Instituto Gutenberg

História

Papéis de chumbo

Os grandes jornais e a ditadura militar

O Estadão faz uma gloriosa campanha de propaganda para comemorar seus 125 anos de existência e 120 de "vida independente" - expurgando o lustro em que foi confiscado pela ditadura do Estado Novo, em 1940, e só reassumido por seus proprietários em 1945. Poucos jornais do Brasil podem ostentar a destemida combatividade que, sobretudo desde 1891, quando Julio Mesquita assumiu a orientação política, o jornal imprimiu na história do País. Defendeu a Abolição da Escravatura, a República, a Revolução de 30, a revolta de 32 e o golpe de 64 - de cuja linha logo afastou-se. Não é obra que se comemore, mas foi o único diário continuamente censurado na gráfica, no período entre 1972 e 1975, enquanto os demais recebiam o índex da censura pelo telefone.

O comportamento da elite da imprensa brasileira durante os "anos de chumbo" ainda espera um estudo minucioso - e equilibrado - que separe os heróis dos adesistas, os resistentes dos bravateiros. Há muito exagero tanto entre os que acusam toda a imprensa de ser servil à ditadura militar e dela beneficiar-se para prosperar durante o chamado "milagre econômico" dos anos 70, como também inflam os fatos aqueles que, baseados na resistência altiva de alguns meios de comunicação, generalizam um heroísmo que foi parcial e até desproporcional ao poder de pressão da mídia.

Um pano de fundo deve envolver a análise: havia uma ditadura e havia censura. Qualquer crítica à imprensa que não der um peso expressivo ao arbítrio institucional será um furo na História. O alvo principal deve ser a ditadura, que suprimiu as liberdades democráticas.

Apesar dessas ressalvas, existem episódios a esclarecer. Um deles é a colaboração da Folha de S.Paulo com a repressão mais violenta e abjeta desencadeada no período, na Operação Bandeirantes, em São Paulo, um centro de tortura e assassinato de militantes da esquerda - armada (os "terroristas") ou não (os "reformistas").

O assunto tem rondado a empresa Folha da Manhã como um fantasma do reino da Dinamarca. Numa sessão da Câmara em homenagem ao jornal, o presidente do PT, deputado José Dirceu, mencionou os crimes contra o jornalismo e os direitos humanos cometidos durante a ditadura pelo jornal Folha da Tarde. "É preciso fazer uma revisão histórica da participação do Grupo Folha naqueles anos, particularmente da Folha da Tarde", disse Dirceu, cujas declarações foram reproduzidas pela Folha no pé da reportagem "Câmara elogia contribuições da Folha". O assunto já havia aparecido no livro Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, lançado no final do ano passado. Conti diz que "até o final de 1968 as organizações terroristas de esquerda destacaram alguns de seus militantes jornalistas para trabalhar na Folha da Tarde" e nos "início dos anos 70 foi a vez de policiais dos órgãos de informação da ditadura se assenhorearem do jornal." Registra que o atual diretor de Redação da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, ouviu na faculdade "histórias sobre o envolvimento da empresa da família com os órgãos de repressão política, inclusive sobre o uso de caminhonetes na caça aos esquerdistas. Perguntou ao pai qual era a verdade. ´Se aconteceu, foi à minha revelia`, respondeu Frias. ´Nunca me pediram isso` ".

Com este esqueleto no armário, a Folha pena ao desviar-se de estocadas como a de Evandro Carlos de Andrade, nada menos que diretor de Jornalismo da Rede Globo. Em carta à colunista Barbara Gancia, mas na qual espinafrou o jornal inteiro, Evandro deu o troco à rotineira acusação de que a Globo apoiou a gosto a ditadura militar. "Aproveito para recomendar que procure saber um pouco da história da Folha de S.Paulo, empresa apenas comercial que prosperou extraordinariamente durante a ditadura, não graças à receptividade do público e à qualidade do que produziu, mas sim e apenas em retribuição ao incondicional apoio dado por esse jornal ao regime militar. A senhora por acaso já se interessou por saber a causa de, naquele tempo, serem queimadas as Kombis da Folha?", escreveu Evandro, em carta publicada na edição de 20/01. O jornal, em Nota da Redação, respondeu a várias críticas do diretor da Globo - algumas não menos pesadas, como a de que a Folha mente - mas ignorou a entrelinha de que montou um serviço de transporte para a repressão política.

A seguir saiu outra carta sobre o assunto, de Silvino Alves de Carvalho, leitor de São Paulo, com a observação de que "Nenhum outro jornal foi mais omisso e colaboracionista com a ditadura militar que a Folha" (registre-se a bravura do jornal em publicar as cartas). O leitor reiterou a acusação de que "vários veículos de entrega da Folha foram incendiados por grupos revolucionários em retaliação a sua iniqüidade jornalística". A "iniqüidade jornalística" a que se refere o leitor, também mencionada por Mario Sergio Conti em Notícias do Planalto, diz respeito às notícias fraudulentas publicadas pela Folha da Tarde, no período em que "os policiais" foram contratados para a redação. O jornal "noticiava" a morte de um "terrorista" num tiroteio imaginário - como fez com Joaquim Seixas, em 16 de abril de 1970 - mas ele estava preso. "Morto" no papel, podia ser torturado à vontade - e Seixas foi seviciado até morrer de verdade.

O jornal enfrentou o assunto ao responder a uma carta de Agildo Nogueira Junior (4/3), que perguntava: "A Folha colaborou com a ditadura? Por quê? Penso que vocês deveriam começar abrindo os próprios arquivos."

Em nota de redação, a Folha explicou que "O regime militar (1964-1985) passou por diferentes fases. No contexto da polarização da época, que dividia o país, a Folha aprovou a deposição do presidente Goulart. Esteve sob censura entre 1969 e 1983, quando a supressão das liberdades públicas atingiu seu ponto máximo. A partir de 1974, o jornal foi uma das principais vozes a reivindicar a democratização do país."

Ou seja, os arquivos permanecem fechados.


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Boletim Nº 32 Série eletrônica
Maio-Junho de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 14 - Maio de 2000

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