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Causo

O carinho da fera

Em 1947, ninguém menos que Graciliano Ramos, um mestre do vernáculo, já consagrado autor de S.Bernardo, Angústia e Vidas Secas, vigiava o português do Correio da Manhã. A julgar pelos colegas de redação, não tinha muito trabalho: revisava textos de Álvaro Lins, Franklin de Oliveira, Oto Lara Resende, Paulo Mendes Campos. Mas, volta e meia, estremecia com um solecismo e resmungava: "Cavalo".

Segundo Dênis de Moraes, na biografia O velho Graça, editada pela José Olympio em 1992, Graciliano formou a imagem de chato, mal-humorado e temido na redação - ainda mais porque trabalhava abastecido a copos de cachaça. Um dia, lendo uma nota de Heráclio Sales, sobre uma querela do poder familiar na República Dominicana, Graciliano levantou-se e caminhou em direção ao jovem redator, com a lauda na mão. Sales, um estilista, autor de um Dicionário Crítico da Literatura Brasileira, tremeu nas bases: "Ele vai me espinafrar".
- É você que é o Sales?
- Sou, sim senhor.
- Foi você que escreveu este troço?
- Foi.
De acordo com o relato de Dênis de Moraes, Graciliano bateu com os dedos na folha de papel e surpreendeu:
- Bom como o diabo.


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Boletim Nº 32 Série eletrônica
Maio-Junho de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 15 - Junho de 2000