "Veja o cabelo dela". O álbum Florentina foi censurado e retirado das lojas sob a acusação de racismo. Ninguém apoiou a censura, e o juiz Carlos Flores da Cunha, da 23ª vara Criminal do Rio, mandou arquivar o processo.

Mais recentemente, a Associação Brasileira de Negros Progressistas cometeu a asneira ariana de acusar o governo de promover racismo na campanha contra a Aids, no Carnaval deste ano, só porque a modelo da propaganda, a atriz Carla Leite, é negra. A entidade disse que o Ministério da Saúde associou "a imagem da mulher negra a pessoa vulgar e irresponsável". A agência Master Comunicações, autora da campanha, deu uma resposta impecável: a atriz venceu o teste com trinta candidatas, muitas brancas, e discriminação haveria se ela tivesse sido desclassificada por ser negra.

Raça move-se num campo minado ao tirar partido comercial da cor da pele dos leitores. É a típica exploração de "um nicho de mercado", como se diz de publicações "segmentadas" que, em geral, transformam-se em catálogos da indústria - de cosméticos, de roupas, de calçados, como já fazem há mais tempo revistas que se dizem generalistas, a exemplo de Caras, Claudia, Nova. Oscilando entre costumes e consumo, a revista que exalta a negritude passa ao largo da política, limitando-se a registrar casos de racismo levados à justiça. Também patina ao aplicar, num país racista, mas mestiço por excelência, a fórmula multiculturalista importada dos Estados Unidos. É um equívoco que o antropólogo baiano Antônio Risério já chamou de "apartheid de esquerda".

Repórter auto-suficiente - Chico Buarque é um compositor de grande imaginação, mas a jornalista Mara Magaña, da revista Sexy, não fica atrás. Como não conseguiu uma entrevista com o compositor, a repórter fez as perguntas e deu as respostas, num solo de ficção editado em sete páginas, no número de junho, com o título "Vai passar". Não passou. A assessoria de Chico Buarque apontou a falcatrua: "Essa entrevista jamais foi concedida e contém erros clamorosos, como, por exemplo, citar a data de A Banda como 1969, ou então o Chico dizendo `Eu fiz o Pega, ladrão, Pega, Ladrão´. A canção, assinada por Julinho da Adelaide, chama-se Acorda amor, e em nenhum momento diz ´pega ladrão`; muito pelo contrário: ela `chama o ladrão.´ Além disso há frases desconexas, e até sem sentido, que jamais seriam ditas por Chico."

Era ler e desconfiar das frases maltraçadas atribuídas ao compositor. Os incautos que compraram a revista acreditando na chamada de capa ("Entrevista: Chico Buarque"), caíram no conto já aplicado por Sexy, em 1995, com a chamada "Barbara Gancia nua". Era uma pelada qualquer, mas a colunista da Folha não gostou, foi à Justiça e obteve uma indenização de 400 salários mínimos. Agora, antecipando-se ao processo, os editores de Sexy publicaram na Folha de S.Paulo um "comunicado público" em que reconheceram a fraude: "Investigamos fatos e provas apresentados pela autora da entrevista, e concluímos que a versão do compositor é verdadeira". Pediram desculpas e se disseram enganados "pela autora da entrevista". É de notar que a ficcionista de Sexy não era uma frila descuidada, mas editora-executiva, o terceiro posto na redação da revista.

Veja erra e moita - Os leitores de Veja foram enganados, na edição de 24 de maio, com a reportagem "FARCínoras" - "Assassinato com colar-bomba de uma mulher expõe o horror da guerrilha colombiana". Contava-se em quase duas páginas que um comando do grupo guerrilheiro Farc armou uma bomba-relógio no pescoço da fazendeira Elvia Cortés Gil e, como ela não pôde pagar a extorsão de 7.500 dólares, os guerrilheiros a abandonaram com a bomba. A polícia tentou o desarme, o petardo explodiu e matou Elvia e o perito em explosivos Jairo López.

Um mínimo de investigações e logo se estabeleceu que o crime não era responsabilidade da guerrilha - a qual, aliás, nem atua região de Chiquinquira, onde Elvia vivia. Até os parentes da fazendeira isentaram as Farc. Segundo o jornal El Colombiano, a notícia falsa prejudicou as negociações de paz entre o governo e a guerrilha, mas as conversações foram reiniciadas depois que as forças policiais reconheceram que as Farc nada tinham que ver com o crime. Quatro edições depois, Veja ainda não havia reconhecido o erro. No número de 28/6, publicou uma reportagem de seis páginas sobre a Colômbia, com chamada de capa, e lá não há uma linha sobre a verdadeira história de Elvia. A revista faz de conta que repor a verdade não é obrigação de quem dá notícia falsa.


