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Idioma

Bárbaros são os outros

Jornal critica TV, mas também pratica o bilingüismo

A TV é um saco de pancadas da imprensa, ainda que jornais e revistas cometam erros idênticos aos que criticam. Tome-se, por exemplo, a defesa do idioma que certos jornais fingem fazer, episodicamente, usando a televisão como mau exemplo da desnacionalização da língua portuguesa e palco iluminado dos erros de ortografia. O Valor, dos grupos Folha e Globo, jornal novo que vem se afirmando pela correção e variedade, tropeçou em 9/6 num artigo assinado por Hélio Guimarães sobre os "maus-tratos incríveis" que a língua sofre em programas infantis. O famoso erro da apresentadora Carla Perez ("i de escada?", ela perguntou num programa do SBT) foi, mais uma vez, o pretexto de demonstração do "português amesquinhado" da TV, seguido por demonstrações do bilingüismo que realmente desfigura o idioma de Camões.

É fácil criticar a ágrafa Carla Perez, cujos atributos não estão propriamente na linguagem, e é conveniente fazer vista grossa às patacoadas lingüísticas da elite da imprensa. A edição do jornal que critica a desnacionalização do idioma na TV é a mesma que dá o enorme título "Off Broadway", com a retranca "no business like show business", no que parece ser uma tentativa de apressar a entronização do inglês como a língua franca da imprensa de negócio. O jornal que aponta a "ausência de tradução" de títulos de desenhos animados, serve palavrões como "joint venture", "hedge", "bradies", "pipe line", "talk of the town", "swing", "beat", "layout", "call centers", "big-bosses", "soft". É conveniente criticar a subcultura da TV e desviar o foco da elite da mídia, como a Folha, que tem um suplemento juvenil chamado Teen, e o caderno infantil do Estadão , que sapeca estrangeirismos para a garotada ("Hora de pedir um help"). Cada vez mais, os jornais são editados segundo a regra de uma mão não ver o que a outra faz.

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Está em curso uma gradual substituição de site por sítio na Internet. Como já foi dito aqui, a preferência por site é um acinte, uma macaquice colonizada que os portugueses e os espanhóis não cometeram, mas que a indústria da mídia do Brasil adotou sem verificar que site e sítio têm a mesma matriz latina, situs, e acepção idêntica em inglês e português. Se sítio também significa chácara, é por conta de um saboroso brasileirismo.

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Sai até o fim do ano o Dicionário Houaiss, preparado, após a morte de Antonio Houaiss, pelo sobrinho do filólogo, Mauro Villar. Vem com 220 mil verbetes, mais que o Aurélio. Poderia vir com 440 mil ou 880 mil, tantos são os estrangeirismos incorporados, na grafia e na prosódia, ao vocabulário portinglês. Do dicionário lusófono - registra vocábulos usados nos demais países de língua portuguesa - vão constar barbaridades como "baby blues", expressão inglesa que, em português, quer dizer depressão pós-parto. De modo que se pode dizer na língua de Camões: "A baby-sitter de baby blues comeu baby-beef e vestiu baby-doll." É levar ao pé a letra Baby, de Caetano Veloso: "Você precisa aprender inglês."


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Boletim Nº 33 Série eletrônica
Julho-Agosto de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 16 - Julho de 2000

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