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Justiça

Sentença não é notícia

Jornais dão mais destaque a acusação que a julgamento

Justiça não é notícia. A imprensa brasileira dá pouca importância às decisões do Judiciário - prefere exaltar ou amenizar a acusação, a depender de seu interesse político, ideológico ou simplesmente financeiro. Os grandes meios de comunicação não têm repórteres de Justiça - com solitárias exceções de informantes ou colaboradores, para confirmar a regra. Casos momentosos, depois de renderem dúzias de páginas sobre investigações, resultam num pífio noticiário quando sai a sentença da Justiça. Se a decisão do juiz (o juiz de direito...) não corrobora o libelo trançado nas páginas, sai sem destaque.

Enfileirar exemplos é tão fácil quando folhear um jornal. Um dos últimos disponíveis é o da condenação do banqueiro Ângelo Calmon de Sá a quatro anos de prisão em regime semi-aberto. O escândalo do Banco Econômico, em 1995, foi sensacionalizado em cadernos inteiros, diariamente. Foi capa de revista, manchete de noticiário de TV - e havia jornalismo no caso. O banqueiro Calmon de Sá era acusado de cavar um rombo de R$ 3,5 bilhões em numerosas operações irregulares. Só não se deu destaque na época às irregularidades emitidas pelos Banco Central, que emprestava dinheiro sem receber garantias, embora o próprio presidente da República mentisse sobre isso em entrevista coletiva. Mas o acobertamento dos erros praticados com o dinheiro público fazia parte do apoio servil da elite da mídia à política econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Cinco anos depois, um juiz da 2ª. Vara Federal da Bahia lavrou a primeira sentença - num rol de 34 processos abertos sobre a maracutaia no Econômico. A decisão judicial quebrou, ou ao menos foi um prego a mais na tradição de que banqueiro nunca é condenado. Pois bem, os grandes jornais, além de darem a notícia com atraso, a trataram como um fato rotineiro, sem maiores explicações, sem boxes ou retrancas auxiliares que situassem a decisão, e sem nenhuma repercussão nas edições seguintes. A Folha e o Jornal do Brasil, sequer deram chamada na 1ª. página. O jornal paulista escondeu o assunto entre o cipoal de notícias sobre as denúncias de Nicéia Pitta contra seu ex-marido, o prefeito de São Paulo Celso Pitta - em mais uma eloqüente demonstração de que, na imprensa brasileira, a denúncia merece mais destaque que o julgamento. O JB pôs a reportagem sobre a condenação de Calmon de Sá abaixo de uma bobagem virtual que considerou muito mais relevante: "Hackers atacam página da Anatel" - esta entronizada como manchete em seis colunas, enquanto a sentença do banqueiro foi limitada a três. O Estadão saiu-se melhor: deu manchete na página B11 ("Ex-dono do Econômico pega 4 anos de prisão"), mas limitou-se a um texto curto, muito menor que o destaque dado a asneiras como "Biologia abalou o Nasdaq".
Das revistas semanais, apenas Época publicou uma (pequena) reportagem sobre a "quarta-feira de cinzas" do banqueiro, condenado depois do Carnaval. IstoÉ e Veja confinaram o assunto em notinhas da seção Datas.


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Boletim Nº 31 Série eletrônica
Março-Abril de 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 13 - Abril de 2000