Resposta da revista Raça:

Era uma vez uma vírgula racista

Racismo na banca. Com este título, o jornalista Sérgio Buarque de Gusmão abre a seção "Revistas" publicada no Jornal dos Jornais do mês de abril. O título é instigante, ainda que duvidoso. Estaria o autor referindo-se a atitudes racistas que acontecem nas bancas de jornais? Ou estaria ele falando das "bancas" examinadoras para as quais os candidatos de universidades, por exemplo, apresentam suas teses? É mais do que sabido que, em ambas as situações, o racismo quase sempre está presente. Da mesma forma que também está nas ruas, nos colégios, nas padarias, nos escritórios, nos bancos e (por que não?) na redação dos melhores jornais. Em todo caso, o destaque dado a tal artigo era tanto - foto ocupando quase 1/3 de página - que ficava impossível deixar de ler para tentar saber o que o senhor Sérgio havia descoberto de novo a respeito do racismo praticado pela RAÇA. Mas o colunista errou a mão mesmo foi no olho de sua primeira página, belamente ilustrada com a capa que trouxe a modelo Alessandra Costa - juntou as chamadas propaganda racial com entrevista falsa e erro sem correção. Quer dizer, o leitor incauto entenderá que as três se referem a uma mesma revista, a nossa. Bom, aqui temos de fazer uma observaçãozinha chata: será que, ao dar tanta ênfase a um (pelo menos para nós) falso caso de racismo, o colunista não deveria ter dado destaque maior ao fato de uma coleguinha ter inventado uma entrevista? Colocando essa nota de maneira tão discreta, o senhor Sérgio não estaria levando os alunos de jornalismo (provavelmente os mais assíduos leitores do Jornal dos Jornais) a pensar que, com um pouco de imaginação, poderiam dispensar o entrevistado sem cometer um delito grave? Que frustração... Depois de ler, reler e tornar a ler o texto de difícil compreensão (graças a Deus o senhor Sérgio não é racista, senão poderia até dizer que não o entendemos porque somos negros), para usar um eufemismo, descobrimos que ele, na verdade, não parece defender nem atacar a causa negra. Mas tem grandes preconceitos, sim. Preconceito em relação a uma publicação dirigida aos brasileiros negros e preconceito em relação à gramática. Acreditem ou não, ele não gosta de vírgula. Aliás, mais do que isso: abomina esse pobre apêndice e chega a atribuir a ele conotações racistas. Dá para acreditar?

Vamos aos fatos. Sob o pretexto de fazer um comentário crítico a respeito da revista RAÇA, o ilustríssimo senhor se perde na falta de informação. Diz, no primeiro parágrafo, que o veículo existe há cinco anos, quando, na realidade, circula há apenas três (chegaremos aos cinco, apesar dos defensores do deixa-como-está-pra-ver-como-é-que-fica). Afirma que a publicação esteve sempre no fio da navalha (por mais boa vontade que tivéssemos, não conseguimos entender o que ele quis dizer com isso, já que a RAÇA é uma revista bem-sucedida). Fora isso, o colunista entra em contradição várias vezes (declara, por exemplo, que a revista segue seu projeto editorial de valorizar o negro e depois se espanta com o fato de a RAÇA procurar, preferencialmente, personagens negros), acusa, sem fundamento, o projeto editorial chamando-o de nazista (ou, então, o que ele quer dizer quando enfatiza que a revista faz a exaltação e prega a superioridade dos modelos negros?) e se perde o tempo todo num texto de conteúdo incoerente. Lamento, mas tive de lembrar do velho ditado que fala de quem ouve o galo cantar e não sabe onde. Como sempre pode ser pior, há quem nem chegue a ouvir o galo cantar e os que nem sabem que o galo canta, como dizia Jaguar num artigo do antigo O Pasquim.

Bem, pulando alguns trechos por puro cansaço, finalmente chegamos ao ponto.

Opa, quer dizer, à vírgula. Inexplicavelmente, o senhor Sérgio Buarque Gusmão se irrita com o título de uma nota da revista (pasmem, senhores, uma nota) que, ao se referir à ONG Fala Preta!, se utiliza da pobre, inocente e inofensiva vírgula para tornar o título mais atraente - Fala, Preta! O senhor Sérgio, comportando-se como se fosse um paladino da justiça, não engoliu o que entendeu como “desaforo”. Para despencar na revista toda a sua ira, usou a pobrezinha da vírgula atribuindo a ela um sentido mais uma vez nazista. Ficamos aqui na redação preocupados e imaginando qual seria a interpretação do colunista caso tivéssemos usado reticências no tal título da nota: Fala... Preta! Estaria ele, agora, nos rotulando de subservientes ou gente de corpo mole? E se tivéssemos recorrido ao ponto de interrogação - Fala? Preta! Será que ele nos chamaria de inquisidores implacáveis? E quanto ao duplo ponto de exclamação - Fala! Preta! Talvez nos acusasse de autoritarismo. Vai saber... A relação entre esse senhor e a gramática é uma coisa bastante complicada, singular para dizer o mínimo.

Tudo bem. Cada um escreve como quer e interpreta a gramática e a vida do jeito que bem entender. O problema, isso sim é grave, é ocupar quase duas páginas de uma revista com informações desencontradas e falsas que colocam em dúvida a ética, o profissionalismo e o empenho de uma equipe que há anos vem lutando, a duras penas, para exercer um jornalismo decente, ainda que sem estrelas. Pelo direito mais do que legítimo de dar espaço a uma parte da população brasileira tão grande e, no entanto, tão marginalizada como a dos negros. Pela vontade de contribuir para uma sociedade mais justa. Pelo desejo de construir um país realmente democrático. Pela intenção de ajudar no processo de construção da cidadania da pessoa negra.

Racistas, senhor Sérgio? Racistas uma vírgula!!! Em tempo: DE ACORDO COM A LEI ANTI-RACISMO 7716/79, RACISMO É CRIME. AINDA BEM QUE NÓS NEGROS SABEMOS QUE AS PESSOAS CONFUNDEM RACISMO COM PRECONCEITO E PRECONCEITO COM DISCRIMINAÇÃO. MAS ISSO É UMA OUTRA HISTÓRIA... Amélia Nascimento
Editora-chefe


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Boletim Nº 33 Série eletrônica
Julho-Agosto de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 16 - Julho de 2000