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Idioma

O segundo erro

Mídia faz tudo para justificar massacre da língua portuguesa

Ainda é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um jornal admitir um erro grosso de português. Errar todos erramos, e a pressa com que escrevemos, embora não justifique, explica os coices no idioma. Mas é intolerável a arrogância de meios de comunicação que erram, negam o erro ou tentam justificá-lo com ilusionismos de gramático. A revista Veja (7/04/99) pôs na capa: "EXCLUSIVO O MASSACRE DA MOTO-SERRA". Bem, chamar motosserra de "moto-serra" não é propriamente uma exclusividade (até as leis do meio ambiente abatem o idioma com essa barbaridade).

Cobrada pelos leitores, a revista deu, na edição seguinte, uma explicação canhestra: "A grafia adotada na chamada de capa pode ofender a ortodoxia da regra culta do idioma, mas tem uma boa justificativa gráfica. A cada semana, há um longo processo até chegar à capa ideal - a melhor foto ou ilustração, a frase mais direta, o conjunto mais atraente. O título que aparece na capa da revista deve levar ao leitor a noção exata do que ele encontrará dentro dela. A opção por grafias não dicionarizadas já é um recurso bastante utilizado em publicidade. Na capa em questão, optou-se pelo hífen para diminuir a quantidade de letras dobradas na frase, facilitando seu entendimento.

Caso semelhante de "limpeza gráfica" aconteceu na capa da edição de 23 de agosto de 1989. Inúmeros leitores estranharam a palavra "seqüestro" grafada sem o trema (aqueles dois pontinhos em cima da letra "u"). Em palavras como "liqüidação", o trema desapareceu tanto da escrita quanto da fala em algumas regiões do país. Quando toma tais liberdades com a grafia das palavras na capa, VEJA sabe que está contrariando os puristas do idioma e gerando polêmica. Mas está também se valendo da dinâmica de uma língua viva e em constante mutação."

É como um larápio justificar-se com a frase: "Quando tomamos liberdades com os bens alheios, sabemos que estamos contrariando os puristas do Código Penal, mas nos valemos da dinâmica que mantém a propriedade privada em constante mutação..."

Mais recentemente, a Folha deu voltas para justificar o emprego da palavra massiva num antetítulo. O leitor Elisabeto Ribeiro Gonçalves escreveu para dizer que a palavra não existe na língua portuguesa. O jornal explicou-se: "A palavra existe em português, embora não seja registrada pela maioria dos dicionários e seu uso não seja recomendado por gramáticos." Não diga! A palavra não consta do Aurélio (massudo consta...), mas está devidamente registrada no Vocabulário Ortográfico preparado pela Academia Brasileira de Letras, ou seja, passou pela alfândega léxica e entrou no acervo vocabular oficial do português falado no Brasil. Resta saber o que o que é massivo.

The president
Numa entrevista à revista Resenha BM&F, da Bolsa de Mercadorias e Futuros (republicada pelo Jornal do Brasil e Estadão em 20/1), o presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a desnacionalizar a língua portuguesa ao usar expressões como "trade-off", "hub", "agribusiness". Sua excelência gosta de anglicizar as entrevistas com termos como "timming", "fast track" e outros palavrões ingleses incompreensíveis a seus eleitores. Vale para ele a história de Tibério, imperador romano (42 a.C-37), dado a enfiar barbarismos no latim, até ser criticado por um tribuno: "Tu, César, tens o poder de dar cidadania aos homens, não às palavras."


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Boletim Nº 31 Série eletrônica
Março-Abril de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 12 - Março de 2000