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Censura

"Eu não sou Buzaid não"

O ministro Matarazzo e a filosofia da tesoura

O ministro-chefe da Assessoria de Comunicação, Andrea Matarazzo, censurou uma entrevista do líder do MST João Pedro Stedile na rede de TVs educativas e fez questão de dizer: "Eu não sou o Alfredo Buzaid". Não é mesmo. Buzaid, ministro da Justiça na ditadura do general Médici (1969-1974), teve ao menos a decência envergonhada de não tentar justificar o controle brutal que exerceu sobre a imprensa. Entrou calado e saiu mudo, como queria os adversários da ditadura.

A censura era ontem o que é hoje: o exercício discricionário do poder, que dá razão ao dito do filósofo inglês John Emerich Edward Dalberg, o lorde Acton: "O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente." Na megalomania do censor do Planalto, a primeira corrupção é a da censura; a tentativa de justificá-la é a ambição do poder absoluto. Esses cruzados do bem acham que basta explicar para validar qualquer arbitrariedade que cometam. "Um sujeito que incita o quebra-quebra de pedágios e que foi indicado pela Polícia Federal não pode aparecer numa TV Educativa dando entrevistas", justificou-se à repórter Monica Bergamo, da Folha, que revelou a tesourada do ministro.

Pela eloqüência, o ministro Matarazzo de fato não pode ser comparado ao ministro Buzaid. Seu espelho é Lourival Fontes, diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo. Afável, de pretensões intelectuais ("não era uma borra-botas qualquer", atestou o historiador Nelson Werneck Sodré), Fontes, encarregado da censura e da propaganda, tinha o poder ambivalente de calar uns jornais e soltar a língua de outros.


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Boletim Nº 32 Série eletrônica
Maio-Junho de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 15 - Junho de 2000