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Legislação

Tagarelas do poder

Autoridades e mídia justificam a "Lei da Mordaça"

O presidente da Associação de Distribuidores de Coco Verde de São Paulo, Gilberto Monteiro da Silva, foi morto em março, no auge das denúncias da ex-primeira Dama Nicéia Pitta contra o prefeito Celso Pitta, secretários e vereadores. Mídia (TV Globo à frente), polícia e Ministério Público e até a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) relacionaram o assassinato às denúncias, sublinhando que Silva, líder de camelôs, dissera ter sido ameaçado pela "máfia dos fiscais" da Prefeitura de São Paulo, quando fizera denúncias que conduziram à cassação do deputado estadual Hanna Garib. A Globo mostrou imagem do ex-deputado, relacionando-o ao assassinato. Resultado das investigações: a polícia prendeu dois pistoleiros e informou que eles confessaram o crime, praticado por encomenda de diretores que brigavam com Silva na Associação de Distribuidores de Coco. Nada que ver com a "máfia dos fiscais" nem com as denúncias de Nicéia.

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Três estudantes de classe média foram torturados e mortos numa casa de praia de Mongaguá, em abril, também em São Paulo. Um crime hediondo, tratado com indiferença pelo noticiário. Imediatamente, o delegado titular de Mongaguá, Orlando Augusto de Souza, apressou-se em atribuir às vítimas uma parte da responsabilidade pelo crime. Levantou a "hipótese", logo alardeada pela imprensa, de que os três jovens foram assassinados por causa de dívidas com traficantes. "O delegado disse acreditar que o crime tenha sido motivado por dívidas relacionadas a drogas.", registrou a Folha em 24/4. Resultado das investigações, conduzidas por uma equipe do Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoas da capital paulista: foram presos dois assaltantes, vizinhos dos mortos, que, segundo a polícia, confessaram ter torturado os garotos com espetos de churrasco e os matado com facadas, e roubado objetos como telefone celular, relógio e discos.

Por essas (e muitas outras) é que o Brasil chega ao exagero de providenciar uma lei, chamada por parte da imprensa de "Lei da Mordaça", para tirar dos agentes públicos o complexo de Sherlock Holmes, obrigando-os a investigar antes de julgar e a calar a boca para não dizer besteira.


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Boletim Nº 32 Série eletrônica
Maio-Junho de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 15 - Junho de 2000

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