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Títulos

Curtos e grossos

Jornais preferem letras enormes e frases breves

Os grandes jornais brasileiros seguem uma perigosa tendência de aumentar o tamanho da letra e reduzir o comprimento dos títulos. Alguns adotam o modelo de revista, como o Jornal do Brasil e o Correio Braziliense, anunciando a notícia em duas ou três palavras - fórmula que conduz, inevitavelmente, à editorialização, ou seja, o título já embute uma apreciação. Ficou comum o título de uma linha, escrito em letras (corpo, no jargão jornalístico) enormes, em prejuízo da clareza e, sobretudo, da objetividade.

É prática curiosa porque, sobretudo na 1ª. página, os jornais já não precisam da manchete garrafal para atrair leitor na banca, pois a maioria esmagadora das compras é feita por assinatura, por fidelidade ou interesse num assunto específico, não importando o tamanho da manchete. Para compensar o título curto, usa-se uma sucessão de retrancas, sobretítulos e subtítulos, como neste exemplo do Jornal do Brasil de 18/4:

"Que polícia é essa?
PMs acusados de violência e achaque
Revoltados com a morte da menina, moradores de Inhaúma resolvem sair do anonimato".
Pior, impossível. O título propriamente dito ("PMs acusados...") tem 35 caracteres com espaço (toques, no jargão jornalístico). No mesmo dia, a Folha dava como manchete: "PMDB libera voto e dá chance a Pitta", com 36 toques (a propósito: os vereadores do PMDB deram os votos para a abertura do processo) e o Estadão saía com "Governo vai terceirizar a reforma agrária" (41 toques). Estes tamanhos - em torno de 40 toques - vêm a ser a média da manchete de uma linha em seis colunas ou toda a largura da página.

Em contrapartida, a tendência nos jornais americanos, onde o cuidado com a objetividade e o receio de editorializar são maiores, é reduzir o estardalhaço gráfico e aumentar o número de palavras. No mesmo dia, o New York Times dava como manchete principal "World Trade Officials Pledging to Step Up Effort Against", um discurso com 61 toques adelgado em apenas duas colunas.

A tendência para redução dos títulos é antiga. Comparados como os do passado, os títulos de hoje parecem um telegrama ao lado de um romance. Até os anos 40 não havia medição, isto é, não eram diagramados e contados. Em geral, o próprio repórter escrevia-o numa lauda separada e, na oficina, alguém dava um jeito de fazê-lo caber na página, não importando o tamanho da letra. A contagem foi introduzida por Assis Chateaubriand, em O Jornal, e levada ao radicalismo por Pompeu de Souza, que modernizou o jornalismo brasileiro nos anos 40, no Diário Carioca. Pompeu acabou com a solenidade discursiva dos títulos. Se a notícia era a substituição do Ministro da Guerra, o padrão do título era este: "O Senhor General Eurico Gaspar Dutra demite-se do Ministério da Guerra e é nomeado para substituição o Senhor General Pedro Aurélio de Góis Monteiro". Pompeu trocou tudo isso por um singelo (e escandaloso) "Sai Dutra, entra Góes".

Nos anos 60, o JB, numa de suas piores fases, inventou o título-comadre, aquele que contava tudo com os mínimos detalhes, do tipo:

Ladrão invade casa no Leme, faz
reféns, troca tiros com a polícia
mas se entrega e tudo acaba bem

Nos anos 70, os títulos encurtaram como a liberdade de imprensa na época. No Estadão havia um espremido 130, código da tortura que obrigava o redator a resumir uma notícia em três linhas de dez toques. Apesar da exiguidade, alguns títulos curtos ficaram na história, como o de Carlos Eiras, no Diário da Noite de São Paulo, a propósito de uma notícia de que o papa Pio XI estava com gangrena no pé: "Podre o pé do papa". No JB, ficou famosa uma pequena obra de arte do secretário José Silveira, que, para contar a rejeição do presidente Juscelino Kubitscheck ao Fundo Monetário Internacional, escreveu: "JK: FMI não".

O título será sempre um exercício de síntese perfeita, clara, informativa, sem ambigüidades, às vezes mais ferino que um tiro de canhão, como este da Folha em 6/4: "Mínimo dá e sobra, diz Malan".


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Boletim Nº 32 Série eletrônica
Maio-Junho de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 14 - Maio de 2000

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