Instituto Gutenberg

Liberdade de imprensa

Cavalo de Tróia

Entidades corporativas manipulam informações

Não é do estilo do Instituto Gutenberg cobrar providências para gerar fatos, mas convém registrar que a Associação Nacional de Jornais fez que não viu um de seus associados, o jornal Meio Norte, o maior diário do Piauí, de braços dados com a censura, conforme já foi aqui registrado. O empresário Paulo Guimarães, dono do Meio Norte, pisoteou a liberdade de imprensa e recorreu à Justiça para impedir que os concorrentes noticiassem a acusação de que ele participa do crime organizado investigado pela CPI do Narcotráfico.

Qualquer mortal que recorre à Justiça para impedir a publicação de uma reportagem adversa é imediatamente considerado inimigo da liberdade de imprensa - prerrogativa reservada a jornalistas ou empresários do ramo. A doutrina de dar aveia ao Cavalo de Tróia foi aplicada, novamente, pela entidade que reúne os principais jornais brasileiros, com a cumplicidade dos grandes jornais brasileiros (nenhum deles insurgiu-se contra a censura invocada pelo Meio Norte). Em sua edição de março, o Jornal ANJ deu reportagem de uma página com o título "Liminares censuram informações" - e omitiu a patacoada de seu associado. Diz o texto:
"Em vários pontos do País, no início de 2000, medidas judiciais impediram a divulgação de informações. O quadro é sempre o mesmo. Pessoas suspeitas de envolvimento em escândalos ou mesmo formalmente acusadas estão buscando na Justiça a proteção de medidas liminares para impedir a divulgação de seus nomes na imprensa."

O texto é cabuloso ao datar as liminares no "início de 2000". Desta forma, livrou a cara do Meio Norte, que recorreu à censura em novembro do ano passado. Registre-se que num dos casos noticiados pelo boletim da ANJ, o beneficiado pela censura foi o desembargador do Amazonas Daniel Ferreira da Silva. O juiz Ruy Morato, da 4ª. Vara Cível de Manaus, proibiu os jornais locais de mencionarem o nome do desembargador, personagem, como o empresário da mídia do Piauí, dos anais da CPI do Narcotráfico, e também da do Judiciário. Quem ousasse desrespeitar a censura seria multado em R$ 1 mil por dia.

O presidente da ANJ, Paulo Cabral, mandou o clássico protesto: "É um inaceitável ato de censura, inadmissível numa democracia, que fere a liberdade de imprensa garantida pela Constituição Federal. Além de inconstitucional, trata-se de uma intimidação pecuniária descabida ao remeter à multa indenizatória". Os jornais do Piauí, censurados a pedido do dono de um deles, também foram submetidos a uma "multa indenizatória", e muito mais pesada: R$ 20 mil por dia.

O texto do protesto, em vez de ser enviado apenas ao juiz do Amazonas, pode ser colocado também na caixa postal do Meio Norte na sede da ANJ.

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Tim Crews, editor e repórter do jornal bissemanal Valley Mirror, editado em Glenn, no estado americano da Califórnia, ficou preso durante cinco dias por se recusar a revelar a identidade de uma fonte. Foi solto em 2 de março. No dia 14, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) divulgou seu relatório semestral sobre a atentados à liberdade de imprensa.

O relatório diz que "a caça de jornalistas continua nas Américas" e relaciona oito mortes de profissionais no período: cinco na Colômbia, um no México, um no Uruguai e outro na Guatemala. Segundo o Estadão, no documento final a SIP denuncia também que a imprensa do continente enfrenta "formas de manipulação ou de amordaçamento que têm surgido em países supostamente democráticos." Fala-se de Cuba, Venezuela, Peru - onde o atentado à liberdade de imprensa descrito pela SIP foi cometido na forma de "ataques verbais" de integrantes do governo ao diário El Comércio. Sobre a prisão de jornalistas nos Estados Unidos, nenhuma linha.


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Boletim Nº 31 Série eletrônica
Março-Abril de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 13 - Abril de 2000